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17 de outubro de 2007
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Cinema
Possessão artística

A pouco conhecida Marion Cotillard
arrebata no papel de Édith Piaf


Isabela Boscov

Gjon Mili/Time Life Pictures/Getty Images)
Piaf, o ícone: uma voz feita sob medida para cantar tristezas
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Trailer do filme


É o tipo de elogio que pede parcimônia, mas, no caso da quase desconhecida Marion Cotillard, pode-se dispensar a cautela: no papel-título de Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme, França/ Inglaterra/República Checa, 2007), desde sexta-feira em cartaz no país, essa francesa de 32 anos, vista antes como a bonita mas não particularmente expressiva namorada de Russell Crowe em Um Bom Ano, atinge um desses desempenhos de passar à história. Interpretando Édith Piaf, o ícone maior da canção francesa, Marion opera uma transformação física radical. Vai da moça faminta e desbocada à matrona cheia de vontades, e além – até a mulher enrugada e fragilíssima que, no final da carreira, mal conseguia se pôr de pé sozinha. (Piaf morreu em 1963, aos 47 anos, com a aparência de uma octogenária, em razão de câncer, reumatismo, muita morfina e doses ainda mais letais de infelicidade.) Mais impressionante ainda do que a maneira como a atriz submete seu corpo a esse declínio ruinoso, porém, é a total ausência de reservas com que ela submerge na personalidade da cantora. Não há, aqui, sinal da vaidade e do histrionismo que se percebem até nas melhores interpretações de figuras reais e célebres, do ator que saboreia sua competência. Marion está em cena em quase todos os 140 minutos do filme, e em todos eles está completamente dentro do momento.

Piaf se propõe revisitar sua personagem não pelo prisma do mito, mas pelo da intimidade. Não foi só com a voz rouca e possante que "La Môme Piaf" (ou "O Pequeno Pardal", como era chamada no início), transformou a chanson. Foi sobretudo com suas interpretações inimitáveis, alimentadas por desgraças e paixões pessoais. Filha de uma italiana que ainda nem saíra da adolescência, mas já entrara no alcoolismo, e de um artista circense francês, Édith foi criada em parte no bordel de sua avó paterna e em parte nas ruas; quase ficou cega quando criança; repetiu a história materna de gravidez precoce e de embriaguez, e perdeu a filha para uma meningite; foi uma jovem paupérrima e dissoluta; enfrentou a morte de sua grande paixão, o boxeador Marcel Cerdan, quando esta mal se iniciara; e, não fosse a entrada providencial em sua vida de algumas pessoas afetuosas e determinadas a suportar seus rompantes, é provável que nunca tivesse saído dos cabarés mais miseráveis de Paris. O diretor Olivier Dahan, contudo, partilha da visão de sua protagonista de que o talento extraordinário é, em si, uma espécie de destino. Pode não ser capaz de anular os outros destinos que a pessoa traçou para si, mas é forte o suficiente para guerrear com eles e, ocasionalmente, sobrepujá-los.

Marion é a peça-chave para que essa abstração ganhe uma forma concreta. Impecável na expressão corporal e na dublagem de canções célebres como L'Hymne à l'Amour e La Vie en Rose, ela chega magistral à última cena, na qual Piaf concentra toda a energia que lhe resta na interpretação de Non, Je Ne Regrette Rien – ou "Não, Não Me Arrependo de Nada", que não por força de expressão é a sua canção-testamento, e uma das últimas que ela gravou. A essa altura, há tempo o espectador deixou de divisar uma atriz sob a personagem, e ver tanta voz e inspiração saindo de uma figura tão destruída é verdadeiramente testemunhar um triunfo.




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