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Livros Anos
perdidos O retrato da ditadura por Milton
Hatoum não tem a força de seus romances anteriores 
Jerônimo Teixeira
José Luiz da Conceição/Ag.
O Globo  |
| Milton Hatoum: momentos melodramáticos que caberiam melhor
na ópera |
O amazonense Milton Hatoum é
um escritor sem pressa. Estreou em 1989, com Relato de um Certo Oriente,
e nos dezesseis anos que se seguiram só produziu mais dois romances
Dois Irmãos, de 2000, e Cinzas do Norte (Companhia
das Letras; 312 páginas; 39 reais), que chega às livrarias nesta
semana. A longa espera entre um livro e outro talvez revele um escritor seguro,
que não quer se dispersar. Mas tem uma contra-indicação:
intensifica a expectativa do leitor. Quem se impressionou com o exame acurado
de relações sociais e familiares de Dois Irmãos esperava
que Hatoum, cinco anos depois, conseguisse se superar. Não foi o que aconteceu.
Cinzas do Norte não chega a ser um mau romance, mas decepciona.
Como nos livros anteriores, a história
se passa em Manaus (desta vez, porém, os personagens não são
descendentes de libaneses). O romance é narrado por Lavo, um órfão
pobre que, criado pela tia costureira, consegue se tornar advogado. Ele conta
sua amizade com o artista Raimundo (ou Mundo), filho de Alícia, a sedutora
alpinista social que conseguiu um casamento rico mas infeliz com o empresário
Trajano (ou Jano). Homem de mentalidade prática e estreita, Jano vive às
turras com as ambições artísticas do suposto filho (a dúvida
sobre a verdadeira paternidade de Mundo só é resolvida nas últimas
páginas). Esse carregado drama familiar quer ser uma espécie de
retrato espiritual da ditadura militar. As datas são significativas: a
amizade entre Lavo e Mundo começa em 1964, e a ação prossegue
até as vésperas da posse malograda de Tancredo Neves, em 1985.
A trama se perde entre o embate trágico
de pai e filho e o retrato meio truncado da época autoritária. As
referências a uma guerrilha na Amazônia ficam perdidas no meio do
livro, sem desenvolvimento. Como representante típico do empresário
que apoiou a ditadura, Jano é um personagem um tanto esquemático.
E alguns episódios que deveriam ser cruciais desenvolvem-se numa correria
desabalada: o esbaforido Lavo adentra a sala bem no momento culminante de uma
discussão entre Mundo e Jano, que em seguida tomba no chão, à
beira da morte. Esses momentos melodramáticos seriam plausíveis
em uma ópera, não em um romance.
O livro cresce nas páginas finais, quando Mundo volta do exílio
para morrer no Rio de Janeiro. É só então que se afina o
tom entre o drama dos personagens e a tragédia coletiva da ditadura: artista
frustrado, Mundo representa o talento e a sensibilidade que se perderam nos anos
brutos da repressão. Como contraponto, aparece a vitória ambígua
do farsante Arana, um artista que fez sucesso pintando paisagens "exóticas"
da Amazônia para consumo de filistinos estrangeiros.
| Festa na ditadura
"Mundo
me puxou para um canto da cozinha, apontou os convidados e cochichou: 'Aquele
grandalhão ali é o Albino Palha... amigo e conselheiro do meu pai.
Se derrete todo na frente dos militares. Olha como bajula os caras. Só
falta pentear o bigode do mais alto, o coronel Zanda. Aquele esqueleto corcunda
é o presidente da Associação Comercial. Quando fala, parece
que está numa tribuna. O leso se considera um historiador. Os outros são
cupinchas e penetras. Minha mãe odeia essa gente. Já está
bebendo...'" Trecho de
Cinzas do Norte | |
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