Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Perfil
São Jorge dos modernos

Música, cinema, shows e até desfiles
de moda: com jeito de Jimi Hendrix dos
trópicos, Seu Jorge é cult em todas


João Gabriel de Lima

Otavio dias de Oliveira
"Queremos que ele seja como a bolsa Louis Vuitton, que todos querem mas poucos podem ter", diz a mulher e empresária do cantor


De tempos em tempos surge no Brasil um cantor "moderno". O titular atual desse posto, que já foi ocupado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown – os quais, não por acaso, se juntaram para formar o trimoderno Tribalistas – é Jorge Mário da Silva, o Seu Jorge. Ser moderno, no caso, não significa necessariamente fazer uma música nova, estranha, surpreendente. É mais praticar um estilo de vida instigante (ex-borracheiro hoje cultuado como gênio do samba-funk), ter um tipo físico bacana (jeitão de Jimi Hendrix dos trópicos), estourar de primeira num sucesso mundial (o Mané Galinha de Cidade de Deus) e fazer outras coisas que deixam um bocado de gente babando de inveja. Por exemplo, ser citado no jornal britânico The Guardian depois de tocar no Royal Festival Hall, a charmosa casa de concertos às margens do Tâmisa. "Seu Jorge é tão cool quanto sua imagem no cinema", escreveu o crítico Robin Denselow. Ou sair no The New York Times: "Ele usa as ferramentas de ator para incrementar sua performance musical, e faz isso muito bem", atestou o crítico Ben Ratliff, a propósito do CD Cru, agora lançado no Brasil. Aliás, nada mais cool do que isso: lançar disco primeiro no exterior. Ou participar da abertura da São Paulo Fashion Week envergando um costume assinado por Ricardo Almeida. "Pelo físico, alto e magro, e pela atitude descolada, ele representa o que há de mais contemporâneo no Brasil de hoje", diz o estilista. Ser moderno é também atuar num filme americano (A Vida Marinha com Steve Zissou), ficar amigo dos atores Willem Dafoe e Bill Murray e convidá-los para coadjuvar um videoclipe. É, sobretudo, participar de panelas chiques. Em 2004, em vez de "amigo oculto", ele passou o fim do ano numa festa de "parceiro oculto", em que um compositor era instado a completar a música de outro. Entre seus colegas no evento estavam – não por acaso – os trimodernos Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes.

Como um modesto Silva saído da favela carioca do Gogó da Ema virou o São Jorge dos Modernos? Como qualquer outra revelação do show business: com talento, dedicação e senso de oportunidade. Sua destreza musical pode ser conferida nos dois CDs-solo que lançou, Samba Esporte Fino e Cru, que estão entre os melhores do pop brasileiro atual pelo suingue e pela criatividade nos arranjos – relevando-se as rimas pobres (desejo com queijo) e os temas idem (Mania de Peitão, uma crítica ao silicone). Já senso de oportunidade significa estar nos lugares certos, cercado pelas pessoas certas. Jorge foi borracheiro, relojoeiro e até soldado do Exército. Botou na cabeça que queria ser artista. "Ele é obstinado, e essa obstinação faz com que sempre chegue aonde quer", define o cantor Marcelo D2, seu melhor amigo no meio musical. Depois de um tempo garimpando caraminguás na noite e morando de favor na casa de amigos, ele conseguiu ser adotado pelo grupo teatral da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Trabalhava como vigia noturno em troca de moradia e aulas de teatro. "Quando precisávamos de alguém com voz grave para o coro recorríamos a ele, e foi assim que Jorge começou", lembra o cantor e compositor Gabriel Moura, diretor musical das peças da UERJ na época e um de seus descobridores. Ficou conhecido na noite carioca por convidar-se para dar canja em todos os shows a que ia. Ciceroneou David Byrne durante uma das estadas do cantor escocês no Rio de Janeiro. Até hoje Byrne não falta a um show do brasileiro em Nova York.

Os bons contatos deram frutos. Os amigos do grupo teatral o indicaram para o filme Madame Satã. Jorge perdeu o papel para Lázaro Ramos, mas agarrou a chance de fazer o personagem Mané Galinha em Cidade de Deus. Posteriormente, foi Fernando Meirelles, o diretor do filme, quem o indicou ao produtor Barry Mendel, de A Vida Marinha com Steve Zissou. "Ele precisava de um cantor negro que soubesse atuar, e eu acabei fazendo o meio-de-campo nesse acordo", conta Meirelles. Os dois filmes impulsionaram a carreira européia do artista. Quando Cidade de Deus foi indicado ao Oscar, Jorge já fazia shows no Favela Chic, restaurante brasileiro em Paris, por indicação de amigos franceses do tempo de boemia carioca. Conhecido no circuito cinéfilo parisiense, descobriu seu grande filão: shows para estrangeiro ver. Em suas apresentações, ele canta e narra causos das favelas cariocas, como Zé Kéti nos tempos do Opinião. Um Zé Kéti globalizado, autodidata à sua moda em inglês e francês, que não precisa de legendas. "O show passa calor humano, e os gringos adoram", diz ele. Adoram mesmo. Jorge faz cerca de setenta apresentações por ano na Europa. Ganha 25.000 euros por show, ou 70.000 reais – para ter um termo de comparação, Ivete Sangalo, campeã nacional de cachês, fatura 100.000 reais por apresentação. No Brasil ele toca bem menos. "Queremos que ele seja como a bolsa Louis Vuitton, que todos querem mas poucos podem ter", define Mariana Jorge, mulher e empresária do cantor. É ela quem cuida da agenda e da estratégia de divulgação do marido.

E o "Seu Jorge", de onde veio? Foi Marcelo Yuka, ex-integrante do grupo O Rappa, quem começou a chamá-lo assim, por causa da voz grave que atendia o telefone. Ele resolveu incorporar. "Seu Jorge evoca alguém mais velho, um sambista da antiga, um clássico, enfim", explica o cantor, que tem 35 anos. Um clássico entronizado pela tribo dos modernos – existe combinação mais fadada ao sucesso?

 
 
 
 
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