"A Justiça
não pensou em abrir juizados
em frente aos hospitais públicos. Ninguém desconhece
as filas à espera de atendimento,
as cenas de pacientes agonizando pelos
corredores em macas improvisadasou
no chão.
Nessas filas, não se perde o avião, perde-se
a vida"
O Brasil tem cumprido
com extremo zelo a receita da desigualdade, e a Justiça
brasileira tem feito sua parte com notável desembaraço.
Agora mesmo, a
presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Ellen Gracie,
compareceu à solenidade de inauguração
dos primeiros juizados especiais nos aeroportos. É
uma idéia esplêndida, sobretudo depois de meses
a fio de caos nos aeroportos. Os juizados servirão
para ajudar os passageiros a resolver de imediato complicações
que se tornaram rotineiras, como cancelamento de vôos,
overbooking, atraso, pagamento de hospedagem, extravio de
bagagens. Cinco aeroportos já têm juizado: dois
em São Paulo, dois no Rio e um em Brasília.
Na semana passada, os jornais noticiaram os primeiros sucessos,
com passageiros sendo indenizados na hora pela companhia aérea.
Os juizados vão funcionar até nos domingos e
feriados. É uma iniciativa que vai facilitar a vida
de milhões de passageiros.
O que revela o
viés desigual da Justiça brasileira é
a ausência de juizados especiais em lugares onde eles
são desesperadamente necessários. A Justiça
não pensou em abrir juizados em frente às escolas
públicas nos períodos de inscrição
para vagas. Houve um tempo em que eram comuns as cenas de
mães passando a madrugada em filas enormes para conseguir
matricular os filhos. Nas filas das escolas, não se
perde uma conexão, perde-se o futuro.
O que dizer dos
terminais rodoviários dos centros urbanos? São
rotineiras as filas para embarque, a superlotação,
a indefinição de horários, a sujeira,
a súbita retirada de carros. Nessas filas, em geral
formadas por gente que paga a passagem com dinheiro contado
para ir trabalhar, não se perde a viagem, perde-se
o emprego.
E os hospitais
públicos? Ninguém desconhece as filas à
espera de atendimento, as cenas de pacientes agonizando pelos
corredores em macas improvisadas ou no chão. Nessas
filas, não se perde o avião, perde-se a vida.
Pelos aeroportos
brasileiros não passam apenas pessoas abastadas. Há
uma massa crescente de gente humilde. Também não
são turistas viajando de férias, com todo o
tempo do mundo para relaxar e gozar. A maioria viaja a trabalho.
É justo que tenham um atendimento decente, respeitoso.
A questão é saber por que as agruras dos brasileiros
que se enfileiram nas escolas, nos ônibus, nos hospitais
nunca conseguiram amolecer o generoso coração
dos juízes brasileiros.
A indigência
da desigualdade de tudo de tratamento, de vida, de
renda produz a indigência do resto todo. Tal
como, para ficar na bizarrice da semana, a miséria
do debate sobre o apresentador Luciano Huck e o rapper Ferréz.
Uma discussão rasteira, pois é de obviedade
gritante que reclamar da bandidagem é um claro convite
à civilidade e defender o banditismo é uma regressão
à barbárie. Discussões desse nível
fazem até banqueiro sonhar com a volta da luta de classes,
que ao menos organizava as idéias em categorias morais.