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Ambiente
Uma luz na fumaceira
Com a adesão da Rússia, o Protocolo
de Kioto, que combate o efeito estufa
na atmosfera, finalmente decola

Okky de Souza
Duas novidades animaram nas últimas
semanas as pessoas e instituições preocupadas com
o aquecimento global. A primeira delas foi a adesão da Rússia
ao Protocolo de Kioto, um acordo internacional que estabelece metas
para as nações industrializadas diminuírem
a emissão de seis gases nocivos à atmosfera, principalmente
o dióxido de carbono (CO2). Esses gases, produzidos
pela queima de petróleo e outros combustíveis fósseis,
são considerados responsáveis pelo chamado efeito
estufa, o aumento nas temperaturas do planeta, que no futuro próximo
pode ter conseqüências catastróficas para todo
tipo de vida. Para entrar em vigor e se tornar um regulamento internacional,
o acordo precisava do apoio de um grupo de países que, juntos,
respondessem por ao menos 55% das emissões de gases nocivos
no mundo com a entrada da Rússia, responsável
por 17% delas, a cota foi atingida.
A segunda notícia de impacto foi a
divulgação do mais completo relatório já
feito sobre o efeito estufa no Círculo Polar Ártico.
Elaborado por 250 cientistas de oito países, entre eles Estados
Unidos, Canadá e Rússia, o estudo conclui que o aquecimento
global está esquentando o Ártico quase duas vezes
mais rápido que o resto do planeta, provocando um derretimento
das geleiras que até o fim deste século pode acabar
com a calota polar e elevar o nível dos oceanos em 90 centímetros,
ameaçando milhões de vidas e acabando com cidades
inteiras (como as da costa da Flórida, nos Estados Unidos).
O relatório sobre o Ártico é
apenas o mais recente em meio a uma série de previsões
catastróficas produzidas pela ciência nos últimos
vinte anos, desde que o efeito estufa e o conseqüente aquecimento
global foram detectados e analisados. Há na comunidade científica
quem sustente que muitas dessas previsões são exageradas,
e até mesmo que o aumento da temperatura da Terra trará
alguns benefícios para a agricultura das regiões
muito frias, por exemplo. A maioria dos estudiosos, no entanto,
acredita que se está lidando com riscos palpáveis
para a natureza e a espécie humana. A temperatura geral da
Terra aumentou 0,5 grau no século XX e os anos 90 registraram
as temperaturas mais quentes da história. Em 2100, as regiões
do globo estarão de 1,5 a 2,7 graus mais quentes. Isso significaria
tempestades mais freqüentes e violentas, novas regiões
desérticas, maior incidência de males respiratórios,
invasões de insetos, surtos incontroláveis de dengue
e malária e por aí afora.
O mais importante instrumento criado até
hoje para prevenir esses desastres é justamente o Protocolo
de Kioto. Agora, com a adesão da Rússia, os países
que o assinaram terão de colocar em ação planos
de substituição de energia para deter a escalada da
fumaça que forma um cinturão de gases tóxicos
na atmosfera. O grande obstáculo ao sucesso do projeto são
os Estados Unidos. O governo Bush e o candidato derrotado
John Kerry anunciou que tomaria posição semelhante
caso fosse eleito se recusa terminantemente a assinar o protocolo.
O presidente avalia que a diminuição da emissão
de gases traria sérios prejuízos à economia
do país. Ele diz que considera o fantasma do aquecimento
global bastante real, mas prefere combatê-lo com ações
voluntárias por parte das indústrias poluentes e com
novas soluções tecnológicas.
O problema é que os Estados Unidos,
sozinhos, emitem nada menos que 36% dos gases venenosos que criam
o efeito estufa, e as ações anunciadas por Bush são
ainda um vago plano para o futuro. Apenas nos últimos dez
anos, a emissão de gases por parte dos Estados Unidos aumentou
10%. A questão do impacto do protocolo nas economias, porém,
não é desprezível. Outros países importantes,
como a Austrália, também resolveram ficar de fora
do pacto. A própria Rússia só decidiu aderir
ao descobrir que ele poderia servir de moeda de troca, junto à
União Européia (a maior defensora do acordo), para
seu ingresso na Organização Mundial do Comércio.
Por tudo isso, avalia-se que o Protocolo de Kioto é ainda
apenas uma luz no fim do túnel. Muitos cientistas, por outro
lado, minimizam as previsões catastróficas ligadas
ao aquecimento global na certeza do advento de novas descobertas
sobre o fenômeno no futuro próximo. Até 1979,
quando as medições da temperatura da Terra começaram
a ser feitas por satélites, tudo o que havia eram termômetros
espalhados meio aleatoriamente pelo planeta. Hoje, a ciência
está bem mais aparelhada.
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