Na semana passada,
depois da revelação de VEJA sobre senadores
oposicionistas que foram alvo de uma tentativa de espionagem
clandestina, estabeleceu-se o consenso entre as principais
lideranças políticas de que chegava ao fim a
trajetória de Renan Calheiros como presidente do Congresso.
A notícia de que um assessor do gabinete de Renan tentou
instalar câmeras de vídeo para flagrar adversários
em situações comprometedoras levou representantes
de todos os partidos, inclusive do PT e do PMDB, a pedir o
afastamento imediato do senador. Acuado diante das evidências
de sua participação em mais um crime, Renan
não resistiu às pressões. Na quinta-feira,
diante de um Congresso vazio, o senador anunciou a decisão
de se afastar da presidência por 45 dias. Em um pronunciamento
gravado, explicou que estava deixando temporariamente o Senado
para preservar a harmonia e cuidar integralmente de sua defesa.
Na verdade, Renan Calheiros abandonou o cargo porque não
contava mais com o apoio de seus pares. Nos últimos
cinco meses, ele se comportou como o dono do Senado. Para
se safar das acusações de quebra do decoro parlamentar,
interferiu nas investigações, intimidou aliados,
denegriu a imagem de colegas. Usou a força que o cargo
lhe conferia para constranger e chantagear. Isolado, viu no
afastamento a última chance de escapar da cassação.
Em seu lugar, assume o vice-presidente, o petista Tião
Viana.
Renan Calheiros
continuará respondendo no Conselho de Ética
às acusações de usar laranjas para comprar
emissoras de rádio, de fazer lobby para uma cervejaria,
de participar de um esquema de arrecadação de
propinas em ministérios do PMDB e de espionar senadores
oposicionistas. A diferença agora é que ele
será um senador como outro qualquer. Não vai
mais poder usar a autoridade para obter informações
e conseguir privilégios. Em seu rápido pronunciamento,
visivelmente abatido, Calheiros explicou que seu gesto tinha
o objetivo de mostrar que ele não precisa usar o cargo
para se defender. "Não lancei mão de prerrogativas
de presidente do Senado em meu benefício ou contra
quem quer que seja", disse o senador. E completou: "Com meu
gesto, que é unilateral, preservo a harmonia no Senado
Federal, deixo claro meu respeito pelos interesses do país
e homenageio as altas responsabilidades das funções
que exerço". Engana-se quem pensa que o gesto de Renan
Calheiros tem algo de magnânimo. O senador pediu para
deixar a presidência depois de assistir a uma insurreição
generalizada, após a revelação de que
um de seus assessores tentou montar um esquema para espionar
os senadores Demostenes Torres, do DEM, e Marconi Perillo,
do PSDB. O novo escândalo uniu parlamentares de todos
os partidos, que exigiram o imediato afastamento do senador.
Lula Marques/Folha Imagem
Senadores dos seis maiores partidos
ameaçaram parar o Congresso a partir de novembro caso
Renan Calheiros insistisse em continuar na presidência
"Agora, não
é mais uma briga entre governo e oposição.
É uma questão suprapartidária. Renan
é um paciente terminal que está impedindo a
governabilidade do Senado", atestou o senador Aloizio Mercadante,
do PT, que, um mês atrás, ajudou na absolvição
de Calheiros. "Renan não tem condições
éticas e políticas de presidir o Senado por
mais um dia. O episódio da espionagem foi a gota d'água.
Passou da hora de ele deixar a presidência", disse o
senador Renato Casagrande, líder do PSB. "O Senado
tem de ter novamente uma cara limpa, o que é impossível
com o Renan na presidência", afirmou o líder
do DEM, José Agripino. "Renan não é mais
o presidente do Senado na prática. Não comanda,
não tem autoridade, não tem apoio político.
Enquanto ele continuar na presidência, o Senado não
anda", acusou o líder do PSDB, Arthur Virgílio.
"Chegamos a um ponto de achincalhamento do Senado que não
é possível mais suportar. A esta altura, pouco
importa se o senador Renan é culpado ou inocente nos
processos a que responde", concluiu Jefferson Péres,
do PDT, que foi escolhido para relatar o processo que vai
apurar os detalhes de como o senador Calheiros usou laranjas
para comprar duas emissoras de rádio e um jornal em
Alagoas.
