No Nobel dado a Doris
Lessing, mais uma vez
a ideologia é posta à frente do mérito
literário
Shaun Curry/AFP
Doris: "Artisticamente, o prêmio
não quer dizer nada"
"Eu
não poderia me importar menos." Foi essa a primeira
reação da escritora britânica Doris Lessing
quando os jornalistas reunidos em frente à sua casa
lhe perguntaram sobre o Nobel de Literatura, anunciado na
quinta-feira 11. E acrescentou: "Artisticamente, o prêmio
não quer dizer nada". Correto: há muito tempo
o Nobel vem sendo criticado pela inconsistência de seus
critérios, que tendem a ser mais políticos do
que literários. Há décadas lembrada como
uma candidata forte, Doris Lessing, que completa 88 anos neste
mês, não foge do figurino. Idolatrada pelas feministas
(embora recentemente tenha criticado a "preguiça" do
feminismo) por obras dos anos 60 como O Carnê Dourado,
a autora, nascida na Pérsia (atual Irã),
também foi uma crítica dos regimes racistas
da África do Sul e da Rodésia (atual Zimbábue),
onde cresceu.
O crítico
americano Harold Bloom, com a perspicácia de sempre,
definiu a escolha da Academia Sueca como "pura correção
política". "Suas obras dos últimos quinze anos
são ilegíveis. É ficção
científica de quarta categoria", diz. O mais recente
livro dela, The Cleft (A Fenda, inédito no Brasil),
história de um passado mítico da humanidade
em que só existiam mulheres, foi recebido com ironia
pela crítica. A explicação mais plausível
para o prêmio veio da própria escritora: "Eles
não podem dar o Nobel para quem já morreu. Decidiram
me premiar antes que eu batesse as botas".