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Livros Uma
outra linguagem Lançamentos revelam ao Brasil
um desconhecido Portugal literário  Jerônimo
Teixeira
Nos últimos tempos, as editoras brasileiras
acordaram para a qualidade da literatura portuguesa contemporânea. Jovens
revelações como José Luís Peixoto e Gonçalo
M. Tavares acabam de ser lançadas por aqui. As livrarias também
foram enriquecidas por autores consagrados que tinham pouca ou nenhuma divulgação
no Brasil, como Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge e o poeta Herberto
Helder. O brasileiro ainda está longe de ter acesso a todas as obras desses
autores, mas já pode compor um painel da literatura da antiga metrópole.
Para melhor usufruir essas obras, porém, é necessário se
desfazer de uma ilusão renitente em rodas intelectuais dos dois lados do
Atlântico: a de que Portugal e Brasil, pelo simples fato de adotarem a mesma
língua, tenham alguma espécie de afinidade natural na literatura.
Já deixou de ser assim há mais de um século. "Até
o tempo de Machado de Assis e Eça de Queiroz, os dois países ainda
eram próximos. Hoje há uma grande distância", diz o crítico
e ensaísta português Eduardo Lourenço. O leitor, portanto,
deve se aproximar da obra dos portugueses consciente de que vai ler sobre uma
outra realidade, um país estranho um país que, depois de
décadas de desconforto em relação ao próprio continente,
está afinal se descobrindo europeu. O laço
que supostamente uniria Brasil e Portugal afora o elo histórico
da colonização é um só: a língua. É
muito pouco para criar uma identidade cultural entre dois países que têm
realidades tão distintas. E quem diz que a tal "unidade lusófona"
seja mesmo desejável? Há diferenças consideráveis
no modo como cada país fala e escreve o português e, em ficção
e poesia, detalhes como um pronome ou até mesmo uma letra não são
negligenciáveis. Os escritores portugueses valorizam essas diferenças
ao exigir a manutenção da ortografia original nas edições
brasileiras. "O estranhamento da língua pode criar um mistério,
um novo interesse", diz Inês Pedrosa, autora de Fazes-me Falta.
O Portugal que o leitor brasileiro pode descobrir na literatura recente é
um país que saiu do atraso político e econômico para abraçar
a prosperidade da União Européia. A literatura portuguesa renovou-se
depois da redemocratização do país, em 1974, e da perda das
colônias africanas, logo em seguida. De uma forma ou de outra, os escritores
que então surgiram refletiram criticamente sobre a nova identidade de Portugal
a sede de um extinto império que não encontrava seu lugar
na moderna Europa ocidental. Entre os expoentes dessa geração aparecem
António Lobo Antunes, que em livros como O Esplendor de Portugal retratou
de forma cáustica as guerras coloniais na África, e Mário
de Carvalho, autor de impagáveis sátiras sociais como Era Bom
que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto. Embora mais velho, o Nobel
José Saramago alinha-se com essa turma sua consagração
data dos anos 80. Na vigorosa cena literária
portuguesa do século XXI, figurões como Saramago e Lobo Antunes
convivem com escritores da faixa dos 30 ou 40 anos, que quase não viveram
sob a ditadura. "Não temos necessidade de tomar uma postura imediata contra
um regime, como na época do Salazar. Isso possibilitou que cada escritor
seguisse seu caminho individual", diz José Luís Peixoto, autor do
elogiado Nenhum Olhar, romance fantástico ambientado na região
do Alentejo. Os novos autores apresentam estilos e tendências muito variados
da literatura à la Sex and the City de Margarida Rebelo Pinto
(que vem ao Brasil neste mês lançar Alma de Pássaro na
11ª Jornada Literária de Passo Fundo, no Rio Grande do
Sul) aos densos conflitos familiares de Inês Pedrosa. Eles encontram, contudo,
um ponto comum naquilo que deixaram para trás: a questão da identidade
nacional quase não reaparece. "É uma geração mais
cosmopolita, aberta a influências internacionais como a das literaturas
americana e britânica ou a da vertente latina de Jorge Luis Borges e seus
seguidores", diz a crítica Maria Fernanda de Abreu, da Universidade Nova
de Lisboa. Ser português agora é só uma circunstância
entre outras e os novos lusíadas podem passear por terras nunca
dantes freqüentadas. Considerado um dos mais originais escritores de Portugal
hoje, Gonçalo M. Tavares, autor dos poemas de 1 e dos contos de
O Senhor Brecht, nasceu em Angola, em 1970, quando estavam em curso os
conflitos que conduziram a colônia à independência. Em sua
obra, porém, ele prefere referências históricas entranhadas
no continente europeu: "Eu me sinto mais próximo de Auschwitz do que das
guerras coloniais", diz.
Do socialismo ao ecletismo A
literatura portuguesa das últimas décadas pode ser dividida em três
momentos marcantes OS NEO-REALISTAS (anos 40 e
50) Momento histórico: o Portugal
do pós-guerra, à sombra da ditadura de Salazar Caminho literário:
predominavam os temas sociais, às vezes com inspiração marxista
Autores: Carlos de Oliveira, José
Cardoso Pires, Manuel da Fonseca OS PÓS-COLONIALISTAS
(anos 70 e 80) Momento histórico: Portugal perdeu suas colônias
africanas e a ditadura acabou em 1974 Caminho literário: os escritores
das décadas de 70 e 80 renovaram a literatura e colocaram em questão
a identidade portuguesa Autores: José Saramago, António
Lobo Antunes, Mário de Carvalho
OS COSMOPOLITAS (hoje) Momento histórico: Portugal consolidou
sua democracia e a integração à União Européia
Caminho literário: a nova geração é muito
eclética em suas tendências. E ninguém mais parece se preocupar
com a tal "identidade portuguesa" Autores: Gonçalo M. Tavares,
José Luís Peixoto, Inês Pedrosa |
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