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Educação Vitória
sobre o atraso O ex-ministro
Paulo Renato Souza lança livro que resume os avanços recentes
da educação brasileira
Adriana
Zehbrauskas/Folha Imagem
 | BALANÇO
DA GESTÃO Paulo Renato: na educação, "o filme
é bom, mas a fotografia ainda é ruim" |
Há
dois anos afastado da política, o economista Paulo Renato Souza, de 59
anos, lança um balanço de seu trabalho como ministro da Educação
no governo Fernando Henrique Cardoso. O livro A Revolução
Gerenciada Educação no Brasil 1995-2002 (Prentice
Hall; 236 páginas; 49,90 reais) recolhe os principais feitos de sua gestão.
Basta examinar os anexos da obra, nos quais aparecem os indicadores estatísticos
do período, para perceber que a educação no Brasil deu um
grande salto. Sobretudo, houve um progresso que já se pode chamar de histórico
na universalização do ensino básico. Na faixa etária
dos 7 aos 14 anos, por exemplo, a porcentagem de crianças que freqüentam
a escola subiu de 88% em 1993 para 97% em 2003. Essa evolução foi
mais acentuada na faixa de mais baixa renda, cuja freqüência à
escola básica subiu 25% de 1992 a 2001. Ainda há, no entanto, um
grande atraso a ser vencido. Embora o investimento em educação no
Brasil some montantes de Primeiro Mundo, existem distorções na aplicação
desses recursos (veja quadro na pág. 132). Para definir a situação
geral da educação, Paulo Renato gosta de recorrer a uma imagem que
utilizou em um artigo para o jornal O Estado de S. Paulo no ano passado:
o filme é bom, mas a fotografia é ruim. Ou seja, visto como um processo,
o avanço nos últimos anos é significativo. Mas um instantâneo
da educação brasileira, em qualquer momento, revela que ainda há
muito que fazer.
Coincidentemente,
na semana em que Paulo Renato autografava A Revolução Gerenciada
em Porto Alegre e São Paulo, era divulgado um desses retratos estáticos
que não são lisonjeiros para o país. A Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência
e a Cultura (Unesco) apresentou, em Brasília, um relatório mundial
sobre a educação. A Unesco avaliou 127 países, tomando indicadores
de analfabetismo, matrícula na escola primária, evasão escolar
e equanimidade de acesso à escola por sexo, para compor um ranking de qualidade
educacional. O Brasil ocupa a 72ª colocação, atrás de
países como Peru, Líbano, Mongólia e Jamaica. "Embora tenhamos
feito muito nos últimos anos, ainda precisamos recuperar um atraso histórico
na educação", explica Paulo Renato. O ex-ministro, no entanto, é
otimista. Ele acredita que as reformas implementadas em sua gestão criaram
uma "inércia positiva" os índices da educação
devem continuar progredindo nos próximos anos, independentemente de acertos
ou erros do atual governo. Paulo Renato, porém, adverte que é necessário
conservar as reformas em andamento. "É preciso manter o foco do investimento.
A prioridade deve ser a educação básica", recomenda o ex-ministro.
Ed
Viggiani
 | ENSINO
UNIVERSAL Em dez anos, a porcentagem de crianças
entre os 7 e os 14 anos que freqüentam a escola se aproximou dos 100% |
As
maiores polêmicas do setor, porém, têm envolvido a universidade.
Houve certa resistência aos programas de avaliação de faculdades
por meio do famoso Provão. Paulo Renato também enfrentou duas greves
universitárias a segunda delas, admite, por uma falha do governo
em reajustar os salários dos funcionários. As distorções
do setor se revelam no custo médio anual de um estudante universitário
no Brasil 13.600 dólares, o que supera países como Japão
(10.200) e França (7.900). O que é mais grave, no caso, é
a desproporção gritante entre o investimento em ensino universitário
e aquele que se faz no fundamental. O custo do estudante de nível fundamental
brasileiro (em média, 900 dólares anuais) não se aproxima
do das nações desenvolvidas pelo contrário, fica abaixo
do de outros países da América Latina, como México (1.100)
e Uruguai (1.000). "As universidades seguem uma estrutura de setor público
que é inadequada para elas", diz Paulo Renato. A estabilidade no cargo
e a aposentadoria dos professores oneram demasiadamente o sistema. O ex-ministro
acredita que a gratuidade das universidades públicas mereceria ser revisada,
deslocando o foco da instituição para o aluno. O estudante carente
deveria ser isento em qualquer instituição que freqüentasse.
E o aluno que tem recursos deveria pagar, mesmo estudando em uma universidade
pública. A gratuidade, porém, é um dogma difícil de
ser questionado. "Vem da tradição portuguesa de que o Estado deve
prover tudo", especula Paulo Renato. Mexer na gratuidade das universidades federais
implicaria um desgaste político enorme. Realista, Paulo Renato não
acredita que o tema será abordado pelo atual governo do PT. Nem pelo PSDB,
se eventualmente o partido voltar ao poder. |