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Saúde Choques
que salvam vidas O
desfibrilador é essencial no socorro a vítimas de parada cardiorrespiratória
 Giuliana
Bergamo
A morte do jogador Paulo Sérgio de
Oliveira Silva, o Serginho, zagueiro do São Caetano, poderia ter sido evitada
se houvesse em campo um aparelho chamado desfibrilador semi-automático,
próprio para o atendimento de emergências cardíacas. Pequeno,
leve e de fácil manuseio, o desfibrilador, quando usado com presteza, aumenta
em até 70% as chances de salvamento das vítimas de problemas como
o de Serginho. O jogador caiu fulminado por uma parada cardiorrespiratória
súbita, causada pelo tipo mais severo de arritmia na freqüência
cardíaca fibrilação ventricular, em linguagem técnica.
Isso significa que, naquele jogo fatídico contra o São Paulo, o
coração de Serginho começou a tremer num ritmo tão
intenso que não conseguia completar um batimento. O resultado foi o comprometimento
da irrigação sanguínea e, por fim, o colapso transmitido
ao vivo pela televisão. Em tais situações, a corrida é
contra o tempo. Quanto mais rápido for o atendimento, menores são
os riscos de o músculo cardíaco (e o resto do organismo) sofrer
as seqüelas decorrentes da falta de sangue. Desde o momento da parada, a
cada sessenta segundos as chances de salvamento caem cerca de 10%. Por isso, o
uso do desfibrilador é essencial nos primeiros instantes da parada cardiorrespiratória.
Ao disparar choques elétricos cuja intensidade pode chegar a 360 joules
o equivalente ao impacto no peito de uma bolada de 150 quilômetros
por hora , a máquina faz com que o coração volte a
bater em seu ritmo normal. Claudio
Rossi
 | "Depois
de uma partida de boliche no clube, eu me senti mal. A caminho da ambulância,
tive a primeira parada cardíaca. Lá mesmo, no chão, recebi o choque. Graças a
ele estou vivo." Wanderley Lazareth,
de 56 anos, advogado, de São Paulo |
Cerca
de 160.000 pessoas morrem anualmente no Brasil vítimas
de distúrbios que resultam numa parada cardiorrespiratória súbita.
Delas, 95% não conseguem nem chegar ao hospital. Os cardiologistas e médicos
especializados em atendimento de emergência são unânimes: se
o Brasil, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos e em alguns países
da Europa, dispusesse de uma lei federal que tornasse obrigatória a instalação
de desfibriladores semi-automáticos em locais públicos, muitas dessas
vidas poderiam ser salvas. As únicas cidades que têm uma legislação
específica sobre o assunto são Curitiba e Londrina, ambas no Paraná.
"O desfibrilador é como um extintor de incêndio: todo mundo torce
para que nunca precise usá-lo, mas ele tem de estar lá", diz o cardiologista
Sergio Timerman, presidente da Fundação Interamericana do Coração.
No Aeroporto Internacional de Chicago, essa não é uma metáfora.
Há dezenas de desfibriladores espalhados por suas dependências, e
as caixas em que eles estão colocados se assemelham às dos extintores.
Os aparelhos foram dispostos de tal forma que se uma pessoa passa mal, não
importa o ponto do aeroporto em que ela esteja, há um desfibrilador a,
no máximo, um minuto de distância tempo que um adulto leva
para percorrer, num terreno plano e a passos largos, 75 metros. No momento em
que a caixa que guarda a máquina é aberta, um alarme soa na central
de urgências médicas e a equipe de salvamento corre em socorro do
paciente. Desde que o sistema foi implantado, em 1998, as taxas de mortalidade
por parada cardiorrespiratória nas dependências do aeroporto de Chicago
foram reduzidas pela metade. Até meados da
década de 90, os desfibriladores eram equipamentos de uso exclusivamente
hospitalar. Com o avanço da tecnologia, foram desenvolvidas máquinas
menores, fáceis de transportar e, sobretudo, de utilizar. Em setembro passado,
a agência americana de controle de remédios e alimentos, a FDA, autorizou
a venda de desfibriladores em farmácias e grandes redes de supermercado.
Assim que o estojo do desfibrilador é aberto, um comando de voz indica
passo a passo o que fazer. Primeiro a máquina analisa a atividade cardíaca
da vítima. Se não for detectada uma fibrilação, o
comando de voz desaconselha o uso do aparelho. Do contrário, a pessoa é
instruída a acionar o botão que dispara o choque no coração
(veja quadro). Os americanos compram, em média,
35.000 desfibriladores desse tipo por ano. No Brasil,
as vendas anuais não ultrapassam as 100 unidades cada uma sai por
12.000 reais, em média. A maioria das máquinas
foi adquirida por clubes recreativos, condomínios residenciais, empresas
de grande porte (geralmente multinacionais), companhias aéreas e times
de futebol, como o Corinthians e o Palmeiras. Na semana seguinte à tragédia
no Estádio do Morumbi, o São Paulo comprou uma. Os porta-vozes do
São Caetano, o time de Serginho, dizem que só incluirão o
desfibrilador semi-automático no kit de primeiros socorros do time se a
Confederação Brasileira de Futebol assim determinar. Pois é.
