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Brasil A
força dos generais Permanência
do chefe do Exército expõe a fragilidade do Ministério
da Defesa
 Cynara
Menezes
Joedson
Alves/AE
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comandante do Exército, general Francisco Albuquerque: costas quentes |
O
comandante do Exército, o general Francisco Roberto de Albuquerque, tem
motivos para estufar o peito estrelado: é um vitorioso. Depois de desafiar
seu superior hierárquico (publicamente e por mais de uma vez), autorizar
a divulgação de uma nota afrontosa à democracia e ter a cabeça
pedida pelo chefe o ex-ministro da Defesa José Viegas , ele
acabou poupado pelo presidente da República. O ministro caiu, Albuquerque
ficou. A blindagem do general resulta de dois fatores: um estrutural e outro circunstancial.
O primeiro é um erro de origem na criação do ministério
ao qual os militares estão subordinados. O segundo é a atuação,
em favor de Albuquerque, de três figuras influentes no governo: o general
da reserva Oswaldo Muniz Oliva, representante da linha conservadora do Exército,
e seus filhos, o senador petista Aloizio Mercadante e o coronel Oswaldo Oliva
Neto, secretário executivo do núcleo de assuntos estratégicos
da Secretaria de Comunicação.
Homem de confiança do ministro Luiz Gushiken, o coronel Oliva Neto foi
assistente do general Albuquerque até 2002, quando este ocupava o cargo
de comandante militar do Sudeste. Foi também o coronel quem aproximou o
general dos petistas, ainda na época da campanha presidencial. No episódio
da descoberta das fotos que, imaginava-se, seriam do jornalista Vladimir Herzog,
torturado e morto durante o regime militar, o Exército soltou uma nota
em que "justificava" o assassinato e eximia os militares de responsabilidade no
caso. O texto foi divulgado à revelia do ex-ministro Viegas e com autorização
do general Albuquerque. Revelou-se um desastre pelo seu conteúdo e uma
insubordinação pela forma como veio à tona. Albuquerque sobreviveu
a ela graças à intervenção de Oliva Neto. Juntamente
com o irmão, o senador Mercadante, ele convenceu o ministro Gushiken de
que o governo deveria manter o general, sob pena de desencadear uma crise institucional
nas Forças Armadas.
As trombadas do comandante do Exército com o ex-ministro e diplomata Viegas
substituído na semana retrasada pelo vice-presidente da República,
José Alencar começaram no ano passado. Em outubro, o governo
criou uma comissão interministerial para tentar localizar os corpos dos
militantes do PC do B desaparecidos na Guerrilha do Araguaia na década
de 70. Encerrados os trabalhos, Marinha e Aeronáutica enviaram ao ministro
Viegas extenso relatório sobre as investigações. O Exército,
por sua vez, declarou que nada havia feito dada a insuficiência do dinheiro
destinado à missão. Albuquerque levou um puxão de orelha
de Viegas diante de três ministros e colegas militares. Não gostou.
Desde então, passou a reclamar, por meio de notas publicadas no Informativo
do Exército, da postura de Viegas diante do pedido de reajuste salarial
da categoria e a declarar, em reuniões com colegas de farda, que "não
devia satisfação ao Ministério da Defesa".
Ana
Araujo
 | | Erika,
a mulher de Viegas, e o ex-ministro: o estilo festivo contribuiu para derrubá-lo |
O
processo de desgaste de Viegas contou com a colaboração do próprio
ministro. Seu estilo festivo foi exaustivamente explorado por adversários
tanto militares quanto civis. Repercutiram negativamente, por exemplo,
a compra de uma só vez de mais de 800 quilos de camarão, ordenada
por Viegas às expensas de seu ministério, bem como a constante presença
de sua mulher, a atriz peruana Erika Stockholm, nas viagens oficiais. Quando Erika
foi flagrada por jornais conduzindo um jipe Cherokee cedido pela Receita Federal
ao Ministério da Defesa para uso oficial, alguns militares riram sozinhos.
Os hábitos do ministro, que amigos justificam como tendo sido "herdados
da diplomacia", serviram para municiar seus adversários, mas não
determinaram seu destino. Viegas selou seu futuro, sobretudo, quando propôs
uma "reengenharia administrativa" nas Forças Armadas o que incluiria
a reestruturação da Escola Superior de Guerra, um dos símbolos
do poder dos militares durante a ditadura e sede do pensamento anticomunista brasileiro
no período. A iniciativa enfureceu militares a ponto de, em julho, o general
Oswaldo Muniz Oliva, pai do coronel Oliva Neto e do senador Mercadante, ter dito
a Viegas durante uma audiência: "Se o senhor não desistir dessa idéia
de reengenharia, perde meu apoio o que pode lhe sair muito caro".
A nota sobre o episódio Herzog consolidou a queda de Viegas e a vitória
de Albuquerque salvo pelos amigos e pela estrutura frágil do Ministério
da Defesa. Até 1999, as Forças Armadas tinham seus próprios
ministérios. A unificação das pastas sob um único
comando civil, feita pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, teve um objetivo
político de vitrine: o de aumentar as chances de o Brasil obter uma cadeira
no Conselho de Segurança da ONU. Isso porque países com Forças
Armadas autônomas do poder civil não são bem-vistos pelo órgão.
"A idéia nunca foi deixar claro para os militares que, a partir daquele
momento, eles deveriam se submeter a um comando civil", afirma o especialista
na área militar e professor da Universidade Federal de Pernambuco Jorge
Zaverucha. "Por causa disso, o Ministério da Defesa já nasceu fraco.
E assim vai continuar até que o governo convença os militares de
que as coisas mudaram de fato, e não só no papel", diz. Com a palavra,
o vice-presidente José Alencar. |