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Partidos
O misterioso caso
das emendas
Com um orçamento de ficção,
cabe ao
Executivo dizer quais obras de interesse
dos deputados serão efetivamente feitas

Otávio
Cabral
Dida Sampaio/AE
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| Peemedebistas apresentam a fatura para continuar
no governo |
O Congresso Nacional, que já não
votava nada havia muito tempo, na semana passada cruzou oficialmente
os braços por causa de uma rebelião de parlamentares
insatisfeitos. Não é uma greve comum, por salário
ou melhores condições de trabalho. O que os deputados
pedem é que o governo cumpra o Orçamento, pelo menos
na parte que lhes interessa. Cada parlamentar em Brasília
tem direito a destinar 2,5 milhões de reais do Orçamento
para obras em suas bases eleitorais. É dotação
em geral destinada à construção de um posto
de saúde, uma quadra de futebol ou uma escola. O problema
é que cabe apenas ao Executivo autorizar ou não a
liberação desses recursos. Isso depende da disponibilidade
de caixa. Como os tempos são de escassez, o que deveria ser
um procedimento normal acaba virando um poderoso instrumento para
cooptar aliados e garrotear adversários. A greve da semana
passada apenas reforçou essa tendência. Para conter
a fúria dos grevistas, o governo anunciou a liberação
de 600 milhões em emendas menos da metade do que os
parlamentares aprovaram. Como vai faltar dinheiro para atender todo
mundo, é óbvio que os aliados estarão na frente
da fila.
Ana Araújo
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| João Paulo: silêncio contra proposta
de retomar as votações |
Muitos parlamentares garantem sua eleição
com o dinheiro que conseguem mandar a seus municípios de
origem. É por causa disso que uma das comissões mais
disputadas no Congresso é exatamente a de Orçamento.
É nela que milhares de obras espalhadas pelo país
começam a se viabilizar e também é lá
que nascem muitos escândalos. O dinheiro das emendas não
passa pela mão dos parlamentares. Depois de autorizada a
liberação pelo governo, os recursos são transferidos
diretamente para as prefeituras, que ficam encarregadas de executar
os obras. Uma das razões que o governo alega para não
liberar muitas das emendas parlamentares são as suspeitas
de fraude. Nada impede que um parlamentar destine recursos para
uma determinada obra e que parte desse dinheiro retorne para ele
em forma de doação de campanha. Em 1993, uma CPI do
Congresso revelou a existência de uma quadrilha que controlava
todas as liberações. A maioria das verbas liberadas
ia para entidades controladas pessoalmente pelos parlamentares.
Deputados foram cassados, empresários foram presos, mas o
mecanismo continuou o mesmo. "Hoje o problema não é
mais a fraude. É o fisiologismo que se faz com essas emendas",
diz o deputado tucano Alberto Goldman, ex-presidente da Comissão
de Orçamento.
Os deputados da chamada base aliada do governo,
que incluiu representantes do PMDB, PTB, PL e PP, decidiram pela
greve depois de tentar, sem sucesso, conseguir a liberação
dos recursos. Até a semana passada, do 1,5 bilhão
de reais previsto no Orçamento, o governo havia liberado
apenas 50 milhões, 3,33% do total. Os quatro partidos aliados
têm juntos 227 votos. Somados aos 130 da oposição,
conseguiram paralisar totalmente os trabalhos legislativos. O presidente
da Câmara, deputado João Paulo Cunha, ainda tentou
dissuadir os rebeldes, mas acabou sofrendo um belo constrangimento.
Convidou os deputados para um jantar e propôs um acordo para
retomar as votações enquanto o governo providenciava
a liberação das emendas. "O que vocês acham?",
perguntou o presidente aos convivas. Ninguém respondeu. O
líder do PTB, José Múcio Monteiro, definiu
o tom da semana: "Em uma reunião política, o que mais
incomoda é o silêncio. E o silêncio daquele jantar
foi ensurdecedor".
O PMDB é a locomotiva de toda essa
encenação. Com o PT mais vulnerável, o partido
vislumbrou um momento oportuno para ampliar seu teatro de operações.
Além de pedir a liberação das emendas, o partido
ameaçou declarar sua independência. Os peemedebistas
estudam o rompimento com o governo e a possibilidade de lançar
um candidato próprio à sucessão do presidente
Lula. É tudo o que o governo não quer. Mas é
exatamente esse o segredo do negócio. A investida de agora
também tem um alvo a distância. Os peemedebistas pretendem
se tornar o principal parceiro do PT nas eleições
de 2006, inclusive indicando o candidato a vice-presidente. O PMDB
conhece sua força, mas também sabe de sua principal
fraqueza. A importância do partido pode ser explicada na ponta
do lápis (veja
quadro). Sem o apoio dos peemedebistas, o governo
não tem votos suficientes para aprovar um projeto de lei.
Fora de Brasília, o partido é importante porque comanda
seis governos estaduais e participa como aliado em outros catorze.
Também é dono do maior contingente de prefeitos eleitos
em outubro passado. Essa é a força do PMDB. A fraqueza
vem de sua incontrolável necessidade de poder. Por isso,
há pouca probabilidade de fracasso nessa negociação.
O PMDB tem os votos que o governo tanto quer e precisa. O governo
tem os cargos e as verbas que alimentam o partido. Dá-se,
então, um perfeito encontro de interesses. A crise é
virtual.
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EMENDAS
São acréscimos que os deputados e senadores
podem fazer no Orçamento da União definindo
como querem ver empregada parte do dinheiro que se planeja
gastar.
PARA QUE SERVEM
Com as emendas, os parlamentares conseguem que obras
como pontes, reforma de hospitais, estradas e irrigação
sejam feitas pelo governo federal em suas bases eleitorais.
OS LIMITES
Cada parlamentar tem direito a incluir 2,5 milhões
de reais em emendas no Orçamento.
O PROBLEMA
Como o Orçamento é uma peça de
ficção ou seja, não existe
todo o dinheiro para financiar os gastos aprovados ,
ocorre que sempre há mais emendas do que recursos.
Neste ano, as emendas aprovadas somam 1,5 bilhão
de reais. Até a semana passada, apenas 50 milhões
haviam sido efetivamente gastos com elas.
O QUE ISSO SIGNIFICA
Cabe ao Executivo gerenciar a escassez de dinheiro e
escolher as obras pedidas pelos parlamentares que efetivamente
serão financiadas. Para se reelegerem, os parlamentares
dependem em grande parte das obras em sua região.
Isso faz da liberação de dinheiro das
emendas pelo Planalto um instrumento de pressão
sobre eles.
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