Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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André Petry
Remédio étnico é bom?

"A medicina étnica parte do princípio de que
negros, brancos, asiáticos ou indígenas são
biologicamente diferentes. Tudo o que vem
do conceito de raça é complicado"

Em breve, um remédio revolucionário chegará às farmácias dos Estados Unidos. É um medicamento apropriado para pacientes cardíacos, mas seu tremendo ineditismo está em outro aspecto – trata-se do primeiro remédio étnico. Aconteceu o seguinte: há uns cincos anos, o FDA, órgão americano que cuida de remédios e alimentos, descobriu que esse medicamento, conhecido como BiDil, não era eficaz no tratamento de cardíacos e não autorizou sua circulação no mercado. Tempos depois, o pessoal do laboratório, o NitroMed, presumindo que o remédio tinha efeito positivo em negros, pediu licença para pesquisar esse caminho. Concedida a licença, 400 mulheres e 600 homens, todos cardíacos negros, foram selecionados para a pesquisa – e o resultado foi estrondosamente positivo. Tão positivo que, em breve, o medicamento deverá entrar no mercado.

O remédio étnico é uma boa notícia?

À primeira vista, parece uma notícia excelente. Afinal, cada grupo de seres humanos – os negros, os brancos, os asiáticos etc. – passaria a ter a possibilidade de usar remédios "sob medida", particularmente eficazes. Mas a medicina étnica esconde uma questão extremamente complexa: ela parte do princípio, do explosivo princípio, de que os negros, os brancos, os asiáticos ou os indígenas são biologicamente diferentes, tanto que, para cada um deles, para cada "raça", existiria um medicamento mais eficaz. E tudo o que vem do conceito de "raça" é complicado. Eis alguns exemplos, lembrados num magnífico artigo de Robin Marantz Henig, publicado recentemente na imprensa americana:

• Para refinar os remédios, os laboratórios farmacêuticos teriam de intensificar pesquisas nos diferentes grupos "raciais" para, desvendando as tais variações biológicas, entender como cada "raça" responde a determinado tratamento, quais as doenças mais comuns etc. Seria um prato cheio para racistas levantarem a bandeira do preconceito, da estigmatização, do isolamento. Ou não?

• Sabe-se que no Brasil, mas também nos Estados Unidos, os negros perdem sempre para os brancos em expectativa de vida, mortalidade infantil e outros dados relacionados à saúde. Está claro, hoje em dia, que essas diferenças são resultado das condições socioeconômicas dos negros, sempre piores do que a dos brancos, na média. Agora, a medicina étnica poderá mostrar que, apesar da precariedade do atendimento no INSS, apesar da escassez de remédios no posto de saúde da esquina, apesar do problema da desnutrição, apesar da diarréia, da qualidade da água, da falta de saneamento básico, apesar de tudo isso, a medicina étnica poderá nos mostrar que os negros têm mais problemas de saúde porque são negros. Ou não?

É claro que, mesmo diante desses riscos tremendos, não se pode impedir a pesquisa, a ciência, enfim, a medicina étnica de caminhar e evoluir, se é que ela tem realmente uma evolução pela frente. Também é claro que a pior solução seria decretar um embargo em qualquer pesquisa que tenha por mote o conceito de "raça". Mas também é claro que estava muito melhor antes, quando os antropólogos e sociólogos, os médicos e geneticistas estavam concordando que a única raça que existe é a raça humana. E que a antiga idéia de raça – raça negra, branca, amarela, vermelha – não passa de uma invenção social e cultural.

 
 
 
 
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