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Cinema Filme
de horror Hotel Ruanda aborda
um dos maiores genocídios da história, por meio de um personagem
real  Marcelo
Marthe  | | Hotel
Ruanda: massacre a golpes de facão matou 800 000 |
A
van pára numa estrada enevoada nos arredores de Kigali, a capital de Ruanda,
na África. Paul Rusesabagina (Don Cheadle) desce do carro para verificar
o que são os calombos que impedem o veículo de avançar. Tem
uma visão do inferno: a via está coberta de corpos humanos retalhados,
e o odor é insuportável. A cena de Hotel Ruanda (Hotel
Rwanda, Inglaterra/Itália/África do Sul, 2004), que estréia
no país nesta sexta-feira, resume o horror de um dos maiores genocídios
da história. Na guerra civil do país, em 1994, 800.000 pessoas foram
massacradas a golpes de facão e outras armas rudimentares. Elas pertenciam
à etnia tutsi e foram alvo do outro grande grupo que compõe a população
ruandesa, os hutus. O ressentimento entre eles remonta aos tempos em que Ruanda
foi colônia de potências européias. O filme retrata a tragédia
sob a inspiração de um personagem real transformado em herói.
Rusesabagina era gerente de um hotel quatro-estrelas em Kigali quando o conflito
eclodiu. Ele salvou a vida de mais de 1.200 refugiados tutsis, ao permitir que
se escondessem no lugar durante os 100 dias de matança. Mantinha longe
do hotel os interahamwe os sanguinários milicianos hutus
valendo-se de dinheiro e bebidas para subornar seus líderes. "Só
não fraquejei porque nem tinha tempo para pensar no dia seguinte. Achava
que a morte de todos era certa", disse a VEJA Rusesabagina, que hoje vive na Bélgica
e dirige uma fundação de amparo aos órfãos da guerra.
O papel de "Schindler negro" rendeu ao americano Cheadle uma indicação
ao Oscar. E a inglesa Sophie Okonedo, que interpretou a mulher do personagem,
concorreu à estatueta de coadjuvante. Hotel
Ruanda trata de um conflito que foi subestimado pelas autoridades mundiais
à época. Quando se percebeu a extensão do massacre, era tarde
demais. Alguns aspectos tornam a guerra ainda mais perturbadora. As diferenças
entre as duas etnias são ínfimas, e seus representantes conviviam
como vizinhos, ou até na mesma família Rusesabagina, por
exemplo, é um hutu casado com uma tutsi. O ódio propagado pelos
radicais hutus, em especial pelo rádio, fez com que a violência explodisse
dias depois do assassinato do ditador do país, em abril de 1994. Hordas
de hutus saíram às ruas em fúria, para eliminar até
velhos e crianças da etnia rival chamados de "baratas" , numa
carnificina que não se deteve diante de obstáculos, fossem eles
os portões das igrejas ou os pântanos do país. A fita carece
de um roteiro capaz de expor esse drama em toda a sua brutalidade. Ela tem um
formato contido, que mais parece o de um telefilme, e é pouco didática
o espectador não versado nos fatos terá dificuldade para
se localizar. O diretor norte-irlandês Terry George centra-se no heroísmo
do protagonista que não fez pouco, é verdade. Mas pouco explora
uma questão essencial, o impulso que leva uma população a
se engajar na selvageria genocida. Hotel Ruanda é um filme relevante,
mas não dá conta da tragédia. |