Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Livros
Uma outra linguagem

Lançamentos revelam ao Brasil um
desconhecido Portugal literário


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Trechos dos livros
O Senhor Brecht
Era Bom que Trocássemos umas Idéias sobre o Assunto
Fazes-me Falta
Nenhum Olhar
Nas Tuas Mãos

Nos últimos tempos, as editoras brasileiras acordaram para a qualidade da literatura portuguesa contemporânea. Jovens revelações como José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares acabam de ser lançadas por aqui. As livrarias também foram enriquecidas por autores consagrados que tinham pouca ou nenhuma divulgação no Brasil, como Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge e o poeta Herberto Helder. O brasileiro ainda está longe de ter acesso a todas as obras desses autores, mas já pode compor um painel da literatura da antiga metrópole. Para melhor usufruir essas obras, porém, é necessário se desfazer de uma ilusão renitente em rodas intelectuais dos dois lados do Atlântico: a de que Portugal e Brasil, pelo simples fato de adotarem a mesma língua, tenham alguma espécie de afinidade natural na literatura. Já deixou de ser assim há mais de um século. "Até o tempo de Machado de Assis e Eça de Queiroz, os dois países ainda eram próximos. Hoje há uma grande distância", diz o crítico e ensaísta português Eduardo Lourenço. O leitor, portanto, deve se aproximar da obra dos portugueses consciente de que vai ler sobre uma outra realidade, um país estranho – um país que, depois de décadas de desconforto em relação ao próprio continente, está afinal se descobrindo europeu.

O laço que supostamente uniria Brasil e Portugal – afora o elo histórico da colonização – é um só: a língua. É muito pouco para criar uma identidade cultural entre dois países que têm realidades tão distintas. E quem diz que a tal "unidade lusófona" seja mesmo desejável? Há diferenças consideráveis no modo como cada país fala e escreve o português e, em ficção e poesia, detalhes como um pronome ou até mesmo uma letra não são negligenciáveis. Os escritores portugueses valorizam essas diferenças ao exigir a manutenção da ortografia original nas edições brasileiras. "O estranhamento da língua pode criar um mistério, um novo interesse", diz Inês Pedrosa, autora de Fazes-me Falta.

O Portugal que o leitor brasileiro pode descobrir na literatura recente é um país que saiu do atraso político e econômico para abraçar a prosperidade da União Européia. A literatura portuguesa renovou-se depois da redemocratização do país, em 1974, e da perda das colônias africanas, logo em seguida. De uma forma ou de outra, os escritores que então surgiram refletiram criticamente sobre a nova identidade de Portugal – a sede de um extinto império que não encontrava seu lugar na moderna Europa ocidental. Entre os expoentes dessa geração aparecem António Lobo Antunes, que em livros como O Esplendor de Portugal retratou de forma cáustica as guerras coloniais na África, e Mário de Carvalho, autor de impagáveis sátiras sociais como Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto. Embora mais velho, o Nobel José Saramago alinha-se com essa turma – sua consagração data dos anos 80.

Na vigorosa cena literária portuguesa do século XXI, figurões como Saramago e Lobo Antunes convivem com escritores da faixa dos 30 ou 40 anos, que quase não viveram sob a ditadura. "Não temos necessidade de tomar uma postura imediata contra um regime, como na época do Salazar. Isso possibilitou que cada escritor seguisse seu caminho individual", diz José Luís Peixoto, autor do elogiado Nenhum Olhar, romance fantástico ambientado na região do Alentejo. Os novos autores apresentam estilos e tendências muito variados – da literatura à la Sex and the City de Margarida Rebelo Pinto (que vem ao Brasil neste mês lançar Alma de Pássaro na 11ª Jornada Literária de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul) aos densos conflitos familiares de Inês Pedrosa. Eles encontram, contudo, um ponto comum naquilo que deixaram para trás: a questão da identidade nacional quase não reaparece. "É uma geração mais cosmopolita, aberta a influências internacionais como a das literaturas americana e britânica ou a da vertente latina de Jorge Luis Borges e seus seguidores", diz a crítica Maria Fernanda de Abreu, da Universidade Nova de Lisboa. Ser português agora é só uma circunstância entre outras – e os novos lusíadas podem passear por terras nunca dantes freqüentadas. Considerado um dos mais originais escritores de Portugal hoje, Gonçalo M. Tavares, autor dos poemas de 1 e dos contos de O Senhor Brecht, nasceu em Angola, em 1970, quando estavam em curso os conflitos que conduziram a colônia à independência. Em sua obra, porém, ele prefere referências históricas entranhadas no continente europeu: "Eu me sinto mais próximo de Auschwitz do que das guerras coloniais", diz.

 

Do socialismo ao ecletismo

A literatura portuguesa das últimas décadas pode ser dividida em três momentos marcantes

OS NEO-REALISTAS (anos 40 e 50)
Momento histórico: o Portugal do pós-guerra, à sombra da ditadura de Salazar
Caminho literário: predominavam os temas sociais, às vezes com inspiração marxista

Autores: Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Manuel da Fonseca

OS PÓS-COLONIALISTAS (anos 70 e 80)
Momento histórico:
Portugal perdeu suas colônias africanas e a ditadura acabou em 1974
Caminho literário: os escritores das décadas de 70 e 80 renovaram a literatura e colocaram em questão a identidade portuguesa
Autores: José Saramago, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho

OS COSMOPOLITAS (hoje)
Momento histórico: Portugal consolidou sua democracia e a integração à União Européia
Caminho literário: a nova geração é muito eclética em suas tendências. E ninguém mais parece se preocupar com a tal "identidade portuguesa"
Autores: Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Inês Pedrosa

 
 
 
 
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