|
|
Ambiente Os
ecopredadores O
crescimento do ecoturismo perturba a rotina dos animais e coloca em risco a
vida selvagem  Gabriela
Carelli
Ursos
com taquicardia, pingüins abaixo do peso normal e golfinhos de mau humor
há algo de errado no mundo animal, e a culpa não é
da natureza. Alterações como essas têm sido observadas na
fauna das regiões onde se pratica de maneira extensiva o ecoturismo. A
proximidade cada vez maior do ser humano acaba por perturbar a rotina dos bichos,
às vezes interferindo em seu metabolismo e modificando seu comportamento.
Uma série de estudos publicados pela revista New Scientist relaciona
vários casos desse tipo e conclui que, a longo prazo, os turistas podem
colocar em risco a vida selvagem que tanto desejam ver. Um exemplo são
os golfinhos da Nova Zelândia e da Escócia, que são assediados
por turistas em barcos e até em jet ski. Pesquisadores que acompanham a
rotina desses animais desde 1996 concluíram que, quando três ou mais
barcos estão nas proximidades, seu tempo diário de descanso cai
a 30% do normal. Por permanecerem muito tempo na superfície, sendo observados
e estimulados, dormem demais à noite. "Essa é uma séria ameaça
à espécie, pois a mudança de rotina faz com que eles não
se socializem nem procurem alimentos como deveriam", disse a VEJA o biólogo
Gordon Hastie, da Universidade British Columbia.
A cada outono, mais de 20.000 pessoas costumam visitar Manitoba, no Canadá,
para observar os ursos-polares. As viagens coincidem com o início do período
de preparação para a hibernação dos animais. Resultado:
em vez de descansar e engordar, os ursos ficam em estado de alerta, têm
o metabolismo acelerado e gastam a energia que deveriam manter armazenada para
o inverno. Os pingüins da Península de Otago, na Nova Zelândia,
que vive repleta de turistas, pesam 10% menos do os que vivem em locais remotos.
Na Amazônia, o impacto do homem foi aferido numa pesquisa da Sociedade Zoológica
de Frankfurt com um pássaro chamado cigana. Aqueles que vivem em locais
turísticos têm uma taxa de fertilidade 45% menor que os que vivem
sem contato com o ser humano. "O turista é sempre bem-intencionado, o problema
é que o ecoturismo cresce num ritmo muito intenso e faltam estudos sobre
o impacto da presença humana em determinados ambientes", disse a VEJA Martha
Honey, diretora da ONG Sociedade Internacional de Ecoturismo, baseada em Washington.
O ecoturismo responde por 20% de todo o turismo mundial e é o segmento
que mais cresce no setor: até 30% ao ano. Só os passeios para observação
de baleias já se tornaram uma indústria bilionária
e também uma ameaça. Todo ano mais de 9 milhões de pessoas
participam de expedições desse tipo em 87 países. De vez
em quando, os barcos acabam por se aproximar demais das baleias, machucando-as
e até matando-as. Nos Estados Unidos, apenas os navios da Marinha e os
petroleiros fazem mais vítimas entre esses animais do que os barcos de
ecoturistas. |