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Ambiente Tesouro
submerso Pesquisas começam a revelar a riqueza
do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, a 950 quilômetros
do Rio Grande do Norte  Roberta
Salomone
Fotos
Fernando Moraes/MNRJ
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tubarão-baleia, o maior peixe do mundo: ameaçado de extinção
e presente em São Pedro e São Paulo | |
Em sua famosa
jornada a bordo do navio Beagle, que teve início em 1831, Charles
Darwin encantou-se com as colônias de corais do Taiti e com as tartarugas
gigantes das ilhas Galápagos. Em uma passagem muito menos conhecida, o
naturalista inglês que criou a teoria da evolução surpreendeu-se
no Brasil com a enorme quantidade de tubarões, peixes e aves que viu no
Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Em seus relatos de
viagem, Darwin chama atenção para a brancura das ilhas, que atribui
a um fator dos mais prosaicos: os excrementos de uma "multidão de pássaros
do mar" cuja mansidão o impressionou. "Com um caráter tão
tranqüilo quanto besta, eles são tão pouco acostumados a receber
visitantes que eu poderia matar tantos quantos quisesse com meu martelo de geólogo",
escreveu Darwin. Considerado um dos menores conjuntos de ilhas oceânicas
do mundo, com cerca de 400 metros de extensão, o arquipélago fica
a cerca de 1.000 quilômetros da costa do Rio Grande do Norte e forma um
tesouro ecológico, econômico e científico desconhecido de
grande parte dos brasileiros até porque nem aparece em muitos mapas
do país. Tão rico e belo quanto na
época em que a expedição do autor de A Origem das Espécies
passou por ali, São Pedro e São Paulo tem posição
geográfica privilegiada para novas descobertas científicas. Lá
não há nenhum atrativo em terra firme. É no fundo do mar,
a uma profundidade que ultrapassa 3.000 metros, que ficam escondidas as maiores
preciosidades do território. São tubarões, atuns, lagostas,
polvos e dezenas de espécies só encontradas ali, como o peixe-donzela
Stegastes sanctipauli. Algumas têm propriedades medicinais promissoras.
Um exemplo é a esponja Discodermia dissoluta, cujo potencial de
prevenir a proliferação de células cancerígenas em
seres humanos está em estudo. "A existência dessa espécie
é de extrema importância para o Brasil. Só havia registros
de sua existência antes no Mar do Caribe. A região é ainda
pouco explorada e certamente haverá muitas outras descobertas", aposta
Fernando Moraes, biólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio
de Janeiro. O potencial econômico das ilhas também é grande.
O arquipélago está localizado na rota de peixes de alto valor comercial,
como o atum, e apresenta indícios da presença de minerais nobres,
como ouro, zinco e cobre. A confirmação da existência dessas
riquezas só aumentará o interesse econômico no lugar, que
já é uma das áreas mais importantes de pesca do Nordeste
brasileiro. Todos os anos, cerca de 600 toneladas de peixes são capturadas
nas proximidades das ilhas. Descoberto em 1511
pelo navegador português Manuel de Castro Alcoforado, o ponto do Brasil
mais próximo da África só começou a receber atenção
especial há sete anos. Interessada em garantir as 200 milhas marítimas
de zona de exploração econômica exclusiva, a Marinha providenciou
a construção de uma estação científica e a
ocupação permanente na ilha Belmonte, a maior do arquipélago.
"A posição geográfica é única e extremamente
favorável para pesquisas em diversos campos científicos. É
preciso olhar com mais atenção aquela região", diz o contra-almirante
José Eduardo Borges de Souza, secretário da Comissão Interministerial
para os Recursos do Mar. Hoje, cientistas das principais universidades do país
se revezam a cada quinze dias no lugar desenvolvendo importantes estudos em diferentes
áreas, como meteorologia, geologia e arqueologia subaquática.
A estonteante beleza não faz com que São Pedro e São Paulo
apresente algum potencial para o turismo, como Fernando de Noronha. O pequeno
grupo de ilhotas de rochas pontiagudas não tem capacidade de acolher muita
gente ao mesmo tempo (a área da maior delas é de apenas 60 por 100
metros), não dispõe de água potável e é praticamente
desprovido de vegetação. Além disso, os pesquisadores que
já estiveram lá sabem que não é das tarefas mais fáceis
ficar hospedado no paraíso. É preciso aprender a conviver com aves
que, diferentemente da descrição de Darwin, nada têm de dóceis
e dispensar qualquer conforto. A única casa do arquipélago fica
na ilha Belmonte onde também funciona a estação científica
e conta com apenas um quarto e uma cozinha, divididos em 50 metros quadrados.
Erguida sobre as rochas, a construção tem estrutura reforçada
para suportar as chuvas torrenciais e pequenos abalos sísmicos, não
raros no local. "A distância do continente só aumenta os riscos e
a insegurança. Ondas gigantes já destruíram parte da casa
que construímos", conta a arquiteta Cristina Engel, que está desenvolvendo
um novo projeto para a estação, previsto para ficar pronto no ano
que vem. Além de todas essas dificuldades,
antes de aportar no arquipélago é preciso encarar uma penosa viagem
de barco a partir de Fernando de Noronha. São no mínimo dois dias,
e dependendo das condições da maré a navegação
pode chegar a sessenta horas. Mas quem já foi lá garante que o primeiro
mergulho nas águas cristalinas ao redor das ilhas vale todo e qualquer
sacrifício. A prática do mergulho é restrita aos profissionais
autorizados pela Marinha e exige muito cuidado, já que as correntes de
superfície são extremamente fortes e perigosas. Para quem domina
a técnica do esporte e tem o privilégio de visitar São Pedro
e São Paulo, o local reserva experiências inesquecíveis. Como
cruzar com um tubarão-baleia, o maior peixe do mundo, que está ameaçado
de extinção e elegeu o lugar para fazer suas cada vez mais raras
aparições. |