Entre as pessoas físicas, pode-se contar nos dedos o número de proprietários
de um desfibrilador. O desenhista Mauricio de Sousa é um deles. O seu aparelho
é mantido no escritório, à disposição dos 300
funcionários que lá trabalham. O publicitário Nizan Guanaes
guarda o seu no carro.
Heloisa Bortz
 | MAURICIO
DE SOUSA O desenhista mantém um aparelho no escritório,
à disposição dos 300 funcionários que lá trabalham |
O advogado paulista Wanderley Lazareth, de 56 anos, sabe por
experiência própria da importância de ter um desfibrilador
à mão. Em 11 de setembro do ano passado, depois de uma partida de
boliche com os amigos no Esporte Clube Pinheiros, ele começou a sentir
fortes dores no peito. As mãos e os pés formigavam. Em seguida,
o ar começou a faltar. A equipe médica do clube foi chamada. A caminho
da maca, Lazareth deu três passos e caiu, com uma parada cardiorrespiratória.
Ali mesmo, no chão, ele recebeu os choques do desfibrilador. O coração
voltou a bater. Na ambulância que o levaria ao hospital, o advogado sofreu
a segunda parada. A situação crítica foi contornada com novos
choques. As duas paradas sofridas por Lazareth foram decorrentes de um infarto.
Nem todo infarto, no entanto, resulta em parada cardiorrespiratória. Nesses
casos, o tratamento de choque não resolve nada (veja
quadro). A morte de Serginho fez com que
aumentasse a busca de informações sobre o aparelho. Os representantes
da fabricante americana Medtronic, por exemplo, registraram um aumento de 40%
no número de clientes interessados em comprar um desfibrilador. "O desfibrilador
é importante, mas não pode se transformar numa neurose a ponto de
cada um querer ter o seu", diz o médico Milton Glezer, do Hospital das
Clínicas de São Paulo. Estudos da Associação Americana
do Coração indicam que o ideal é que haja desfibriladores
disponíveis em lugares com grande concentração de gente,
na proporção de um aparelho para cada 2.000
pessoas. Trata-se da melhor relação custo-benefício, visto
que, numa concentração desse porte, o risco de ocorrência
de um problema cardiorrespiratório é de um a cada três anos
e oito meses. É nesse cálculo que se baseia a maioria das legislações
sobre a obrigatoriedade de desfibriladores em locais públicos inclusive
o projeto de lei que, desde o ano passado, está parado no Congresso brasileiro.
É essencial que, além do desfibrilador,
esses locais contem com uma equipe de funcionários treinada para atender
casos de parada cardiorrespiratória súbita. Um shopping center,
por exemplo, poderia adestrar seus seguranças. Em quatro horas, em média,
é possível aprender como reconhecer um distúrbio cardiorrespiratório
e quais as manobras que devem ser executadas enquanto o desfibrilador não
é acionado ou caso ele não surta efeito, como a massagem cardíaca
e a respiração boca a boca. É importante frisar que essas
medidas não têm o poder de reverter por completo uma fibrilação.
Elas apenas mantêm a circulação e a oxigenação
do coração até a chegada de um socorro mais especializado.
Salvamento
químico Photodisc
 | QUANDO
OS CHOQUES FALHAM... ...adrenalina na veia passa
a ser muito mais do que uma simples expressão |
O
desfibrilador é a arma mais eficaz para reverter uma parada cardiorrespiratória
súbita. Há casos, no entanto, em que os choques elétricos
disparados pelo aparelho não conseguem fazer o coração voltar
ao seu ritmo normal. Se, depois de três choques consecutivos, o quadro não
for revertido, deve-se partir para o uso de remédios cuja função
é facilitar o processo de desfibrilação por novos choques.
Os protocolos internacionais recomendam que a primeira opção seja
por substâncias vasoconstritoras, como a adrenalina. Isso porque, durante
a fibrilação, a pressão arterial vai a zero. Injetados na
veia do paciente, esses remédios promovem a contração das
artérias e, com isso, elevam a pressão, o que facilita o fluxo do
sangue rumo ao músculo cardíaco. Ao contrário do que muita
gente imagina, o dinitrato de isossorbida, cuja marca mais famosa é o Isordil,
não deve ser usado em casos de infarto com parada cardiorrespiratória.
O motivo: ele é um vasodilatador de efeito instantâneo. Outro remédio
de que os médicos lançam mão em emergências é
a amiodarona. No mercado brasileiro há mais de quarenta anos, sob a forma
de comprimidos, ela é indicada para o controle de arritmias cardíacas,
angina do peito e taquicardia grave. Numa parada cardiorrespiratória, a
amiodarona é usada em sua versão injetável. A substância
age diretamente nas células cardíacas, tentando normalizar os impulsos
elétricos responsáveis pelos batimentos do coração.
O futuro imediato aponta para o uso de trombolíticos na reversão
de paradas cardiorrespiratórias. Sintetizados na década de 70, eles
são originalmente indicados para a dissolução de coágulos
que levam ao infarto. O seu mecanismo de ação na desfibrilação
cardíaca ainda não foi desvendado. No entanto, segundo estudos apresentados
no congresso da Associação Americana do Coração, na
semana passada, em Nova Orleans, os trombolíticos têm se mostrado
eficazes em 68% dos casos.
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