Empresas espanholas
testaram o capitalismo brasileiro
nas privatizações da última década.
Mais experientes,
elas agora levam o Banco Real e seis das sete licitações
de estradas federais
Giuliano Guandalini e Julia Duailibi
Lalo de Almeida/Folha
Imagem
Capital privado nas estradas:
asfalto de primeira e assistência em tempo real
Investidores
espanhóis estiveram à frente de alguns dos principais
negócios fechados durante o ciclo de privatizações
iniciado no país há dez anos. O primeiro lance
de peso veio em 1998, quando a Telefónica arrematou
a rede de telefonia fixa no estado de São Paulo, a
jóia da coroa do leilão do sistema Telebrás.
Em 2000, ainda no primeiro ciclo de privatizações,
mais uma estocada agressiva: o Santander deixou para trás
os bancos brasileiros e levou o Banespa, que tinha 3 milhões
de clientes e era a maior das instituições financeiras
públicas estaduais. O capital espanhol, então
insignificante, assumiu posição de destaque
entre os investimentos externos no Brasil. Desde então,
espalhou-se por diferentes setores, como energia, extração
de petróleo, edição de livros e hotelaria.
Na semana passada, com a destreza dos toureiros, os espanhóis
fizeram mais um aporte significativo no país. O Banco
Santander acertou a compra do Real e tornou-se o segundo maior
banco privado do Brasil, atrás apenas do Bradesco e
à frente do Itaú. Simultaneamente, investidores
espanhóis dominaram o tão esperado leilão
de concessão de rodovias federais, arrematando seis
dos sete trechos leiloados.
O que está
por trás da nova ofensiva? Em primeiro lugar, investimentos
muito mais seletivos e eficientes que os da década
passada, quando os espanhóis se lançaram com
certo açodamento, desembolsaram mais bilhões
do que o necessário e, muitas vezes, viram seus planos
de expansão inviabilizados pela confusão regulatória,
pelas disputas jurídicas e pelo baixo crescimento do
país. Quando arrematou o Banespa, o Santander pagou
7,05 bilhões de reais, quatro vezes o preço
mínimo estipulado. O banco teve dificuldades em deslanchar
e naufragou na sua ambição de ser o maior do
país. Os grupos espanhóis, principalmente os
que atuam na área financeira e de infra-estrutura,
também tiveram contratempos e amargaram prejuízos
em outros países da região, como a Argentina,
a Bolívia e a Venezuela, contaminados pelo populismo
político e avessos ao capital privado externo. Os problemas
foram muitos, mas as empresas da Espanha ganharam em experiência.
Quando comprou
o Banespa, há sete anos, o Santander desenhava um futuro
imediatamente promissor. No entanto, absorver o banco paulista
revelou-se mais complexo do que antecipara. Enfrentou ainda
as crises financeiras de 2002, e o crédito demorou
a avançar no país. Recentemente, perdeu o contrato
que lhe dava exclusividade no pagamento dos funcionários
públicos do estado de São Paulo. Agora, com
a aquisição do Real, o Santander absorve uma
instituição sólida, com presença
nacional expressiva e sem surpresas guardadas no armário.
Torna-se, com isso, a primeira instituição financeira
com fôlego para competir de igual para igual com Banco
do Brasil, Bradesco e Itaú, os líderes de mercado.
Os espanhóis,
portanto, estão mais judiciosos em seus investimentos.
Mas não é só isso. De nação
atrasada, a Espanha tornou-se, nos últimos vinte anos,
um dos países que mais crescem na Europa. A virada
ocorreu graças às reformas liberalizantes e
ao ingresso na União Européia, o que injetou
bilhões de dólares no país. Expostas
à competição internacional, as empresas
da Espanha tiveram de se modernizar. Quem sobreviveu saiu
não só fortalecido como também grande
demais para as dimensões do país, que se tornou
pequeno para o capitalismo espanhol. Daí a necessidade
de investir em novos mercados. Diz Antonio Corrêa de
Lacerda, da PUC-SP: "A internacionalização das
empresas espanholas faz parte de uma política de estado.
O governo dá incentivos fiscais e promove linhas de
financiamento". Esses incentivos, na visão de alguns
concorrentes europeus, são desleais. A Comissão
Européia acabou de abrir uma investigação
sobre o assunto, sinal do incômodo causado pelos espanhóis
em estruturas econômicas locais nas quais aportam.
Nesse contexto,
a América Latina é sempre a opção
óbvia de investimentos. Mas não a única.
Os grupos espanhóis crescem também nos países
ricos. Em 2004, o Santander comprou o banco inglês Abbey
National. No ano seguinte, a Telefónica adquiriu a
operadora de celulares O2, também britânica.
O Brasil, é claro, voltou a ser atrativo com o despertar
econômico e o surgimento de novos negócios. Foi
de olho no expressivo crescimento do crédito, que tem
avançado mais de 20% ao ano, que o Santander desembolsou
31 bilhões de reais para ficar com o Real, aquisição
fechada na última semana. "O Santander é um
banco competitivo e estimulará a concorrência",
afirma o ministro da Fazenda, Guido Mantega. "Com a diminuição
dos juros, os bancos deixaram de ter o lucro fácil
da aplicação em títulos públicos
e tiveram de ampliar a concessão de crédito.
Há uma disputa por clientes, o que amplia a concorrência
no sistema financeiro." A ambição do Santander,
manifestada desde a aquisição do Banespa, é
ser o maior banco privado do Brasil.
Outro avanço
dos espanhóis ocorreu no leilão de concessão
das rodovias federais. Na terça-feira passada, a OHL
arrematou cinco dos sete trechos oferecidos, ficando com os
dois mais cobiçados (Régis Bittencourt e Fernão
Dias). A também espanhola Acciona levou outro trecho
e apenas um deles ficou com um consórcio brasileiro
(BRVias, que tem como sócia a família Constantino,
dona da empresa aérea Gol). A OHL, que já administrava
quatro estradas paulistas, passará a ser a maior concessionária
de rodovias do país em total de quilômetros.
Serão ao todo 3.226 quilômetros. A presença
dos espanhóis acirrou a concorrência do leilão
e ajudou a derrubar o preço dos pedágios (veja
quadro). O processo de concessão, que
se arrastava havia uma década, foi tão bem-sucedido
que injetou ânimo no governo para conceder à
iniciativa privada outros trechos de vias federais. Deverão
ser investidos 20 bilhões de reais nos próximos
25 anos.
Com a concessão
das estradas, o governo Lula mostra ter perdido o medo das
privatizações. Trata-se de uma grande notícia,
dado o ranço ideológico contrário à
iniciativa privada que ainda aflige um bom número de
petistas. Porém, ainda há muito a fazer. A tragédia
na BR-282, em Santa Catarina (leia
reportagem), uma estrada aquém dos padrões
de segurança, é um lembrete veemente da precariedade
em que se encontra a infra-estrutura brasileira. O país
precisa com urgência de investimentos em aeroportos,
portos, ferrovias e energia. O estado não tem e não
terá fôlego para fazer frente a essas necessidades.
O capital privado nacional por si só também
não dará conta do desafio. Que venham novos
investidores externos e não apenas espanhóis.