Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Livros
Anos perdidos

O retrato da ditadura por Milton
Hatoum não tem a força de
seus romances anteriores


Jerônimo Teixeira


José Luiz da Conceição/Ag. O Globo
Milton Hatoum: momentos melodramáticos que caberiam melhor na ópera

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

O amazonense Milton Hatoum é um escritor sem pressa. Estreou em 1989, com Relato de um Certo Oriente, e nos dezesseis anos que se seguiram só produziu mais dois romances – Dois Irmãos, de 2000, e Cinzas do Norte (Companhia das Letras; 312 páginas; 39 reais), que chega às livrarias nesta semana. A longa espera entre um livro e outro talvez revele um escritor seguro, que não quer se dispersar. Mas tem uma contra-indicação: intensifica a expectativa do leitor. Quem se impressionou com o exame acurado de relações sociais e familiares de Dois Irmãos esperava que Hatoum, cinco anos depois, conseguisse se superar. Não foi o que aconteceu. Cinzas do Norte não chega a ser um mau romance, mas decepciona.

Como nos livros anteriores, a história se passa em Manaus (desta vez, porém, os personagens não são descendentes de libaneses). O romance é narrado por Lavo, um órfão pobre que, criado pela tia costureira, consegue se tornar advogado. Ele conta sua amizade com o artista Raimundo (ou Mundo), filho de Alícia, a sedutora alpinista social que conseguiu um casamento rico mas infeliz com o empresário Trajano (ou Jano). Homem de mentalidade prática e estreita, Jano vive às turras com as ambições artísticas do suposto filho (a dúvida sobre a verdadeira paternidade de Mundo só é resolvida nas últimas páginas). Esse carregado drama familiar quer ser uma espécie de retrato espiritual da ditadura militar. As datas são significativas: a amizade entre Lavo e Mundo começa em 1964, e a ação prossegue até as vésperas da posse malograda de Tancredo Neves, em 1985.

A trama se perde entre o embate trágico de pai e filho e o retrato meio truncado da época autoritária. As referências a uma guerrilha na Amazônia ficam perdidas no meio do livro, sem desenvolvimento. Como representante típico do empresário que apoiou a ditadura, Jano é um personagem um tanto esquemático. E alguns episódios que deveriam ser cruciais desenvolvem-se numa correria desabalada: o esbaforido Lavo adentra a sala bem no momento culminante de uma discussão entre Mundo e Jano, que em seguida tomba no chão, à beira da morte. Esses momentos melodramáticos seriam plausíveis em uma ópera, não em um romance.

O livro cresce nas páginas finais, quando Mundo volta do exílio para morrer no Rio de Janeiro. É só então que se afina o tom entre o drama dos personagens e a tragédia coletiva da ditadura: artista frustrado, Mundo representa o talento e a sensibilidade que se perderam nos anos brutos da repressão. Como contraponto, aparece a vitória ambígua do farsante Arana, um artista que fez sucesso pintando paisagens "exóticas" da Amazônia para consumo de filistinos estrangeiros.

 

Festa na ditadura

"Mundo me puxou para um canto da cozinha, apontou os convidados e cochichou: 'Aquele grandalhão ali é o Albino Palha... amigo e conselheiro do meu pai. Se derrete todo na frente dos militares. Olha como bajula os caras. Só falta pentear o bigode do mais alto, o coronel Zanda. Aquele esqueleto corcunda é o presidente da Associação Comercial. Quando fala, parece que está numa tribuna. O leso se considera um historiador. Os outros são cupinchas e penetras. Minha mãe odeia essa gente. Já está bebendo...'"

Trecho de Cinzas do Norte

 

 
 
 
 
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