Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Cinema
Brega com verniz

O filme sobre Zezé di Camargo & Luciano
é agradável, mas não mudará o modo
de ver a dupla


Sérgio Martins

 

Divulgação
2 Filhos de Francisco: com aval dos manda-chuvas

EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

Há dois anos, o cantor Zezé di Camargo convenceu um executivo de sua gravadora de que sua vida renderia um filme. Saído de uma família pobre de Goiás, ele começou a cantar na infância e enfrentou uma via-crúcis até se tornar um astro da música sertaneja, em dupla com o irmão Luciano. Era uma história de superação, argumentava Zezé, uma história edificante. A idéia foi levada à frente, e seu fruto é 2 Filhos de Francisco, que estréia nesta sexta-feira no país. Orçada em 9 milhões de reais, a fita é um dos principais lançamentos do cinema brasileiro neste ano: será exibida em 25 salas, número comparável ao de superproduções como Homem-Aranha. Narra a história de Zezé di Camargo & Luciano sob o ponto de vista do pai dos sertanejos, Francisco. Apaixonado por música, o patriarca sempre acalentou o sonho de que seus filhos formassem um conjunto. Vivido pelo ator Angelo Antonio, ele não mede esforços nesse objetivo. Elege os dois mais velhos de sua prole para a carreira artística – Mirosmar, que mais tarde seria Zezé, e Emival, morto num acidente de carro ainda criança (eles são representados pelos garotos Dablio Moreira e Marcos Henrique, respectivamente). Francisco consome suas economias em instrumentos para os filhos, muda-se para a cidade grande em nome do futuro musical deles e até se arrisca a entregá-los nas mãos de um empresário inescrupuloso.

Dirigida por Breno Silveira, a fita usa de todos os recursos para emocionar o público. Não faltam cenas em que a família Camargo passa fome. O ápice do sofrimento é a morte de Emival – Zezé escapa por pouco do acidente e só chega em casa depois de semanas de viagem numa perua, com o caixão do irmão no porta-malas. A partir disso, a trama dá um salto temporal e entram em cena um Zezé crescido (Márcio Kieling) e seu irmão mais novo, Welson (Wigor Lima), que se tornaria o futuro parceiro, Luciano. A família Camargo real aparece no fim, num show apoteótico da dupla nos dias de hoje. Mas 2 Filhos de Francisco independe da presença deles para funcionar como filme.

A produção tem dois objetivos claros. Um deles é cumprido. A fita não provoca dores no espectador. Com doses bem calibradas de humor e drama, ela entretém o público. O roteiro é azeitado e há interpretações competentes, como a de José Dumont, impagável no papel do empresário picareta. O segundo objetivo é coroar o processo de lapidação da imagem de Zezé di Camargo & Luciano. Na última década, a dupla conquistou uma grande brigada de fãs na classe média e também foi adotada por manda-chuvas do meio cultural. Os créditos do filme atestam isso: a produtora é a carioca Conspiração, que tem como sócios parentes de Fernanda Montenegro e Chico Buarque, e a trilha sonora coube a Caetano Veloso. Mas todo esse verniz é pouco. Depois de ver 2 Filhos de Francisco, ninguém sairá convencido de que Zezé di Camargo & Luciano deixaram o brega para trás.

 
 
 
 
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