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17 de outubro de 2007
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Brasil
Mais um olé!

Empresas espanholas testaram o capitalismo brasileiro
nas privatizações da última década. Mais experientes,
elas agora levam o Banco Real e seis das sete licitações
de estradas federais


Giuliano Guandalini e Julia Duailibi

 
Lalo de Almeida/Folha Imagem
Capital privado nas estradas: asfalto de primeira e assistência em tempo real


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Nesta reportagem
Quadro: Principais grupos espanhóis com investimento no Brasil
Quadro: Avanço nos bancos e nas estradas

Investidores espanhóis estiveram à frente de alguns dos principais negócios fechados durante o ciclo de privatizações iniciado no país há dez anos. O primeiro lance de peso veio em 1998, quando a Telefónica arrematou a rede de telefonia fixa no estado de São Paulo, a jóia da coroa do leilão do sistema Telebrás. Em 2000, ainda no primeiro ciclo de privatizações, mais uma estocada agressiva: o Santander deixou para trás os bancos brasileiros e levou o Banespa, que tinha 3 milhões de clientes e era a maior das instituições financeiras públicas estaduais. O capital espanhol, então insignificante, assumiu posição de destaque entre os investimentos externos no Brasil. Desde então, espalhou-se por diferentes setores, como energia, extração de petróleo, edição de livros e hotelaria. Na semana passada, com a destreza dos toureiros, os espanhóis fizeram mais um aporte significativo no país. O Banco Santander acertou a compra do Real e tornou-se o segundo maior banco privado do Brasil, atrás apenas do Bradesco e à frente do Itaú. Simultaneamente, investidores espanhóis dominaram o tão esperado leilão de concessão de rodovias federais, arrematando seis dos sete trechos leiloados.

O que está por trás da nova ofensiva? Em primeiro lugar, investimentos muito mais seletivos e eficientes que os da década passada, quando os espanhóis se lançaram com certo açodamento, desembolsaram mais bilhões do que o necessário e, muitas vezes, viram seus planos de expansão inviabilizados pela confusão regulatória, pelas disputas jurídicas e pelo baixo crescimento do país. Quando arrematou o Banespa, o Santander pagou 7,05 bilhões de reais, quatro vezes o preço mínimo estipulado. O banco teve dificuldades em deslanchar e naufragou na sua ambição de ser o maior do país. Os grupos espanhóis, principalmente os que atuam na área financeira e de infra-estrutura, também tiveram contratempos e amargaram prejuízos em outros países da região, como a Argentina, a Bolívia e a Venezuela, contaminados pelo populismo político e avessos ao capital privado externo. Os problemas foram muitos, mas as empresas da Espanha ganharam em experiência.

Quando comprou o Banespa, há sete anos, o Santander desenhava um futuro imediatamente promissor. No entanto, absorver o banco paulista revelou-se mais complexo do que antecipara. Enfrentou ainda as crises financeiras de 2002, e o crédito demorou a avançar no país. Recentemente, perdeu o contrato que lhe dava exclusividade no pagamento dos funcionários públicos do estado de São Paulo. Agora, com a aquisição do Real, o Santander absorve uma instituição sólida, com presença nacional expressiva e sem surpresas guardadas no armário. Torna-se, com isso, a primeira instituição financeira com fôlego para competir de igual para igual com Banco do Brasil, Bradesco e Itaú, os líderes de mercado.

Os espanhóis, portanto, estão mais judiciosos em seus investimentos. Mas não é só isso. De nação atrasada, a Espanha tornou-se, nos últimos vinte anos, um dos países que mais crescem na Europa. A virada ocorreu graças às reformas liberalizantes e ao ingresso na União Européia, o que injetou bilhões de dólares no país. Expostas à competição internacional, as empresas da Espanha tiveram de se modernizar. Quem sobreviveu saiu não só fortalecido como também grande demais para as dimensões do país, que se tornou pequeno para o capitalismo espanhol. Daí a necessidade de investir em novos mercados. Diz Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP: "A internacionalização das empresas espanholas faz parte de uma política de estado. O governo dá incentivos fiscais e promove linhas de financiamento". Esses incentivos, na visão de alguns concorrentes europeus, são desleais. A Comissão Européia acabou de abrir uma investigação sobre o assunto, sinal do incômodo causado pelos espanhóis em estruturas econômicas locais nas quais aportam.

Nesse contexto, a América Latina é sempre a opção óbvia de investimentos. Mas não a única. Os grupos espanhóis crescem também nos países ricos. Em 2004, o Santander comprou o banco inglês Abbey National. No ano seguinte, a Telefónica adquiriu a operadora de celulares O2, também britânica. O Brasil, é claro, voltou a ser atrativo com o despertar econômico e o surgimento de novos negócios. Foi de olho no expressivo crescimento do crédito, que tem avançado mais de 20% ao ano, que o Santander desembolsou 31 bilhões de reais para ficar com o Real, aquisição fechada na última semana. "O Santander é um banco competitivo e estimulará a concorrência", afirma o ministro da Fazenda, Guido Mantega. "Com a diminuição dos juros, os bancos deixaram de ter o lucro fácil da aplicação em títulos públicos e tiveram de ampliar a concessão de crédito. Há uma disputa por clientes, o que amplia a concorrência no sistema financeiro." A ambição do Santander, manifestada desde a aquisição do Banespa, é ser o maior banco privado do Brasil.

Outro avanço dos espanhóis ocorreu no leilão de concessão das rodovias federais. Na terça-feira passada, a OHL arrematou cinco dos sete trechos oferecidos, ficando com os dois mais cobiçados (Régis Bittencourt e Fernão Dias). A também espanhola Acciona levou outro trecho e apenas um deles ficou com um consórcio brasileiro (BRVias, que tem como sócia a família Constantino, dona da empresa aérea Gol). A OHL, que já administrava quatro estradas paulistas, passará a ser a maior concessionária de rodovias do país em total de quilômetros. Serão ao todo 3.226 quilômetros. A presença dos espanhóis acirrou a concorrência do leilão e ajudou a derrubar o preço dos pedágios (veja quadro). O processo de concessão, que se arrastava havia uma década, foi tão bem-sucedido que injetou ânimo no governo para conceder à iniciativa privada outros trechos de vias federais. Deverão ser investidos 20 bilhões de reais nos próximos 25 anos.

Com a concessão das estradas, o governo Lula mostra ter perdido o medo das privatizações. Trata-se de uma grande notícia, dado o ranço ideológico contrário à iniciativa privada que ainda aflige um bom número de petistas. Porém, ainda há muito a fazer. A tragédia na BR-282, em Santa Catarina (leia reportagem), uma estrada aquém dos padrões de segurança, é um lembrete veemente da precariedade em que se encontra a infra-estrutura brasileira. O país precisa com urgência de investimentos em aeroportos, portos, ferrovias e energia. O estado não tem e não terá fôlego para fazer frente a essas necessidades. O capital privado nacional por si só também não dará conta do desafio. Que venham novos investidores externos – e não apenas espanhóis.




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