Ayaan
Hirsi Ali é uma mulher de sorte. Pelo menos, é o que ela diz no
epílogo de Infiel (tradução de Luiz A. de Araújo;
Companhia das Letras; 512 páginas; 49 reais), seu livro de memórias.
Não deixa de ser uma declaração surpreendente: nas páginas
que antecedem o capítulo final, Ayaan passa pela excisão do clitóris,
em uma operação bárbara, realizada sem anestesia, e é
espancada até ter a cabeça fraturada por um professor da escola
islâmica para ficar apenas com os infortúnios da infância.
Crítica feroz da opressão das mulheres sob o Islã, a ex-parlamentar
holandesa de origem africana detesta a insinuação de que seus ataques
são resultado do ressentimento por seu passado "traumático". "Quero
ser julgada pela legitimidade dos meus argumentos, não como uma vítima",
escreve ela. Não resta dúvida, porém, de que sua biografia
empresta força ao seu argumento. Ayaan diz basicamente que o mundo islâmico
em geral está em descompasso com a modernidade e que as sociedades ocidentais
oferecem mais liberdade e segurança, sobretudo para as mulheres. Nascida
na Somália e criada por uma família muçulmana, Ayaan tem
a autoridade da experiência para falar desses temas.
A grande
sorte de Ayaan foi sua fuga para a Holanda, país que lhe deu cidadania
e onde ela fez uma breve e controversa carreira política, como parlamentar
pelo Partido Liberal. Na Holanda, ela colaborou com o cineasta Theo van Gogh na
realização do curta-metragem Submissão, que inflamou
os fundamentalistas por sua denúncia da condição feminina
sob o Islã e pelo sacrilégio de mostrar trechos do Corão,
em árabe, impressos sobre a pele nua de uma mulher espancada. Em 2004,
Mohammed Bouyeri, holandês de ascendência marroquina, matou Van Gogh
quando ele andava de bicicleta nas ruas de Amsterdã. Depois de balear o
cineasta, ele o degolou e afixou, com uma faca, uma carta em seu peito
repleta de ameaças a Ayaan, que então passou a viver sob vigilância
constante de guarda-costas. Incomodados com esse aparato de segurança,
os vizinhos de Ayaan pleitearam, na Justiça, que ela deixasse o prédio.
Pela mesma época, surgiram acusações de que ela teria mentido
na sua solicitação de cidadania holandesa, em 1997. Detalhes mínimos
como a mudança de um nome de família quase causaram cassação
da cidadania e provocaram uma crise que levou à queda do gabinete
liberal, em 2006. Ayaan mudou-se para os Estados Unidos, onde aceitou uma posição
no American Enterprise Institute, um "think tank" conservador.
A mulher que estava destinada à servidão doméstica
o pai chegou a arranjar seu casamento com um desconhecido acabou entrando
para uma lista das 100 pessoas mais influentes do mundo elaborada pela revista
Time, em 2005. Adversária do relativismo, Ayaan não admite
que práticas como a ablação do clitóris e o casamento
arranjado à revelia da mulher sejam desculpadas em nome do respeito a tradições
primitivas. Essas posições perfeitamente razoáveis têm
valido a ela uma bizarra acusação de rendição ao "imperialismo
cultural" do Ocidente como se ela devesse se submeter à opressão
e à tortura por fidelidade a suas raízes. À parte sua história
fascinante, marcante no livro de Ayaan é o desassombro com que ela afirma
cabalmente a superioridade dos valores ocidentais: "Passei do mundo da fé
para o mundo da razão. Sei que um desses mundos é simplesmente melhor
do que o outro".
Mutilação religiosa
"A mutilação dos órgãos
genitais da mulher é anterior ao Islã. Nem todos os muçulmanos
adotam essa prática, e alguns povos que a adotam não professam o
islamismo. Mas, na Somália, o procedimento sempre se justifica em nome
do Islã. (...) O homem aproximou a tesoura. Uma dor aguda se espalhou no
meu sexo, uma dor indescritível, e soltei um berro. Então veio a
sutura, a agulha comprida, rombuda, os meus gritos desesperados de protesto, as
palavras de conforto e encorajamento de vovó: 'É só uma vez
na vida, Ayaan. Está quase acabando'. Ao terminar a costura, o homem cortou
a linha com os dentes. É só disso que me lembro."