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17 de outubro de 2007
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Estilo
Choque de cor no verão

Como um azul eletrizante saiu das telas
de um pintor dos anos 50 e baixou no
guarda-roupa feminino da nova estação


Suzana Villaverde

Fotos Lailson Santos/divulgação
Marca registrada: o azul que o francês Yves Klein inventou e batizou com seu nome aparece em roupas e acessórios

De repente, para onde quer que se olhe – vitrines, revistas de moda, corpos de famosas e anônimas –, vê-se uma roupa ou um acessório num azul quase escandaloso de tão azul. Essa cor eletrizante tem nome e sobrenome: é o azul Yves Klein, tonalidade inventada e registrada pelo pintor francês que o lançou no mundo das artes na década de 50. Para descomplicar, no Brasil ele recebeu o apelido de azul bic, como a caneta esferográfica. Como o azul criado por Klein, que morreu de ataque cardíaco com apenas 34 anos, antes de ganhar renome mesmo no estreito nicho de conhecedores de arte, de repente foi parar no guarda-roupa de verão das mulheres pós-modernas? Com raríssimas exceções, cores e padronagens entram na moda pela porta de uma parceria entre a indústria, os fabricantes de fios e tecidos e as agências especializadas em detectar novas tendências e comportamentos mundo afora, um ramo de atividade cada vez mais requisitado. Com a elevação dos padrões de consumo e de competição entre os produtores, que geram alta rotatividade dos ciclos da moda, a busca da cor que vai "pegar" é cada vez mais premente. "Trabalhamos com profissionais altamente focados em olhar para as coisas mais banais e para os grupinhos da cultura underground e perceber as novidades", explica Barbara Kennington, diretora criativa do WGSN, de Londres, o maior escritório de prospecção de tendências do mundo, que garante enxergar com cerca de dois anos de antecedência as mensagens de cor e estilo escondidas na arquitetura, em exposições de arte e, principalmente, nas ruas.

No caso do azul em questão, Barbara conta que em meados de 2005 ele já aparecia em roupas e acessórios de uma pequena parcela de jovens de Londres. "Foi uma cor muito presente nos anos 80, principalmente na moda esportiva, e os jovens que observamos celebravam justamente aquela época", diz. "Nós fazemos isso: observamos e depois apostamos. Em parte é pesquisa, em parte é instinto." E se a cor não pegar? "Então alguém não trabalhou direito", brinca. "Com uma boa pesquisa, o risco de erro é praticamente nulo." O caminho das cores, como se vê, tem várias mãos. Não existe propriamente um comitê de sábios que decreta o que os consumidores vão usar, mas a indústria precisa se preparar para produzir e lançar o que eles ainda não sabem que vão querer. "As pessoas acham que a moda é inventada pelo estilista, mas o processo começa bem lá atrás", diz Fabiana Mendes, consultora de moda para o setor têxtil no Brasil, que conhece bem o trajeto das cores no setor: os "olheiros" apontam as tendências, cartelas de cores são apresentadas em feiras e salões, primeiro de fios, depois de tecidos, e delas saem as tonalidades que vão predominar nos desfiles das grandes marcas, que acabarão indicando caminhos para o consumo de massa. "Vendo o que é apresentado por cada segmento, conseguimos extrair o que aparece mais e confirmar quais serão as cores da moda de uma estação", relata.

Movido pelo princípio de que "cores vendem e a cor certa vende mais", Jack Bredenfoerder, presidente do Color Marketing Group, uma organização que aponta novas opções de cores para produtos que vão de papel higiênico a carros de luxo, conta que estava de olho havia sete anos no potencial do azul Klein – uma tonalidade que o pintor considerava a reprodução perfeita do céu de Nice, sua cidade natal, e que pesquisou e buscou aplicar à tela durante anos, sem sucesso. A descoberta de uma nova resina sintética permitiu enfim que chegasse à luminosidade desejada. Na linguagem técnica das cores, ele tem 100% de ciano e 90% de magenta. "A disseminação desse azul agora não é uma feliz coincidência", diz Bredenfoerder, que se diverte acompanhando com olho profissional o desfile de mulheres famosas em cerimônias como o Oscar e similares. "Aposto com amigos e colegas qual cor vai aparecer mais. Todo ano acerto", afirma. Seu palpite para as próximas premiações? "Azul, verde e amarelo continuarão em alta, mas em tom muito mais suave." Sobre o futuro do azul bic, a consultora Fabiana não tem boas notícias: "Como todos os tons muito marcantes, pode durar ainda um bom tempo nas vitrines de lojas mais populares. Mas, no mercado formador de opinião, tem no máximo seis meses de vida".



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