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Perfil São
Jorge dos modernos Música, cinema,
shows e até desfiles de moda: com jeito de Jimi Hendrix dos trópicos,
Seu Jorge é cult em todas  João
Gabriel de Lima
Otavio
dias de Oliveira
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que ele seja como a bolsa Louis Vuitton, que todos querem mas poucos podem ter",
diz a mulher e empresária do cantor |
De
tempos em tempos surge no Brasil um cantor "moderno". O titular atual desse posto,
que já foi ocupado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown
os quais, não por acaso, se juntaram para formar o trimoderno Tribalistas
é Jorge Mário da Silva, o Seu Jorge. Ser moderno, no caso,
não significa necessariamente fazer uma música nova, estranha, surpreendente.
É mais praticar um estilo de vida instigante (ex-borracheiro hoje cultuado
como gênio do samba-funk), ter um tipo físico bacana (jeitão
de Jimi Hendrix dos trópicos), estourar de primeira num sucesso mundial
(o Mané Galinha de Cidade de Deus) e fazer outras coisas que deixam
um bocado de gente babando de inveja. Por exemplo, ser citado no jornal britânico
The Guardian depois de tocar no Royal Festival Hall, a charmosa casa de
concertos às margens do Tâmisa. "Seu Jorge é tão cool
quanto sua imagem no cinema", escreveu o crítico Robin Denselow. Ou sair
no The New York Times: "Ele usa as ferramentas de ator para incrementar
sua performance musical, e faz isso muito bem", atestou o crítico Ben Ratliff,
a propósito do CD Cru, agora lançado no Brasil. Aliás,
nada mais cool do que isso: lançar disco primeiro no exterior. Ou participar
da abertura da São Paulo Fashion Week envergando um costume assinado por
Ricardo Almeida. "Pelo físico, alto e magro, e pela atitude descolada,
ele representa o que há de mais contemporâneo no Brasil de hoje",
diz o estilista. Ser moderno é também atuar num filme americano
(A Vida Marinha com Steve Zissou), ficar amigo dos atores Willem Dafoe
e Bill Murray e convidá-los para coadjuvar um videoclipe. É, sobretudo,
participar de panelas chiques. Em 2004, em vez de "amigo oculto", ele passou o
fim do ano numa festa de "parceiro oculto", em que um compositor era instado a
completar a música de outro. Entre seus colegas no evento estavam
não por acaso os trimodernos Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo
Antunes.
Como um modesto Silva saído
da favela carioca do Gogó da Ema virou o São Jorge dos Modernos?
Como qualquer outra revelação do show business: com talento, dedicação
e senso de oportunidade. Sua destreza musical pode ser conferida nos dois CDs-solo
que lançou, Samba Esporte Fino e Cru, que estão entre
os melhores do pop brasileiro atual pelo suingue e pela criatividade nos arranjos
relevando-se as rimas pobres (desejo com queijo) e os temas idem (Mania
de Peitão, uma crítica ao silicone). Já senso de oportunidade
significa estar nos lugares certos, cercado pelas pessoas certas. Jorge foi borracheiro,
relojoeiro e até soldado do Exército. Botou na cabeça que
queria ser artista. "Ele é obstinado, e essa obstinação faz
com que sempre chegue aonde quer", define o cantor Marcelo D2, seu melhor amigo
no meio musical. Depois de um tempo garimpando caraminguás na noite e morando
de favor na casa de amigos, ele conseguiu ser adotado pelo grupo teatral da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro. Trabalhava como vigia noturno em troca de moradia
e aulas de teatro. "Quando precisávamos de alguém com voz grave
para o coro recorríamos a ele, e foi assim que Jorge começou", lembra
o cantor e compositor Gabriel Moura, diretor musical das peças da UERJ
na época e um de seus descobridores. Ficou conhecido na noite carioca por
convidar-se para dar canja em todos os shows a que ia. Ciceroneou David Byrne
durante uma das estadas do cantor escocês no Rio de Janeiro. Até
hoje Byrne não falta a um show do brasileiro em Nova York.
Os bons contatos deram frutos. Os amigos do grupo teatral o indicaram para o filme
Madame Satã. Jorge perdeu o papel para Lázaro Ramos, mas
agarrou a chance de fazer o personagem Mané Galinha em Cidade de Deus.
Posteriormente, foi Fernando Meirelles, o diretor do filme, quem o indicou
ao produtor Barry Mendel, de A Vida Marinha com Steve Zissou. "Ele precisava
de um cantor negro que soubesse atuar, e eu acabei fazendo o meio-de-campo nesse
acordo", conta Meirelles. Os dois filmes impulsionaram a carreira européia
do artista. Quando Cidade de Deus foi indicado ao Oscar, Jorge já
fazia shows no Favela Chic, restaurante brasileiro em Paris, por indicação
de amigos franceses do tempo de boemia carioca. Conhecido no circuito cinéfilo
parisiense, descobriu seu grande filão: shows para estrangeiro ver. Em
suas apresentações, ele canta e narra causos das favelas cariocas,
como Zé Kéti nos tempos do Opinião. Um Zé Kéti
globalizado, autodidata à sua moda em inglês e francês, que
não precisa de legendas. "O show passa calor humano, e os gringos adoram",
diz ele. Adoram mesmo. Jorge faz cerca de setenta apresentações
por ano na Europa. Ganha 25.000 euros por show, ou 70.000 reais para ter
um termo de comparação, Ivete Sangalo, campeã nacional de
cachês, fatura 100.000 reais por apresentação. No Brasil ele
toca bem menos. "Queremos que ele seja como a bolsa Louis Vuitton, que todos querem
mas poucos podem ter", define Mariana Jorge, mulher e empresária do cantor.
É ela quem cuida da agenda e da estratégia de divulgação
do marido. E o "Seu Jorge", de onde
veio? Foi Marcelo Yuka, ex-integrante do grupo O Rappa, quem começou a
chamá-lo assim, por causa da voz grave que atendia o telefone. Ele resolveu
incorporar. "Seu Jorge evoca alguém mais velho, um sambista da antiga,
um clássico, enfim", explica o cantor, que tem 35 anos. Um clássico
entronizado pela tribo dos modernos existe combinação mais
fadada ao sucesso? |