Ensaio:
Roberto Pompeu
de Toledo Feiúra e beleza
nos nomes de cidades
Um torneio pelo qual
se verifica que a
arte de nomear povoações se perdeu,
com o passar do tempo
São João
del-Rei é um bonito nome de cidade. Transmite uma nobreza
antiga, sóbria e sábia. Da mesma estirpe, e
não por acaso também de cidades históricas
mineiras, são os nomes Mariana, Congonhas do Campo,
Ouro Preto. De outra família, mas igualmente bonito,
é o nome Paraty, de outra cidade histórica,
esta contemplada, talvez por estar plantada à beira-mar,
com alegres vogais. Como Paraty são Piripiri (PI) e
Parintins (AM), com seus coros de is. Há muitos
nomes indígenas que brincam nos ouvidos, alguns curtos
Ubá (MG), Itu (SP) , outros de travar
a língua Cumuruxatiba (BA), Itaquaquecetuba
(SP). Feio é o nome de Sinop, no norte de Mato Grosso.
Com infelicidade rara, a cidade adotou a sigla da empresa
que colonizou a região, Sociedade Imobiliária
Noroeste do Paraná. Sinop não tem nem trinta
anos. Dar nome às cidades é uma arte perdida.
Feios são,
em regra, os nomes terminados em lândia
Analândia (SP), Andrelândia (MG), ou a apoteose
representada por Epitaciolândia (AC) e em polis
Mantenópolis (ES), Delfinópolis (MG),
Eunápolis (BA). Goiás tem dezoito cidades em
lândia (de Adelândia a Sanclerlândia,
passando por Inaciolândia) e 24 em polis (de
Amorinópolis a Vicentinópolis, e, se o leitor
ainda não está satisfeito, Damianópolis,
Mutunópolis e Palminópolis). Juntas, elas perfazem
quase 20% dos 246 municípios do estado. Para não
se pensar em má vontade para com Goiás, o primitivo
nome da antiga capital do estado é dos mais bonitos
já inventados no país Vila Boa de Goiás.
As cidades em lândia e em polis são,
na esmagadora maioria, novas. Confirmam que hoje em dia se
perdeu o rumo, na arte de nomear povoações.
Mais raros do que
os em lândia e em polis, mas igualmente
feios, são os nomes em burgo: Arceburgo, Felisburgo,
Luisburgo. São todos municípios mineiros. Se
excetuarmos Novo Hamburgo (RS), Nova Friburgo (RJ) e Fraiburgo
(SC), menos chocantes porque remetem a velhas cidades européias,
todos os poucos burgos se concentram em Minas. Cordisburgo
é outro burgo mineiro, mas este deixou de ser
feio: virou bonito, porque Guimarães Rosa nasceu lá.
Uma vez quiseram mudar o nome do lugar para Guimarães
Rosa. Em vez de homenagem, seria um insulto à sua memória.
Exceção,
na feiúra dos nomes em polis, são Petrópolis
e Teresópolis. Eles se salvam pelas homenagens à
família real brasileira. Florianópolis poderia
ser outra exceção, por causa do "flor" da primeira
sílaba, e mais ainda por causa do simpático
apelido de "Floripa", mas há um problema: Florianópolis
homenageia o marechal Floriano Peixoto, por ordem de quem
foram massacrados, freqüentemente pelo método
de cortar cabeças, os rebeldes da Revolução
Federalista de fins do século XIX. Ou seja: a cidade
homenageia seu algoz.
Feios são
os nomes de gente aplicados a cidades. Há uma no Piauí
que se chama Demerval Lobão. No Maranhão existe
uma Ribamar Riquene. Por maiores que tenham sido os méritos
desses senhores, como nome de cidade caem mal, desastrosamente
mal. Santa Catarina tem um fraco por dar nome de gente às
cidades. Há as que se apresentam com nome e sobrenome
(Abdon Batista, Lebon Régis, Otacílio Costa),
as que incluem os títulos (Doutor Pedrinho, Frei Rogério,
Major Gercino) e as que se resumem a uma palavra (Galvão,
Blumenau). No total 34, dos 293 municípios do estado,
levam nome de gente. Blumenau, duro nome alemão, tanto
se impôs como nome de cidade que até se esquece
que homenageia seu fundador. Salva-se por isso.
Rio de Janeiro
é um bonito nome. Faz uma bizarra combinação
de acidente geográfico com uma das divisões
do ano. Mistura espaço e tempo. Se a cidade se chamasse
Abel Figueiredo, tal qual um município do Pará,
ou Estaciolândia, em homenagem a Estácio de Sá,
a quem se atribui sua fundação, não seria
tão bonito. Belo Horizonte é um nome ao qual
é preciso se acostumar. Machado de Assis, que viu nascer
a nova capital das Minas Gerais, estranhou que ela fosse batizada
com uma exclamação. Bonitos são os nomes
que combinam santo com nome indígena: Conceição
do Araguaia (PA), Santa Rita do Sapucaí (MG), São
Luís do Paraitinga (SP). E mais bonitos ainda os que
combinam os santos com misteriosos atributos: Santo Amaro
da Purificação (BA), São José
dos Ausentes (RS), São Miguel do Gostoso (RN), São
Thomé das Letras (MG).
Há nomes
de uma beleza triste, às vezes trágica. O melhor
exemplo é Afogados da Ingazeira, em Pernambuco, notável
pela coragem de homenagear gente que se afogou por lá.
Baía da Traição (PB) pertence ao mesmo
gênero. Dores do Indaiá, no coração
de Minas, é dos nomes mais bonitos do Brasil. Merece
fechar este I Concurso de Beleza de Nomes de Cidades Brasileiras,
criado e desenvolvido por este colunista, que foi ainda seu
único e solitário juiz. Concursos similares
o leitor está autorizado a estender para outros setores
nome de times de futebol, de operações
da Polícia Federal, de senadores (o colunista não
cobrará royalties). Quando se está cansado de
discutir as coisas em si, uma alternativa é discutir
o nome delas.