O historiador alemão
Joachim Fest disse que não compraria um carro usado
do escritor Günter Grass. O comentário veio a
propósito da revelação, no ano passado
(um mês antes da morte de Fest), de que Grass havia
servido na Waffen-SS, o braço combatente da tropa de
elite nazista que conduziu o genocídio. O escândalo
que a revelação causou na Alemanha não
se devia tanto ao fato. Aos 80 anos, Grass é parte
de uma geração de alemães que dificilmente
escaparia de algum envolvimento com o nazismo. O filósofo
Jürgen Habermas e o papa Bento XVI serviram na Juventude
Hitlerista alemã durante a II Guerra. O problema é
a hipocrisia do autor do romance O Tambor. Por muito
tempo, Grass se arvorou no posto de consciência da nação,
exigindo a plena exposição do passado nazista.
Duradoura polêmica no mundo literário alemão
e mundial, a confissão de Grass chega agora às
livrarias brasileiras, com o livro de memórias Nas
Peles da Cebola (tradução de Marcelo
Backes; Record; 420 páginas; 60 reais). A obra confirma
o veredicto de Fest: Grass, como um revendedor de carros picareta,
treinou sua retórica para disfarçar a desonestidade.
Intelectuais
e políticos europeus volta e meia são assombrados
pelo passado totalitário (veja
o quadro). François Miterrand, presidente francês
de 1981 a 1995, só admitiu sua participação
no infame governo colaboracionista de Vichy em 1994. Mais
recentemente, a Polônia tem vivido uma espécie
de purgação nacional, expondo a ficha dos que
trabalharam para a polícia secreta comunista. Alguns
dos acusados parecem ter apenas buscado soluções
de compromisso que permitissem a sobrevivência em um
estado policial. Não foi o caso de Grass, que acreditou
em Hitler. Nas Peles da Cebola cobre o período
que vai da infância de Grass, em Danzig (então
uma cidade alemã, hoje incorporada ao território
polonês, com o nome de Gdansk), à publicação
de O Tambor, no fim dos anos 50. Pretende narrar a
formação do escritor, com a típica trajetória
heróica que inclui as agruras do subemprego e da fome
antes da conquista da glória literária. A pedra
no meio desse caminho iluminado é o nazismo. Grass
já havia assumido sua participação na
Juventude Hitlerista. Também contou do serviço
militar voluntário em uma bateria antiaérea.
Mas o prêmio Nobel de 1999 nunca antes admitira sua
passagem pela Waffen-SS. "Eu me neguei durante décadas
a confessar a mim mesmo o contato com a palavra e a letra
dupla. O que eu havia aceitado com o orgulho estúpido
de meus anos jovens queria esconder de mim mesmo depois da
guerra", escreve Grass. Essa aparente compunção
escamoteia o cerne da polêmica: o que Grass confessa
ou não a si mesmo é, afinal, problema dele.
O escândalo está no fato de ele não ter
revelado essa mancha em sua biografia à sociedade alemã
que ele com tanta insistência instou a assumir os crimes
do passado.
O mea-culpa de
Grass é uma estratégia patética para
manter a posição de bússola moral da
Alemanha do pós-guerra. O escritor fala de seu silêncio
quando um camarada de escola sumiu de sua classe só
depois da guerra Grass veio a saber que o pai desse colega
era um preso político. Seria de esperar que um garoto
que mal tinha espinhas na cara se levantasse contra a Gestapo
para perguntar pelo amiguinho sumido? Claro que não.
Trata-se de um expediente fácil: para fugir da culpa
que efetivamente teve, Grass se atribui pecados que não
cometeu. Sempre que se aproxima de matéria delicada,
porém, o memorialista mostra-se evasivo. Usa a terceira
pessoa para falar de seu tempo de jovem hitlerista, como quem
sugere uma distância entre o provecto escritor esquerdista
e o fedelho nazi. E o que o menino que mais tarde entraria
para a Waffen-SS pensava dos judeus? Grass não examina
esse tópico embaraçoso. Prefere sugerir que
as propensões artísticas e o temperamento solitário
faziam do menino que ele foi um nazistinha imperfeito. Grande
balela: muito nazistão graduado nutria ambições
estéticas, a começar pelo próprio Hitler.
Em uma resenha
no The New York Review of Books, o historiador inglês
Timothy Garton Ash lembra que Grass deu horas de depoimento
ao biógrafo Michael Jürgs e nunca sequer
aludiu à sua passagem pela Waffen-SS. "Não é
apenas 'silenciar' o passado. Eu diria que isso conta como
uma mentira", diz Ash, com acerto. O historiador, no entanto,
é generoso com as qualidades literárias de Grass.
Quando o escândalo esfriar, diz Ash, Nas Peles da
Cebola ficará como um magistral livro de memórias.
Não é bem assim. Um editor que não se
intimidasse com a reputação do Nobel poderia
cortar no mínimo um quarto desse livro palavroso. Nas
Peles da Cebola tem uma tendência a digressões
rebarbativas. Grass repisa a imagem da cebola, com suas várias
camadas, como representação da memória
e, quando essa metáfora ordinária já
não funciona, ele se socorre na figura do âmbar,
matéria translúcida em cujo interior se vêem
insetos aprisionados no passado. A imagem correta para as
memórias de Grass, porém, seria outra: a cortina
de fumaça.
PASSADO
SOMBRIO
As controvérsias
sobre a colaboração com o nazismo
e o comunismo que rondam escritores europeus
Ulf Andersen/Getty
Images
CHRISTA
WOLF A escritora da antiga Alemanha Oriental
foi integrante do Partido Comunista e colaborou,
na juventude, com a Stasi, a polícia secreta
que, mais tarde, passou a vigiar as atividades
da própria escritora
ZBIGNIEW
HERBERT
O poeta polonês, morto em 1998, foi recentemente
acusado de colaborar com a polícia secreta comunista.
Seus relatórios para a polícia, porém,
eram intrincadas análises culturais que serviam
apenas para embasbacar os agentes
AFP
RYSZARD
KAPUSCINSKI
Morto no início do ano, o jornalista polonês,
que cobriu conflitos e revoluções
no mundo todo, só teve autorização
para viajar porque teria feito um acordo com a polícia
secreta comunista fato que só foi
revelado após sua morte