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Diogo
Mainardi
A invenção
do brasileiro
"Quem inventou a
figura do brasileiro foi
a ditadura getulista. Inventou uma raça,
inventou uma língua, inventou mitos,
inventou o futebol, inventou o Carnaval,
inventou a música popular. A ditadura getulista
inventou o brasileiro para melhor dominá-lo"
O brasileiro não existe. É uma
enganação. Uma mentira. Venho repetindo esse conceito
sem parar, aborrecidamente, em todos os meus artigos e livros: o
brasileiro é uma mentira, o brasileiro é uma mentira,
o brasileiro é uma mentira.
Quem inventou a figura do brasileiro foi a
ditadura getulista. Inventou uma raça, glorificando a miscigenação
de brancos, negros e índios, fruto de um estupro coletivo.
Inventou uma língua, com a simplificação das
regras gramaticais. Inventou mitos, como o de Aleijadinho, o brasileiro
desafortunado que não desiste nunca, uma espécie de
Vanderlei de Lima barroco. Inventou o futebol, difundindo-o entre
os mais pobres, com a filha do presidente no papel de madrinha da
seleção. Inventou o Carnaval, com seus enredos patrióticos.
Inventou a música popular, com a Rádio Nacional. A
tão admirada musicalidade do brasileiro nasceu aí,
nesse ambiente goebbeliano: Lamartine Babo e Ary Barroso, Emilinha
Borba e Vicente Celestino, Francisco Alves e Carmem Miranda eram
apenas iscas destinadas a fisgar o populacho para o noticiário
da Hora do Brasil, que divulgava as imposturas do governo.
A ditadura getulista inventou o brasileiro
para melhor dominá-lo. Ditaduras são assim mesmo.
Criam instrumentos para reprimir todas as formas de oposição.
A propaganda do regime insistia em noções como identidade
nacional, orgulho nacional, sentimento nacional, mentalidade nacional.
A idéia era transformar a unidade da nação
em valor supremo, inatacável. Como era o governo a tutelar
essa unidade, quem quer que atacasse o governo podia ser acusado
de cometer um atentado contra a nação. Ia parar na
cadeia. As cartilhas escolares eram proibidas de manifestar "pessimismo
ou dúvida quanto ao poder futuro da raça brasileira".
E a imprensa era censurada com o propósito de "combater a
penetração ou disseminação de qualquer
idéia perturbadora ou dissolvente da unidade nacional".
A Itália de Mussolini passou por isso.
A Alemanha de Hitler também. A diferença é
que Itália e Alemanha se livraram do discurso totalitário
de sessenta anos atrás. E o Brasil continuou igual, remoendo
idéias de 1930. Os grandes nomes da nossa intelectualidade
e da nossa cultura ainda são aqueles velhos colaboracionistas
da ditadura getulista, que ajudaram a forjar a imagem do brasileiro:
Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Villa-Lobos,
Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Portinari,
Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Humberto Mauro, Lúcio
Costa, Oscar Niemeyer. Getúlio Vargas sabia que o melhor
jeito para lidar com artistas e intelectuais era arranjar-lhes um
servicinho. Até Graciliano Ramos foi beijar-lhe a mão,
depois de ter sido preso por ele.
Cultura é contraposição,
enfrentamento, insulto, tabefe. No Brasil aconteceu o contrário.
Criada por decreto pelo Estado autoritário, nossa cultura
só gerou conformidade, acomodação, adesismo,
subordinação. O melhor para o Brasil seria o brasileiro
desistir de ser brasileiro.
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