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Televisão O
senhor das 6 Com o sucesso da açucarada
Alma Gêmea, o paulista Walcyr Carrasco se confirma como a
primeira opção da Globo para as novelas do horário
 Ricardo
Valladares Divulgação
 | | Serena
(Priscila Fantin), em Alma Gêmea: reencarnação instantânea
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Meses antes da estréia
de Alma Gêmea, a atual novela das 6 da Rede Globo, o autor Walcyr
Carrasco mandou um e-mail de dez linhas ao diretor artístico da emissora,
Mario Lúcio Vaz. O e-mail pincelava o enredo de um folhetim no qual um
viúvo se apaixona por uma jovem que é a reencarnação
de sua mulher. Vaz aprovou o projeto sem pedir mais detalhes, pois Carrasco era
um noveleiro com crédito total junto à direção da
Globo. Duas de suas tramas anteriores, O Cravo e a Rosa e Chocolate
com Pimenta, haviam sido sucessos no horário das 6. Além disso,
o autor parece imune à estafa criativa que leva outros roteiristas a atrasar
capítulos e tumultuar gravações. Dado o sinal verde, o açucarado
romance do botânico Rafael (Eduardo Moscovis) e sua empregada Serena (Priscila
Fantin) começou a tomar forma e acabou por confirmar o prestígio
de Carrasco. Sua antecessora, Como uma Onda, colheu o fiasco ao investir
numa história moderna no horário das 6. Ambientada nos anos 40,
Alma Gêmea levou a audiência aos 36 pontos de média
em menos de dois meses. Uma das razões
do sucesso de Alma Gêmea foi a aposta no tema da reencarnação.
O Brasil é um país predominantemente católico, mas muita
gente guarda um cantinho no coração para essa crença do espiritismo.
Depois que a mulher do galã morre num assalto organizado pela prima invejosa,
ela reencarna como Serena, uma mestiça de índia e branco
sim, uma mameluca com a pele alva e os olhos verdes de Priscila Fantin. A novela
exibiu uma cena em que o espírito da morta olha o próprio corpo
inerte. Na seqüência seguinte, uma estrela cadente cruzava o céu
em direção ao casebre onde Serena nascia. Como reencarnou rápido
demais, Serena conserva marcas como a cicatriz do tiro que levou na outra vida.
Ela vê a ex-mulher de Rafael em cada canto e tem lembranças da encarnação
passada. Mario
Rodrigues
 | | Carrasco:
"No interior, é normal falar com bichos" |
Em
suas novelas das 6, Carrasco tem se revelado um renovador das tramas de época
e aí reside o outro trunfo de Alma Gêmea. Em vez de
adaptar seus textos de clássicos literários, ele cria enredos que
mostram o passado, mas têm sabor contemporâneo. Não abdica
de ousadias incidentais nem do humor. Em Chocolate com Pimenta, já
havia posto o adolescente Kayky Brito no papel de um menino que cresce como menina.
Dirigentes da Globo torceram o nariz, mas os espectadores adoraram. Em Alma
Gêmea, o noveleiro tempera o espiritismo com o humor de outros núcleos
da novela. Em alguns casos, o ritmo é de chanchada, como nas situações
vividas pelo abilolado Crispim (Emilio Orciollo Netto). Em outros, a graça
está em diálogos irônicos que remetem às comédias
de costumes do século XIX. Assim como em outras novelas, Carrasco também
inventou um bicho falante, a pata Doralice. "Fui criado no interior, onde é
normal conversar com animais", diz o autor, que viveu na cidade paulista de Marília.
Na Globo, Carrasco, de 53 anos, é
tido como um operário-padrão. "Ele escreve rápido e não
atrasa", diz um diretor da emissora. Algumas bombas já estouraram em seu
colo. Em 2001, o diretor Walter Avancini morreu de câncer no meio de A
Padroeira e ele teve de fazer várias alterações na trama
para adaptá-la ao estilo do novo encarregado pelas gravações.
Em 2002, foi chamado às pressas para assumir Esperança, exibida
no horário das 8, depois que o autor Benedito Ruy Barbosa se afastou por
doença. A vocação de Carrasco que também é
escritor, dramaturgo, jornalista e cronista de Veja São Paulo
vem de longe. Aos 12 anos, ele e um amiguinho de escola escreveram um folhetim.
Sátira de um filme do agente 007, a novela se chamava O Satânico
Doutor Nu. |