Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Televisão
O senhor das 6

Com o sucesso da açucarada Alma Gêmea,
o paulista Walcyr Carrasco se confirma
como a primeira opção da Globo para
as novelas do horário


Ricardo Valladares

 

Divulgação
Serena (Priscila Fantin), em Alma Gêmea: reencarnação instantânea

Meses antes da estréia de Alma Gêmea, a atual novela das 6 da Rede Globo, o autor Walcyr Carrasco mandou um e-mail de dez linhas ao diretor artístico da emissora, Mario Lúcio Vaz. O e-mail pincelava o enredo de um folhetim no qual um viúvo se apaixona por uma jovem que é a reencarnação de sua mulher. Vaz aprovou o projeto sem pedir mais detalhes, pois Carrasco era um noveleiro com crédito total junto à direção da Globo. Duas de suas tramas anteriores, O Cravo e a Rosa e Chocolate com Pimenta, haviam sido sucessos no horário das 6. Além disso, o autor parece imune à estafa criativa que leva outros roteiristas a atrasar capítulos e tumultuar gravações. Dado o sinal verde, o açucarado romance do botânico Rafael (Eduardo Moscovis) e sua empregada Serena (Priscila Fantin) começou a tomar forma – e acabou por confirmar o prestígio de Carrasco. Sua antecessora, Como uma Onda, colheu o fiasco ao investir numa história moderna no horário das 6. Ambientada nos anos 40, Alma Gêmea levou a audiência aos 36 pontos de média em menos de dois meses.

Uma das razões do sucesso de Alma Gêmea foi a aposta no tema da reencarnação. O Brasil é um país predominantemente católico, mas muita gente guarda um cantinho no coração para essa crença do espiritismo. Depois que a mulher do galã morre num assalto organizado pela prima invejosa, ela reencarna como Serena, uma mestiça de índia e branco – sim, uma mameluca com a pele alva e os olhos verdes de Priscila Fantin. A novela exibiu uma cena em que o espírito da morta olha o próprio corpo inerte. Na seqüência seguinte, uma estrela cadente cruzava o céu em direção ao casebre onde Serena nascia. Como reencarnou rápido demais, Serena conserva marcas como a cicatriz do tiro que levou na outra vida. Ela vê a ex-mulher de Rafael em cada canto e tem lembranças da encarnação passada.

 
Mario Rodrigues
Carrasco: "No interior, é normal falar com bichos"

Em suas novelas das 6, Carrasco tem se revelado um renovador das tramas de época – e aí reside o outro trunfo de Alma Gêmea. Em vez de adaptar seus textos de clássicos literários, ele cria enredos que mostram o passado, mas têm sabor contemporâneo. Não abdica de ousadias incidentais nem do humor. Em Chocolate com Pimenta, já havia posto o adolescente Kayky Brito no papel de um menino que cresce como menina. Dirigentes da Globo torceram o nariz, mas os espectadores adoraram. Em Alma Gêmea, o noveleiro tempera o espiritismo com o humor de outros núcleos da novela. Em alguns casos, o ritmo é de chanchada, como nas situações vividas pelo abilolado Crispim (Emilio Orciollo Netto). Em outros, a graça está em diálogos irônicos que remetem às comédias de costumes do século XIX. Assim como em outras novelas, Carrasco também inventou um bicho falante, a pata Doralice. "Fui criado no interior, onde é normal conversar com animais", diz o autor, que viveu na cidade paulista de Marília.

Na Globo, Carrasco, de 53 anos, é tido como um operário-padrão. "Ele escreve rápido e não atrasa", diz um diretor da emissora. Algumas bombas já estouraram em seu colo. Em 2001, o diretor Walter Avancini morreu de câncer no meio de A Padroeira e ele teve de fazer várias alterações na trama para adaptá-la ao estilo do novo encarregado pelas gravações. Em 2002, foi chamado às pressas para assumir Esperança, exibida no horário das 8, depois que o autor Benedito Ruy Barbosa se afastou por doença. A vocação de Carrasco – que também é escritor, dramaturgo, jornalista e cronista de Veja São Paulo – vem de longe. Aos 12 anos, ele e um amiguinho de escola escreveram um folhetim. Sátira de um filme do agente 007, a novela se chamava O Satânico Doutor Nu.

 
 
 
 
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