Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Arquitetura
A catedral invisível da arte

A nova sede minimalista e transparente
de um dos mais importantes museus
do mundo – o MoMA de Nova York


Tania Menai, de Nova York


Elizabeth Felicella/Projeto Kohn Pederson Foxd Assoc. e Fotomontagem de Robert Bowen
Imagem computadorizada do prédio criado por Yoshio Taniguchi: "Dêem-me dinheiro e eu farei a arquitetura desaparecer"


O Museu de Arte Moderna de Nova York – o MoMA – possui um acervo inestimável. Nele figuram obras célebres como Les Demoiselles d'Avignon, do espanhol Pablo Picasso, e Noite Estrelada, do holandês Vincent van Gogh, além da série de latinhas de sopa Campbell's do artista pop americano Andy Warhol. Fundada em 1929, a instituição teve forte influência na difusão e valorização da arte moderna em todo o mundo e não seria exagero dizer que a ela se deve muito do conceito de museu tal e qual se conhece hoje – não apenas um repositório de objetos do passado, mas uma espécie de laboratório cultural, devotado ao aprendizado e ao entretenimento. Ao longo das décadas, o MoMA passou por diversas ampliações para acomodar um acervo em constante expansão. A partir do próximo sábado, dia 20, o público poderá conhecer o resultado da mais formidável dessas reformas. Sua sede, localizada desde 1939 entre as ruas 53 e 54, nas imediações da Sexta Avenida, será reaberta depois de quase quatro anos de obras que consumiram 425 milhões de dólares – e levaram sua coleção a ser realocada, durante boa parte desse período, para um espaço no distante bairro do Queens. O MoMA que ressurge dos tapumes chama atenção não só por suas dimensões – suas galerias ocuparão um total de 11.600 metros quadrados, quase 50% a mais do que tinham anteriormente. Projetado pelo arquiteto japonês Yoshio Taniguchi, conhecido por seu estilo austero e avesso a qualquer ostentação, o novo prédio é uma estrutura com espaços amplos e linhas que parecem se diluir no ar. Num artigo na revista New Yorker, o escritor John Updike o definiu de forma poética: "Seus seis andares de câmaras brancas se fundem à paisagem da metrópole para formar, com seus tesouros, uma catedral invisível".

O edifício criado por Taniguchi marca um retorno ao básico no design de grandes museus. Nos últimos anos, imperaram nessa área projetos vistosos e impactantes, como o Guggenheim de Bilbao, um edifício dourado e cheio de curvas de autoria do americano Frank Gehry. O novo MoMA vai numa direção contrária: embora monumental, sua principal marca é a sobriedade. "Dêem-me um monte de dinheiro e eu lhes darei boa arquitetura. Dêem-me ainda mais dinheiro e eu farei a arquitetura desaparecer", costuma brincar Taniguchi, referindo-se à sua preferência por linhas discretas e pelo mínimo de detalhes. A escolha de seu projeto dentre dez candidatos, em 1997, fez com que muita gente no meio das artes e da arquitetura nos Estados Unidos torcesse o nariz – aquilo lhes parecia tão frugal quanto os edifícios corporativos que pipocam nas vizinhanças, carecendo do glamour de obras traçadas por figuras badaladas como Gehry e o holandês Rem Koolhaas. Até mesmo Taniguchi recebeu a decisão com espanto. Na data marcada para apresentar o projeto aos patronos do MoMA, depois de se convencer de que tivera um desempenho desastroso ele foi direto a um bar nas redondezas para encher a cara.

 
Timothy Hursley/divulgação
Uma das novas galerias: espaços mais amplos

Embora nunca houvesse feito um trabalho fora do Japão, em sua terra natal Taniguchi goza de imenso prestígio. Filho de um dos primeiros arquitetos a abraçar o ideário modernista naquele país e discípulo de Kenzo Tange, o nome mais importante do modernismo japonês, Taniguchi, de 67 anos, é autor de projetos que resgatam idéias como a de que a funcionalidade deve vir acima de tudo na concepção de um edifício. Ele é também um mestre no uso do aço e do vidro, com os quais cria estruturas transparentes como a do Aquário de Tóquio. Logo em sua reabertura, o MoMA abrigará uma mostra devotada aos nove museus criados pelo arquiteto no Japão nos últimos 25 anos, como o Museu de Arte de Shiseido, construído na década de 70, e o Museu Nacional de Kioto, a ser inaugurado em 2007.


Moma/divulgação
O MoMA, em 1939: o novo prédio homenageia os criadores da fachada antiga


Ao intervir no MoMA, Taniguchi fez questão de preservar algumas das marcas visuais do edifício no passado. Prestou homenagem aos arquitetos americanos Philip Goodwin e Edward Durell, por exemplo, ao basear-se no traçado da fachada criada por eles em 1939. O famoso jardim de esculturas, projetado nos anos 60 por Phillip Johnson, também continua lá. Trata-se de um pequeno oásis no meio dos prédios gigantescos e escuros que circundam o museu. Ali foi construído o restaurante The Modern, cuja cozinha será chefiada por Gabriel Kreuther, vindo do hotel Ritz-Carlton. Mas o jardim, considerado por Taniguchi o coração do prédio, agora é emoldurado por muros de vidro ultramodernos.

Em seu interior, o MoMA mudou bastante. Taniguchi criou um átrio com pé-direito imponente – de 33 metros de altura –, que é banhado por luz natural e tem vista para o jardim. As galerias do museu nova-iorquino também ganharam tetos altos e paredes imensas. As vias de circulação entre elas, ponto sempre relevante em uma cidade abarrotada de turistas, foram igualmente reestruturadas. Os visitantes, que antes subiam e desciam entre os andares por meio de escadas rolantes, agora também dispõem de elevadores espaçosos. As galerias terão quatro portas, para que o público possa flanar livremente por elas, sem ser induzido a seguir num sentido obrigatório, como em boa parte dos museus. Alguns desses espaços são imensos. A criação de galerias amplas não se deve apenas a uma opção estilística do arquiteto. Explica-se: cada vez mais, a arte contemporânea é feita de peças de grandes dimensões, que requerem espaços ao ar livre ou galpões para ser exibidas, como as esculturas do americano Richard Serra. Remodelado, o MoMA de Nova York mantém sua tradição de estar sempre à frente.

 
 
 
 
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