O
jazz é um tipo de música do qual já não
cabe esperar revoluções. Depois que instrumentistas
como Ornette Coleman e Don Cherry levaram suas improvisações
à fronteira da cacofonia, no "free jazz" dos anos 60,
só restava ao gênero voltar a formas mais contidas
de criação ou então dissolver-se.
Assim, entre os músicos que atingiram seu ápice
nas últimas décadas, predominam duas mentalidades.
Uma delas é simbolizada por Wynton Marsalis, um guardião
da tradição. O ícone oposto é
Herbie Hancock, pianista de 67 anos que mantém aceso
o desejo de inovação (ainda que essa palavra
não possa ser interpretada de maneira radical). Hancock,
que conhece a linguagem do jazz tão bem quanto Marsalis,
procura atualizá-la por meio de combinações
"heréticas" com o rap, o rock ou a música eletrônica.
Seu novo disco, River: The Joni Letters, chega nesta
semana ao Brasil. No CD, ele interpreta oito composições
da cantora canadense Joni Mitchell, que marcou os anos 60
e 70 com seu pop refinado e confessional. Hancock vem acompanhado
de um time excelente que inclui o saxofonista Wayne
Shorter, o baixista Dave Holland e as cantoras Norah Jones,
Tina Turner e Luciana Souza.
Hancock começou
sua carreira como intérprete erudito. Tinha 11 anos
de idade quando venceu um concurso em Chicago, sua cidade
natal, e tocou o primeiro movimento de um Concerto para
Piano, de Mozart, com a Sinfônica de Chicago. Mas
três anos depois ele trocou as partituras da música
clássica pelos improvisos do jazz. "Vi um garoto da
minha idade arrasando no piano e pensei: 'Quero brincar disso'",
disse Hancock em entrevista a VEJA. Em 1963, o trompetista
Miles Davis o convidou para integrar sua banda. Trabalhar
com um dos artistas mais originais do jazz foi crucial para
Hancock. "Eu só ouvia jazz. Certo dia, fui à
casa de Miles e encontrei vários discos de rock. Ele
me disse que era cool estar aberto para outros estilos",
conta. Na banda do trompetista, Hancock participou das primeiras
fusões de jazz e rock, presentes em discos como Miles
in the Sky e Filles de Kilimanjaro. Sua carreira-solo
nesse período também rendeu grandes colaborações.
Uma das mais famosas se deu em 1966, quando criou a trilha
de Blow Up Depois Daquele Beijo, do cineasta
italiano Michelangelo Antonioni. Ela trazia ruídos
e música incidental que ajudava a criar o clima de
suspense presente na trama.
Entre os discos
recentes de Hancock, River é um dos mais bem
resolvidos, mas não um dos mais surpreendentes. Confirma
a tendência entre jazzistas americanos: fazer incursões
pelo cancioneiro das décadas de 60 e 70 (além
de Joni Mitchell, artistas como Paul Simon são bastante
regravados no momento). Em Possibilities, seu álbum
anterior, ele pôs a cantora pop Christina Aguilera para
interpretar jazz isso sim uma surpresa. "Se você
ouvir os discos dela sem preconceito, perceberá que
existe uma bela intérprete por trás de toda
aquela produção", afirma ele. As misturas de
Hancock às vezes desandam. Mas sua taxa de acerto é
muito boa.