Carreta ignora sinalização
e atropela equipe de resgate de outro acidente. Saldo: 27 mortos
Raquel/Diário
Catarinense
Local
da tragédia: quem foi prestar socorro aos feridos do primeiro acidente
se tornou vítima da carreta desgovernada
O
duplo acidente ocorrido na semana passada na rodovia federal BR-282, no oeste
de Santa Catarina, deixou o país estarrecido e mais uma vez evidenciou
o descalabro que reina nas estradas brasileiras perigosas, malconservadas
e mal sinalizadas. Eram 19h30 de terça-feira quando um caminhão
carregado de soja tentou ultrapassar outro veículo pela contramão
num trecho da pista com curva e em declive, proibido para essa manobra. O caminhão
chocou-se de frente com um ônibus fretado que trazia 40 agricultores vindos
de uma feira de negócios em Chapecó. Com a colisão, os dois
veículos caíram numa ribanceira de uma altura de mais de 20 metros.
O motorista e dois passageiros do ônibus morreram na hora. O mesmo ocorreu
com o caminhoneiro, sua mulher e os dois filhos do casal, que o acompanhavam na
cabine. Mas esse era apenas o primeiro capítulo da tragédia.
Duas horas depois, o caminhão dirigido por Rosinei Ferrari, de 28 anos,
furou o bloqueio montado pela Polícia Rodoviária em torno do acidente.
Trafegando a mais de 100 quilômetros por hora, como uma besta desgovernada,
bateu em nove veículos e atropelou bombeiros e policiais que estavam na
pista no trabalho de resgate. Também passou por cima de sobreviventes do
ônibus acidentado e de curiosos que assistiam à operação.
O saldo trágico do duplo desastre foi de 27 mortos e mais de oitenta feridos.
O caminhoneiro Ferrari sobreviveu ao acidente. A polícia anunciou que,
assim que tivesse alta, seria preso e autuado por homicídio doloso eventual,
quando não há intenção de matar mas se tem consciência
do risco. No hospital, Ferrari disse que ultrapassou o bloqueio porque seu caminhão
perdeu os freios. O motorista também afirmou que buzinou e acionou o farol
alto para alertar as pessoas de sua aproximação. Para o delegado
Rodrigo Cesar Barbosa, responsável pelo inquérito policial do caso,
Ferrari assumiu o risco de provocar mortes quando trafegou pela pista na contramão,
por mais de 2 quilômetros.
O Brasil está entre os campeões mundiais em desastres rodoviários.
Apenas de janeiro a agosto deste ano, ocorreram 82.000 acidentes nas estradas
federais do país, com mais de 4.600 vítimas fatais. É o mesmo
número de mortes que causaria a queda de onze aviões Jumbo 747.
Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito, o estado de Santa Catarina
é o segundo colocado em número de acidentes, atrás de Minas
Gerais. Para se ter uma idéia do risco que se corre ao trafegar pelas rodovias
federais, apenas 9% delas têm pista dupla, que torna as ultrapassagens seguras.
Somem-se a isso as péssimas condições das pistas e tem-se
o cenário ideal para a sucessão de tragédias que recheiam
as estatísticas. Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada mostra que os acidentes nas rodovias custam à economia brasileira
22 bilhões de reais por ano, gastos em hospitalizações, indenizações
e danos materiais.