Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Cinema
Filme de horror

Hotel Ruanda aborda um dos maiores
genocídios da história, por meio de
um personagem real


Marcelo Marthe

 

Hotel Ruanda: massacre a golpes de facão matou 800 000

EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

A van pára numa estrada enevoada nos arredores de Kigali, a capital de Ruanda, na África. Paul Rusesabagina (Don Cheadle) desce do carro para verificar o que são os calombos que impedem o veículo de avançar. Tem uma visão do inferno: a via está coberta de corpos humanos retalhados, e o odor é insuportável. A cena de Hotel Ruanda (Hotel Rwanda, Inglaterra/Itália/África do Sul, 2004), que estréia no país nesta sexta-feira, resume o horror de um dos maiores genocídios da história. Na guerra civil do país, em 1994, 800.000 pessoas foram massacradas a golpes de facão e outras armas rudimentares. Elas pertenciam à etnia tutsi e foram alvo do outro grande grupo que compõe a população ruandesa, os hutus. O ressentimento entre eles remonta aos tempos em que Ruanda foi colônia de potências européias. O filme retrata a tragédia sob a inspiração de um personagem real transformado em herói. Rusesabagina era gerente de um hotel quatro-estrelas em Kigali quando o conflito eclodiu. Ele salvou a vida de mais de 1.200 refugiados tutsis, ao permitir que se escondessem no lugar durante os 100 dias de matança. Mantinha longe do hotel os interahamwe – os sanguinários milicianos hutus – valendo-se de dinheiro e bebidas para subornar seus líderes. "Só não fraquejei porque nem tinha tempo para pensar no dia seguinte. Achava que a morte de todos era certa", disse a VEJA Rusesabagina, que hoje vive na Bélgica e dirige uma fundação de amparo aos órfãos da guerra. O papel de "Schindler negro" rendeu ao americano Cheadle uma indicação ao Oscar. E a inglesa Sophie Okonedo, que interpretou a mulher do personagem, concorreu à estatueta de coadjuvante.

Hotel Ruanda trata de um conflito que foi subestimado pelas autoridades mundiais à época. Quando se percebeu a extensão do massacre, era tarde demais. Alguns aspectos tornam a guerra ainda mais perturbadora. As diferenças entre as duas etnias são ínfimas, e seus representantes conviviam como vizinhos, ou até na mesma família – Rusesabagina, por exemplo, é um hutu casado com uma tutsi. O ódio propagado pelos radicais hutus, em especial pelo rádio, fez com que a violência explodisse dias depois do assassinato do ditador do país, em abril de 1994. Hordas de hutus saíram às ruas em fúria, para eliminar até velhos e crianças da etnia rival – chamados de "baratas" –, numa carnificina que não se deteve diante de obstáculos, fossem eles os portões das igrejas ou os pântanos do país. A fita carece de um roteiro capaz de expor esse drama em toda a sua brutalidade. Ela tem um formato contido, que mais parece o de um telefilme, e é pouco didática – o espectador não versado nos fatos terá dificuldade para se localizar. O diretor norte-irlandês Terry George centra-se no heroísmo do protagonista – que não fez pouco, é verdade. Mas pouco explora uma questão essencial, o impulso que leva uma população a se engajar na selvageria genocida. Hotel Ruanda é um filme relevante, mas não dá conta da tragédia.

 
 
 
 
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