Celso Junior/AE
Pressão também na Câmara: deputados
fazem abaixo-assinado pela renúncia
O cerco ao presidente
do Congresso se intensificou depois da reunião de um
grupo de vinte senadores, representando os seis principais
partidos PT, PMDB, PSDB, DEM, PDT e PSB. Além
da decisão de apresentar a quinta representação
no Conselho de Ética contra Renan Calheiros, o grupo
combinou uma estratégia para emparedar o senador. Fixaram
o dia 2 de novembro como limite para a conclusão dos
processos que já existem contra Renan. A partir dessa
data, em protesto, os partidos ameaçaram parar o Congresso.
Independentemente do resultado, prometiam que não haveria
votações no plenário nem nas comissões
enquanto Calheiros permanecesse na presidência. A tática
assustou o governo, que tem como prioridade a aprovação
da reedição da CPMF até o fim do ano.
Renan, até então protegido nos bastidores pela
bancada oficial, começou a ser visto como um estorvo.
"Há um sentimento crescente para que o senhor se afaste.
Não dá para tapar o sol com a peneira. A situação
é tão grave que todos nós estamos na
iminência de pedir licença", disse em plenário
a líder do PT, Ideli Salvatti, até dias atrás
uma ferrenha defensora do presidente do Congresso. "Há
um rosário de episódios que deprimem o Parlamento
e que precisam ter fim. Temos mecanismos para abortar esse
processo", ponderou o senador Valter Pereira, do PMDB, até
dias atrás um fiel combatente da guarda republicana
de Calheiros. Mentores de Renan, como o senador José
Sarney e sua filha Roseana, sumiram de cena. Renan percebeu
que estava perdendo suas principais posições
de defesa e passou a pensar na possibilidade de se afastar
da presidência para salvar o mandato.
Alan Marques/Folha Imagem
Ideli Salvatti: a senadora demorou,
mas se rendeu aos argumentos contrários a Renan Calheiros
Na quarta-feira,
já convencido de que não tinha mais condições
políticas para continuar comandando o Congresso, Renan
Calheiros propôs um pacto entre as lideranças
partidárias. Ele escalou o líder do governo,
Romero Jucá um especialista em negociatas ,
para levar uma proposta de paz ao Senado. O senador concordaria
em se afastar imediatamente da presidência e, depois
de concluídos os processos, renunciaria ao cargo. Em
troca, os senadores lhe garantiriam uma pena intermediária,
como advertência ou suspensão temporária
de mandato. O plano de salvação, porém,
não foi aceito. "Não dá para fazer acordo
com Renan e passar para a sociedade a imagem de que ele continua
dando as cartas no Senado", afirma o líder do DEM,
José Agripino. "Renan está isolado, não
tem mais como presidir o Senado, não dá mais
para falar em licença. Ele sinalizou que sairia do
cargo após a absolvição, mas não
saiu. Agora não há acordo", diz o senador Mercadante,
confirmando finalmente que, como VEJA revelou, existia um
"contrato de gaveta" entre os petistas e Renan para que ele
se licenciasse do cargo depois de ser absolvido da acusação
de usar um lobista para pagar suas despesas pessoais. O senador,
como se sabe, foi absolvido com o voto dos petistas e, depois,
recusou-se a cumprir o trato. Perdeu a confiança dos
aliados.
Orlando Brito/OBRITONEWS
Mercadante: Renan é paciente
terminal
A estratégia
de Renan Calheiros não é nova e já foi
usada em um caso muito parecido. Em julho de 2001, emparedado
por uma avalanche de denúncias de corrupção,
o então presidente do Congresso, senador Jader Barbalho,
também pediu licença do cargo por sessenta dias,
achando que, longe dos holofotes, suas maracutaias seriam
esquecidas. Como Renan, Jader se dizia perseguido pela imprensa,
especialmente por VEJA, que publicou as principais revelações
contra o senador. O lado até então desconhecido
da vida de Jader Barbalho continuou eclodindo durante seu
afastamento da presidência. Dois meses depois, quando
a licença estava prestes a acabar, Jader renunciou
ao cargo de presidente do Senado. Acuado pelas investigações
do Conselho de Ética, para evitar a cassação
e a perda dos direitos políticos por dez anos, Jader
renunciou duas semanas depois também ao mandato de
senador. Sem o escudo do foro privilegiado, o ex-presidente
do Congresso acabou preso e algemado sob a acusação
de chefiar a máfia da Sudam, um esquema que desviou
quase 2 bilhões de reais dos cofres públicos.
Desde a primeira denúncia até a prisão
do ex-senador passaram-se dezesseis meses. Como se vê,
o caso Renan Calheiros ainda está longe de acabar.