|
|
Divertimento
O desmonte da Lego
O fabricante
do brinquedo mais popular
do século XX agora só acumula prejuízos

José Eduardo Barella
AFP
 |
| Parque temático
da Lego na Inglaterra: colocado à venda para amenizar
prejuízos |
O Lego sempre
foi um exemplo de brinquedo educativo e, ao mesmo tempo, divertido.
A fórmula simples, de encaixar peças de plástico
de variadas cores e tamanhos umas nas outras para formar objetos
e estruturas, marcou a infância de gerações
de crianças e transformou a marca dinamarquesa num
fenômeno de vendas a partir dos anos 50. Considerado o brinquedo
mais popular do século XX, ele corre o risco de virar, literalmente,
peça de museu neste século. A Lego é a maior
fabricante de brinquedos da Europa e a quarta do mundo mas
as vendas globais despencaram 30% nos últimos dois anos,
e a previsão de prejuízo para 2004 é de 340
milhões de dólares. Como é possível
uma marca de sucesso, entre as seis mais conhecidas do planeta,
chegar a essa situação? Entre os motivos para a crise,
o mais óbvio é a falta de apelo do brinquedo para
as crianças nascidas na era dos jogos eletrônicos.
Ou seja, as peças de montar ficaram ultrapassadas para uma
meninada cada vez mais fascinada pelos videogames e plugada na internet.
Antes,
o brinquedo atraía uma faixa etária ampla, a partir
dos 6 anos de idade. Os 100 milhões de possibilidades de
combinação das peças contidas em cada kit estendiam
o interesse até a adolescência. Em vários países
há concursos de montagem de grandes estruturas castelos,
monumentos, automóveis com as peças do Lego.
Em muitas escolas brasileiras as peças de montar são
utilizadas como uma porta de entrada para o estudo da robótica.
Hoje, crianças de apenas 8 anos já estão trocando
a brincadeira de encaixar peças de plástico pelo joystick
dos videogames. A rápida decadência do Lego pegou de
surpresa educadores, pedagogos, psicólogos e pais. Todos
eles sempre adoraram o Lego, convencidos de que se trata do brinquedo
certo para estimular a criatividade e a capacidade motora das crianças.
A procura precoce dos filhos por jogos eletrônicos, com seus
movimentos mecânicos e previsíveis, aflige os pais.
Para alguns educadores, trata-se de um falso dilema. "A criança
só se interessa por brinquedos que estimulem sua criatividade
e cujo funcionamento entenda; do contrário, ela simplesmente
deixa de lado", diz a psicóloga Edda Bontempo, professora
da Universidade de São Paulo.
Se pirralhos
de 8 anos estão abandonando o Lego, é porque o brinquedo
já não atende à demanda dessa faixa etária.
"As crianças de hoje são alfabetizadas e desenvolvem
a coordenação motora mais cedo que as das gerações
anteriores, o que explica a procura por outras atividades mais instigantes",
explica a educadora carioca Tania Zagury. A Lego tentou se antecipar
à mudança. Desde 1998, quando a queda nas vendas fez
soar pela primeira vez o alerta, a empresa partiu para a diversificação.
Foram desenvolvidas várias linhas de novos produtos. Uma
das novidades nasceu do licenciamento de marcas conhecidas, como
Harry Potter e Guerra nas Estrelas. Outra foi o robô Mindstorms
um kit para montar que incluía processador eletrônico
e software. O robô podia caminhar, jogar bola e reagir a estímulos
externos. Mas teve vida curta: um hacker alemão conseguiu
decifrar o código do software e o divulgou na internet. O
prejuízo foi incalculável. Muita gente comprou o kit
básico do Lego para montar o robô, que sem o programa
custava bem mais barato, e baixou o software pirata da rede.
A partir
de 2001, a Lego apostou suas fichas na série Bionicle
robôs para montar que lutam entre si, dirigidos por controle
remoto. A série envolve um enredo complexo, com mocinhos
e bandidos. O lançamento do Bionicle foi um divisor de águas
na empresa. Com esse produto o fabricante rompeu uma tradição
de bom-mocismo, criando um brinquedo cuja mensagem básica
é a violência. A série já responde por
25% das vendas. É difícil que os mocinhos e bandidos
sejam capazes de evitar o naufrágio do brinquedo mais famoso
da marca, as peças de montar. Para tentar salvar a marca,
a Lego anunciou uma profunda reestruturação na companhia.
Kjeld Kirk Kristiansen, neto do fundador, autorizou uma operação
desmonte do conglomerado antes de renunciar à presidência.
Os cortes devem atingir 25% dos 7 000 funcionários espalhados
em trinta países. Serão vendidas algumas das 24 lojas
da rede e os parques temáticos da Dinamarca, Alemanha, Inglaterra
e Estados Unidos. Cada um deles foi construído com mais de
30 milhões de bloquinhos de Lego e tem entre os atrativos
montanha-russa e réplicas idênticas de cidades européias.
Se isso não for suficiente para sanar os problemas de caixa,
a empresa deve ser vendida ou pedir concordata.
|