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André
Petry Remédio étnico é bom?
"A medicina étnica parte do
princípio de que negros, brancos, asiáticos ou indígenas são biologicamente
diferentes. Tudo o que vem do conceito de raça é complicado"
Em breve, um remédio revolucionário chegará às farmácias
dos Estados Unidos. É um medicamento apropriado para pacientes cardíacos,
mas seu tremendo ineditismo está em outro aspecto trata-se do primeiro
remédio étnico. Aconteceu o seguinte: há uns cincos anos,
o FDA, órgão americano que cuida de remédios e alimentos,
descobriu que esse medicamento, conhecido como BiDil, não era eficaz no
tratamento de cardíacos e não autorizou sua circulação
no mercado. Tempos depois, o pessoal do laboratório, o NitroMed, presumindo
que o remédio tinha efeito positivo em negros, pediu licença para
pesquisar esse caminho. Concedida a licença, 400 mulheres e 600 homens,
todos cardíacos negros, foram selecionados para a pesquisa e o resultado
foi estrondosamente positivo. Tão positivo que, em breve, o medicamento
deverá entrar no mercado.
O remédio étnico é uma boa notícia?
À primeira vista, parece uma
notícia excelente. Afinal, cada grupo de seres humanos os negros,
os brancos, os asiáticos etc. passaria a ter a possibilidade de
usar remédios "sob medida", particularmente eficazes. Mas a medicina étnica
esconde uma questão extremamente complexa: ela parte do princípio,
do explosivo princípio, de que os negros, os brancos, os asiáticos
ou os indígenas são biologicamente diferentes, tanto que, para cada
um deles, para cada "raça", existiria um medicamento mais eficaz. E tudo
o que vem do conceito de "raça" é complicado. Eis alguns exemplos,
lembrados num magnífico artigo de Robin Marantz Henig, publicado recentemente
na imprensa americana:
• Para refinar os remédios, os laboratórios farmacêuticos
teriam de intensificar pesquisas nos diferentes grupos "raciais" para, desvendando
as tais variações biológicas, entender como cada "raça"
responde a determinado tratamento, quais as doenças mais comuns etc. Seria
um prato cheio para racistas levantarem a bandeira do preconceito, da estigmatização,
do isolamento. Ou não?
• Sabe-se que no Brasil, mas também nos Estados Unidos, os negros perdem
sempre para os brancos em expectativa de vida, mortalidade infantil e outros dados
relacionados à saúde. Está claro, hoje em dia, que essas
diferenças são resultado das condições socioeconômicas
dos negros, sempre piores do que a dos brancos, na média. Agora, a medicina
étnica poderá mostrar que, apesar da precariedade do atendimento
no INSS, apesar da escassez de remédios no posto de saúde da esquina,
apesar do problema da desnutrição, apesar da diarréia, da
qualidade da água, da falta de saneamento básico, apesar de tudo
isso, a medicina étnica poderá nos mostrar que os negros têm
mais problemas de saúde porque são negros. Ou não?
É claro que, mesmo diante desses
riscos tremendos, não se pode impedir a pesquisa, a ciência, enfim,
a medicina étnica de caminhar e evoluir, se é que ela tem realmente
uma evolução pela frente. Também é claro que a pior
solução seria decretar um embargo em qualquer pesquisa que tenha
por mote o conceito de "raça". Mas também é claro que estava
muito melhor antes, quando os antropólogos e sociólogos, os médicos
e geneticistas estavam concordando que a única raça que existe é
a raça humana. E que a antiga idéia de raça raça
negra, branca, amarela, vermelha não passa de uma invenção
social e cultural. |