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17 de outubro de 2007
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Livros
Memórias de um hipócrita

A confissão tardia do passado nazista do Nobel
alemão Günter Grass é só cortina de fumaça


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

O historiador alemão Joachim Fest disse que não compraria um carro usado do escritor Günter Grass. O comentário veio a propósito da revelação, no ano passado (um mês antes da morte de Fest), de que Grass havia servido na Waffen-SS, o braço combatente da tropa de elite nazista que conduziu o genocídio. O escândalo que a revelação causou na Alemanha não se devia tanto ao fato. Aos 80 anos, Grass é parte de uma geração de alemães que dificilmente escaparia de algum envolvimento com o nazismo. O filósofo Jürgen Habermas e o papa Bento XVI serviram na Juventude Hitlerista alemã durante a II Guerra. O problema é a hipocrisia do autor do romance O Tambor. Por muito tempo, Grass se arvorou no posto de consciência da nação, exigindo a plena exposição do passado nazista. Duradoura polêmica no mundo literário alemão e mundial, a confissão de Grass chega agora às livrarias brasileiras, com o livro de memórias Nas Peles da Cebola (tradução de Marcelo Backes; Record; 420 páginas; 60 reais). A obra confirma o veredicto de Fest: Grass, como um revendedor de carros picareta, treinou sua retórica para disfarçar a desonestidade.

Intelectuais e políticos europeus volta e meia são assombrados pelo passado totalitário (veja o quadro). François Miterrand, presidente francês de 1981 a 1995, só admitiu sua participação no infame governo colaboracionista de Vichy em 1994. Mais recentemente, a Polônia tem vivido uma espécie de purgação nacional, expondo a ficha dos que trabalharam para a polícia secreta comunista. Alguns dos acusados parecem ter apenas buscado soluções de compromisso que permitissem a sobrevivência em um estado policial. Não foi o caso de Grass, que acreditou em Hitler. Nas Peles da Cebola cobre o período que vai da infância de Grass, em Danzig (então uma cidade alemã, hoje incorporada ao território polonês, com o nome de Gdansk), à publicação de O Tambor, no fim dos anos 50. Pretende narrar a formação do escritor, com a típica trajetória heróica que inclui as agruras do subemprego e da fome antes da conquista da glória literária. A pedra no meio desse caminho iluminado é o nazismo. Grass já havia assumido sua participação na Juventude Hitlerista. Também contou do serviço militar voluntário em uma bateria antiaérea. Mas o prêmio Nobel de 1999 nunca antes admitira sua passagem pela Waffen-SS. "Eu me neguei durante décadas a confessar a mim mesmo o contato com a palavra e a letra dupla. O que eu havia aceitado com o orgulho estúpido de meus anos jovens queria esconder de mim mesmo depois da guerra", escreve Grass. Essa aparente compunção escamoteia o cerne da polêmica: o que Grass confessa ou não a si mesmo é, afinal, problema dele. O escândalo está no fato de ele não ter revelado essa mancha em sua biografia à sociedade alemã que ele com tanta insistência instou a assumir os crimes do passado.

O mea-culpa de Grass é uma estratégia patética para manter a posição de bússola moral da Alemanha do pós-guerra. O escritor fala de seu silêncio quando um camarada de escola sumiu de sua classe – só depois da guerra Grass veio a saber que o pai desse colega era um preso político. Seria de esperar que um garoto que mal tinha espinhas na cara se levantasse contra a Gestapo para perguntar pelo amiguinho sumido? Claro que não. Trata-se de um expediente fácil: para fugir da culpa que efetivamente teve, Grass se atribui pecados que não cometeu. Sempre que se aproxima de matéria delicada, porém, o memorialista mostra-se evasivo. Usa a terceira pessoa para falar de seu tempo de jovem hitlerista, como quem sugere uma distância entre o provecto escritor esquerdista e o fedelho nazi. E o que o menino que mais tarde entraria para a Waffen-SS pensava dos judeus? Grass não examina esse tópico embaraçoso. Prefere sugerir que as propensões artísticas e o temperamento solitário faziam do menino que ele foi um nazistinha imperfeito. Grande balela: muito nazistão graduado nutria ambições estéticas, a começar pelo próprio Hitler.

Em uma resenha no The New York Review of Books, o historiador inglês Timothy Garton Ash lembra que Grass deu horas de depoimento ao biógrafo Michael Jürgs – e nunca sequer aludiu à sua passagem pela Waffen-SS. "Não é apenas 'silenciar' o passado. Eu diria que isso conta como uma mentira", diz Ash, com acerto. O historiador, no entanto, é generoso com as qualidades literárias de Grass. Quando o escândalo esfriar, diz Ash, Nas Peles da Cebola ficará como um magistral livro de memórias. Não é bem assim. Um editor que não se intimidasse com a reputação do Nobel poderia cortar no mínimo um quarto desse livro palavroso. Nas Peles da Cebola tem uma tendência a digressões rebarbativas. Grass repisa a imagem da cebola, com suas várias camadas, como representação da memória – e, quando essa metáfora ordinária já não funciona, ele se socorre na figura do âmbar, matéria translúcida em cujo interior se vêem insetos aprisionados no passado. A imagem correta para as memórias de Grass, porém, seria outra: a cortina de fumaça.

 

PASSADO SOMBRIO

As controvérsias sobre a colaboração com o nazismo
e o comunismo que rondam escritores europeus


Ulf Andersen/Getty Images
CHRISTA WOLF
A escritora da antiga Alemanha Oriental foi integrante do Partido Comunista e colaborou, na juventude, com a Stasi, a polícia secreta – que, mais tarde, passou a vigiar as atividades da própria escritora

ZBIGNIEW HERBERT
O poeta polonês, morto em 1998, foi recentemente acusado de colaborar com a polícia secreta comunista. Seus relatórios para a polícia, porém, eram intrincadas análises culturais que serviam apenas para embasbacar os agentes

AFP

RYSZARD KAPUSCINSKI
Morto no início do ano, o jornalista polonês, que cobriu conflitos e revoluções no mundo todo, só teve autorização para viajar porque teria feito um acordo com a polícia secreta comunista – fato que só foi revelado após sua morte




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