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Economia
e Negócios Mania
de prestação Para
milhões de brasileiros, desde que o pagamento caiba no salário
no fim do mês,
não existe empréstimo caro
 Carina
Nucci Cintia
Sanches
 | | O
apresentador Faustão, da Globo, faz merchandising para a Fininvest, do Unibanco
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Costuma-se
creditar ao tino para negócios do apresentador Silvio Santos a autoria
da idéia segundo a qual os consumidores pobres são melhores pagadores
porque prezam como ninguém o patrimônio de ter o nome limpo na praça.
Benevolente com os mais desfavorecidos, a tese não sobrevive ao teste da
realidade. Estudos e estatísticas mostram que os consumidores das faixas
de renda mais baixas são justamente os que mais atrasam seus pagamentos
não por desvio de caráter, mas pela simples falta de dinheiro.
Além de serem mais suscetíveis aos altos e baixos da economia, eles
têm menos capacidade de negociação por não possuir
emprego fixo nem bens para oferecer em garantia.
Embora conheçam essa situação melhor do que ninguém,
os maiores grupos financeiros brasileiros encontraram motivos de sobra para se
engalfinhar numa disputa ferrenha para emprestar dinheiro às classes C,
D e E, que ganham até cinco salários mínimos. Nos últimos
doze meses, o volume de empréstimos das financeiras Finasa-Zogbi, Losango
e Fininvest, as três maiores, subiu de 8 para mais de 10 bilhões
de reais. Juntas, elas dobraram o número de lojas, que chegou a 600 no
mesmo período. Acostumados a ser ignorados pelos bancos, os consumidores
de baixa renda estão sendo assediados pelas financeiras. O tapete vermelho
foi estendido a empregadas domésticas, motoristas e garçons. Na
televisão, figuras populares como o apresentador Faustão e o cantor
Leonardo fazem comerciais e merchandising falando das vantagens das financeiras
o braço dos bancos usado para atingir a população
de baixa renda. Todos oferecem crédito a quem não tem renda mas
está ávido por consumir.
Até meados do ano passado, apenas o Unibanco, com a Fininvest, e o Bradesco,
dono da Finasa, disputavam um mercado estimado em 60 milhões de pessoas.
Nos últimos doze meses, o Itaú entrou em cena com a criação
da Taií, e o HSBC resolveu estrear no negócio com uma política
de aquisições. Comprou a Losango e a Máxima, que hoje se
chama Valeu. O apetite de quem já estava no mercado também aumentou.
O Bradesco adquiriu a Zogbi, e o Unibanco ficou com a Creditec e os cartões
de crédito HiperCard. Uma série de fatores explica o interesse.
A queda do juro básico da economia de 2003 para 2004 deu aos bancos a certeza
de que, se quiserem manter a lucratividade, terão de emprestar menos ao
governo e mais a pessoas e empresas. Como os clientes das classes média
e alta já estão atendidos, restaria aos bancos buscar, com as financeiras,
a base da pirâmide social brasileira.
O risco de emprestar a pessoas não inseridas no universo bancário
é compensado pelas taxas de juros. As financeiras cobram, em média,
juros de 12% ao mês no empréstimo pessoal, o dobro da taxa cobrada
pelos bancos a seus clientes tradicionais. "Sabendo administrar o alto risco,
as financeiras dão bom retorno. Por isso, o crédito para a massa
tornou-se uma estratégia central no Unibanco", afirma Márcio Schettini,
vice-presidente de varejo da instituição, que, com a Fininvest,
controla o maior número de clientes (15 milhões de consumidores)
e foi a primeira entre as grandes a explorar esse filão.
Além disso, como a economia dá sinais de que poderá voltar
a crescer por um período mais longo, é bem possível que a
inadimplência das classes C, D e E seja reduzida gradativamente e que esses
consumidores sejam incorporados à clientela normal dos bancos. O HSBC,
dono da Valeu e da Losango, líder em financiamento de bens, espera usar
as financeiras como uma ponte para suas agências bancárias. "Apostamos
que pelo menos 25% a 30% dos atuais clientes da Losango têm perfil para
abrir conta conosco", avalia o presidente do HSBC no Brasil, Emilson Alonso. A
estratégia do banco é seguir uma política semelhante à
adotada no exterior. Nos Estados Unidos, o HSBC comprou a gigante americana Household
International para financiar o consumo popular. Na Inglaterra, o banco administra
as compras parceladas da rede de lojas e supermercados Marks & Spencer. "No
caso do Brasil, o interesse dos bancos pelas financeiras é ainda mais acentuado
porque as classes mais pobres representam a maioria da população
do país", analisa Jim Okamura, sócio da consultoria de varejo americana
J.C. Williams.
Os consumidores das classes C, D e E também estão sendo assediados
nos supermercados. O grupo Pão de Açúcar e o Itaú
formaram um banco para financiar as compras feitas na maior rede de supermercados
do país. O Carrefour e a financeira Cetelem anunciaram que vão abrir
um banco nos próximos meses para financiar até 3,5 bilhões
de reais por ano, o que equivale a um terço das vendas da rede. Já
o Unibanco vai se juntar à rede de supermercados Sonae. |