Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Economia e Negócios
Mania de prestação

Para milhões de brasileiros, desde que
o pagamento caiba no salário no fim do
mês, não existe empréstimo caro


Carina Nucci

Cintia Sanches
O apresentador Faustão, da Globo, faz merchandising para a Fininvest, do Unibanco

Costuma-se creditar ao tino para negócios do apresentador Silvio Santos a autoria da idéia segundo a qual os consumidores pobres são melhores pagadores porque prezam como ninguém o patrimônio de ter o nome limpo na praça. Benevolente com os mais desfavorecidos, a tese não sobrevive ao teste da realidade. Estudos e estatísticas mostram que os consumidores das faixas de renda mais baixas são justamente os que mais atrasam seus pagamentos – não por desvio de caráter, mas pela simples falta de dinheiro. Além de serem mais suscetíveis aos altos e baixos da economia, eles têm menos capacidade de negociação por não possuir emprego fixo nem bens para oferecer em garantia.

Embora conheçam essa situação melhor do que ninguém, os maiores grupos financeiros brasileiros encontraram motivos de sobra para se engalfinhar numa disputa ferrenha para emprestar dinheiro às classes C, D e E, que ganham até cinco salários mínimos. Nos últimos doze meses, o volume de empréstimos das financeiras Finasa-Zogbi, Losango e Fininvest, as três maiores, subiu de 8 para mais de 10 bilhões de reais. Juntas, elas dobraram o número de lojas, que chegou a 600 no mesmo período. Acostumados a ser ignorados pelos bancos, os consumidores de baixa renda estão sendo assediados pelas financeiras. O tapete vermelho foi estendido a empregadas domésticas, motoristas e garçons. Na televisão, figuras populares como o apresentador Faustão e o cantor Leonardo fazem comerciais e merchandising falando das vantagens das financeiras – o braço dos bancos usado para atingir a população de baixa renda. Todos oferecem crédito a quem não tem renda mas está ávido por consumir.

Até meados do ano passado, apenas o Unibanco, com a Fininvest, e o Bradesco, dono da Finasa, disputavam um mercado estimado em 60 milhões de pessoas. Nos últimos doze meses, o Itaú entrou em cena com a criação da Taií, e o HSBC resolveu estrear no negócio com uma política de aquisições. Comprou a Losango e a Máxima, que hoje se chama Valeu. O apetite de quem já estava no mercado também aumentou. O Bradesco adquiriu a Zogbi, e o Unibanco ficou com a Creditec e os cartões de crédito HiperCard. Uma série de fatores explica o interesse. A queda do juro básico da economia de 2003 para 2004 deu aos bancos a certeza de que, se quiserem manter a lucratividade, terão de emprestar menos ao governo e mais a pessoas e empresas. Como os clientes das classes média e alta já estão atendidos, restaria aos bancos buscar, com as financeiras, a base da pirâmide social brasileira.

O risco de emprestar a pessoas não inseridas no universo bancário é compensado pelas taxas de juros. As financeiras cobram, em média, juros de 12% ao mês no empréstimo pessoal, o dobro da taxa cobrada pelos bancos a seus clientes tradicionais. "Sabendo administrar o alto risco, as financeiras dão bom retorno. Por isso, o crédito para a massa tornou-se uma estratégia central no Unibanco", afirma Márcio Schettini, vice-presidente de varejo da instituição, que, com a Fininvest, controla o maior número de clientes (15 milhões de consumidores) e foi a primeira entre as grandes a explorar esse filão.

Além disso, como a economia dá sinais de que poderá voltar a crescer por um período mais longo, é bem possível que a inadimplência das classes C, D e E seja reduzida gradativamente e que esses consumidores sejam incorporados à clientela normal dos bancos. O HSBC, dono da Valeu e da Losango, líder em financiamento de bens, espera usar as financeiras como uma ponte para suas agências bancárias. "Apostamos que pelo menos 25% a 30% dos atuais clientes da Losango têm perfil para abrir conta conosco", avalia o presidente do HSBC no Brasil, Emilson Alonso. A estratégia do banco é seguir uma política semelhante à adotada no exterior. Nos Estados Unidos, o HSBC comprou a gigante americana Household International para financiar o consumo popular. Na Inglaterra, o banco administra as compras parceladas da rede de lojas e supermercados Marks & Spencer. "No caso do Brasil, o interesse dos bancos pelas financeiras é ainda mais acentuado porque as classes mais pobres representam a maioria da população do país", analisa Jim Okamura, sócio da consultoria de varejo americana J.C. Williams.

Os consumidores das classes C, D e E também estão sendo assediados nos supermercados. O grupo Pão de Açúcar e o Itaú formaram um banco para financiar as compras feitas na maior rede de supermercados do país. O Carrefour e a financeira Cetelem anunciaram que vão abrir um banco nos próximos meses para financiar até 3,5 bilhões de reais por ano, o que equivale a um terço das vendas da rede. Já o Unibanco vai se juntar à rede de supermercados Sonae.

 

 

 
 
 
 
topovoltar