Em Brasília,
presidentes de grandes companhias americanas e brasileiras debatem medidas
para aumentar os negócios entre os dois países
Denise
Dweck
Ana
Araujo
CEOs
na reunião em Brasília: é preciso cortar tributos e facilitar
a concessão de visto
Ministros brasileiros e americanos sentaram-se em Brasília, na quinta-feira
da semana passada, para ouvir os conselhos de quem melhor entende de negócios
internacionais os presidentes de algumas das maiores empresas dos dois
países. Estiveram lado a lado os principais executivos de dezenove companhias
gigantes, como Alain Belda, da Alcoa, Neville Isdell, da Coca-Cola, Roger Agnelli,
da Companhia Vale do Rio Doce, Maurício Botelho, da Embraer, Jorge Gerdau
Johannpeter, do grupo Gerdau, José Roberto Ermírio de Moraes, do
grupo Votorantim, e Bill Rhodes, do Citibank. O faturamento somado dessas companhias
chega perto de 700 bilhões de dólares, o equivalente ao PIB da Austrália.
O resultado do encontro foi uma lista de recomendações e propostas
específicas para facilitar e ampliar as exportações, os investimentos
e o intercâmbio de tecnologia entre os dois países.
O Brasil é o segundo país a organizar um fórum de CEOs (sigla
em inglês para designar o principal executivo de uma empresa) em parceria
com o governo dos Estados Unidos. O anterior foi na Índia, no ano passado.
Encontros desse tipo têm uma série de qualidades. A primeira é
permitir que os entraves existentes nas relações comerciais bilaterais
sejam discutidos por aqueles que enfrentam esses problemas no dia-a-dia da vida
profissional. A segunda é criar uma oportunidade para que as sugestões
sejam apresentadas diretamente a representantes do governo. Estavam presentes
pelo Brasil os ministros Miguel Jorge, do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio Exterior, e Dilma Rousseff, da Casa Civil. Pelos Estados Unidos,
participaram Carlos Gutierrez, secretário de Comércio, e Allan Hubbard,
assessor do presidente George W. Bush para política econômica. Pelo
menos um dos problemas apresentados a concessão de vistos de entrada
nos Estados Unidos parece ter uma solução a curto prazo.
"No ano passado, os indianos também reclamaram das dificuldades na concessão
de visto", disse a VEJA o americano Allan Hubbard. "O Departamento de Estado conseguiu
resolver esse problema para os indianos e, com certeza, fará o mesmo para
os brasileiros."
Algumas das
sugestões exigem soluções mais complexas e demoradas. Um
exemplo é o pedido de negociações para acordos bilaterais
por setor produtivo, como o existente entre Brasil e México para a indústria
automotiva. "O fórum pediu igualmente a elaboração de um
acordo para evitar que empresas com negócios nos dois países sofram
com a dupla tributação", diz Josué Gomes da Silva, presidente
da mineira Coteminas, do setor têxtil, e coordenador dos CEOs brasileiros
no fórum. A julgar pela experiência anterior na Índia, a reunião
de CEOs em Brasília deve representar o início de um processo de
conversações. Desde o início de 2006, os executivos americanos
e indianos reuniram-se quatro vezes, montaram um comitê para agilizar a
Rodada Doha na Organização Mundial do Comércio e criaram
um fundo de investimento para obras de infra-estrutura na Índia. Cada uma
dessas conversas resultou em novas propostas de medidas práticas para ampliar
as exportações e facilitar a entrada de investimentos no setor financeiro
e em outros serviços.
"É
importante que os executivos insistam em bater nas mesmas teclas, para não
deixar que os problemas sejam esquecidos. O impacto pode ser significativo, pois
vem de empresas de grande porte", diz o ex-ministro da Fazenda Maílson
da Nóbrega. A influência das empresas no processo de decisão
do governo é bem assentada nos Estados Unidos. Naquele país o trabalho
de lobby é regulamentado e há uma grande estrutura de centros de
pesquisa que auxilia as empresas com estudos para fundamentar suas exigências.
No Brasil, o encontro da semana passada pode ser o passo inicial para que muitos
problemas encontrados pelos exportadores e investidores sejam identificados e
resolvidos.