É o tipo de elogio que pede parcimônia, mas,
no caso da quase desconhecida Marion Cotillard, pode-se dispensar
a cautela: no papel-título de Piaf Um
Hino ao Amor (La Môme, França/ Inglaterra/República
Checa, 2007), desde sexta-feira em cartaz no país,
essa francesa de 32 anos, vista antes como a bonita mas não
particularmente expressiva namorada de Russell Crowe em Um
Bom Ano, atinge um desses desempenhos de passar à
história. Interpretando Édith Piaf, o ícone
maior da canção francesa, Marion opera uma transformação
física radical. Vai da moça faminta e desbocada
à matrona cheia de vontades, e além até
a mulher enrugada e fragilíssima que, no final da carreira,
mal conseguia se pôr de pé sozinha. (Piaf morreu
em 1963, aos 47 anos, com a aparência de uma octogenária,
em razão de câncer, reumatismo, muita morfina
e doses ainda mais letais de infelicidade.) Mais impressionante
ainda do que a maneira como a atriz submete seu corpo a esse
declínio ruinoso, porém, é a total ausência
de reservas com que ela submerge na personalidade da cantora.
Não há, aqui, sinal da vaidade e do histrionismo
que se percebem até nas melhores interpretações
de figuras reais e célebres, do ator que saboreia sua
competência. Marion está em cena em quase todos
os 140 minutos do filme, e em todos eles está completamente
dentro do momento.
Piaf se
propõe revisitar sua personagem não pelo prisma
do mito, mas pelo da intimidade. Não foi só
com a voz rouca e possante que "La Môme Piaf" (ou "O
Pequeno Pardal", como era chamada no início), transformou
a chanson. Foi sobretudo com suas interpretações
inimitáveis, alimentadas por desgraças e paixões
pessoais. Filha de uma italiana que ainda nem saíra
da adolescência, mas já entrara no alcoolismo,
e de um artista circense francês, Édith foi criada
em parte no bordel de sua avó paterna e em parte nas
ruas; quase ficou cega quando criança; repetiu a história
materna de gravidez precoce e de embriaguez, e perdeu a filha
para uma meningite; foi uma jovem paupérrima e dissoluta;
enfrentou a morte de sua grande paixão, o boxeador
Marcel Cerdan, quando esta mal se iniciara; e, não
fosse a entrada providencial em sua vida de algumas pessoas
afetuosas e determinadas a suportar seus rompantes, é
provável que nunca tivesse saído dos cabarés
mais miseráveis de Paris. O diretor Olivier Dahan,
contudo, partilha da visão de sua protagonista de que
o talento extraordinário é, em si, uma espécie
de destino. Pode não ser capaz de anular os outros
destinos que a pessoa traçou para si, mas é
forte o suficiente para guerrear com eles e, ocasionalmente,
sobrepujá-los.
Marion é
a peça-chave para que essa abstração
ganhe uma forma concreta. Impecável na expressão
corporal e na dublagem de canções célebres
como L'Hymne à l'Amour e La Vie en Rose,
ela chega magistral à última cena, na qual Piaf
concentra toda a energia que lhe resta na interpretação
de Non, Je Ne Regrette Rien ou "Não,
Não Me Arrependo de Nada", que não por força
de expressão é a sua canção-testamento,
e uma das últimas que ela gravou. A essa altura, há
tempo o espectador deixou de divisar uma atriz sob a personagem,
e ver tanta voz e inspiração saindo de uma figura
tão destruída é verdadeiramente testemunhar
um triunfo.