Como um
azul eletrizante saiu das telas de um pintor dos anos 50 e baixou no guarda-roupa
feminino da nova estação
Suzana
Villaverde
Fotos
Lailson Santos/divulgação
Marca
registrada: o azul que o francês Yves Klein inventou e batizou com seu nome aparece
em roupas e acessórios
De
repente, para onde quer que se olhe vitrines, revistas de moda, corpos
de famosas e anônimas , vê-se uma roupa ou um acessório
num azul quase escandaloso de tão azul. Essa cor eletrizante tem nome e
sobrenome: é o azul Yves Klein, tonalidade inventada e registrada pelo
pintor francês que o lançou no mundo das artes na década de
50. Para descomplicar, no Brasil ele recebeu o apelido de azul bic, como a caneta
esferográfica. Como o azul criado por Klein, que morreu de ataque cardíaco
com apenas 34 anos, antes de ganhar renome mesmo no estreito nicho de conhecedores
de arte, de repente foi parar no guarda-roupa de verão das mulheres pós-modernas?
Com raríssimas exceções, cores e padronagens entram na moda
pela porta de uma parceria entre a indústria, os fabricantes de fios e
tecidos e as agências especializadas em detectar novas tendências
e comportamentos mundo afora, um ramo de atividade cada vez mais requisitado.
Com a elevação dos padrões de consumo e de competição
entre os produtores, que geram alta rotatividade dos ciclos da moda, a busca da
cor que vai "pegar" é cada vez mais premente. "Trabalhamos com profissionais
altamente focados em olhar para as coisas mais banais e para os grupinhos da cultura
underground e perceber as novidades", explica Barbara Kennington, diretora criativa
do WGSN, de Londres, o maior escritório de prospecção de
tendências do mundo, que garante enxergar com cerca de dois anos de antecedência
as mensagens de cor e estilo escondidas na arquitetura, em exposições
de arte e, principalmente, nas ruas.
No caso do azul em questão, Barbara conta que em meados de 2005 ele já
aparecia em roupas e acessórios de uma pequena parcela de jovens de Londres.
"Foi uma cor muito presente nos anos 80, principalmente na moda esportiva, e os
jovens que observamos celebravam justamente aquela época", diz. "Nós
fazemos isso: observamos e depois apostamos. Em parte é pesquisa, em parte
é instinto." E se a cor não pegar? "Então alguém não
trabalhou direito", brinca. "Com uma boa pesquisa, o risco de erro é praticamente
nulo." O caminho das cores, como se vê, tem várias mãos. Não
existe propriamente um comitê de sábios que decreta o que os consumidores
vão usar, mas a indústria precisa se preparar para produzir e lançar
o que eles ainda não sabem que vão querer. "As pessoas acham que
a moda é inventada pelo estilista, mas o processo começa bem lá
atrás", diz Fabiana Mendes, consultora de moda para o setor têxtil
no Brasil, que conhece bem o trajeto das cores no setor: os "olheiros" apontam
as tendências, cartelas de cores são apresentadas em feiras e salões,
primeiro de fios, depois de tecidos, e delas saem as tonalidades que vão
predominar nos desfiles das grandes marcas, que acabarão indicando caminhos
para o consumo de massa. "Vendo o que é apresentado por cada segmento,
conseguimos extrair o que aparece mais e confirmar quais serão as cores
da moda de uma estação", relata.
Movido pelo princípio de que "cores vendem e a cor certa vende mais", Jack
Bredenfoerder, presidente do Color Marketing Group, uma organização
que aponta novas opções de cores para produtos que vão de
papel higiênico a carros de luxo, conta que estava de olho havia sete anos
no potencial do azul Klein uma tonalidade que o pintor considerava a reprodução
perfeita do céu de Nice, sua cidade natal, e que pesquisou e buscou aplicar
à tela durante anos, sem sucesso. A descoberta de uma nova resina sintética
permitiu enfim que chegasse à luminosidade desejada. Na linguagem técnica
das cores, ele tem 100% de ciano e 90% de magenta. "A disseminação
desse azul agora não é uma feliz coincidência", diz Bredenfoerder,
que se diverte acompanhando com olho profissional o desfile de mulheres famosas
em cerimônias como o Oscar e similares. "Aposto com amigos e colegas qual
cor vai aparecer mais. Todo ano acerto", afirma. Seu palpite para as próximas
premiações? "Azul, verde e amarelo continuarão em alta, mas
em tom muito mais suave." Sobre o futuro do azul bic, a consultora Fabiana não
tem boas notícias: "Como todos os tons muito marcantes, pode durar ainda
um bom tempo nas vitrines de lojas mais populares. Mas, no mercado formador de
opinião, tem no máximo seis meses de vida".