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Saúde
Um novo bicho-papão O
colesterol alto começa a manifestar-se na população infantil.
Até que ponto isso é um problema 
Giuliana Bergamo
Tarciso Matos  |  |
A vida sedentária,
as dietas gordurosas e a obesidade estão fazendo com que doenças
típicas de adultos comecem a manifestar-se em crianças e adolescentes.
Entre elas está o colesterol alto, uma ameaça à saúde
do coração. Como o seu surgimento precoce é um fenômeno
verificado nos últimos anos, faltam estudos epidemiológicos mais
amplos. Os especialistas tampouco estabeleceram quais os níveis aceitáveis
em meninos e meninas os parâmetros utilizados atualmente são
os mesmos aplicados aos adultos: o ideal é ter até 200 miligramas
de colesterol por decilitro de sangue. Uma das primeiras pesquisas sobre a incidência
da substância na população infantil brasileira foi concluída
pelo laboratório Diagnósticos da América Medicina Diagnóstica.
O trabalho levantou os exames de sangue de 25.000 crianças de até
12 anos realizados de 2003 para cá. O resultado é que 25% delas
apresentavam níveis elevados de colesterol. O dado preocupa, mas deve ser
lido com cautela, já que os autores da pesquisa não analisaram a
condição clínica dos participantes um aspecto essencial
em se tratando de crianças atendidas num laboratório de análises,
e não escolhidas aleatoriamente. O mérito do trabalho está
mais em lançar um alerta. O acúmulo
de gordura no sangue das crianças é conseqüência direta
da enorme mudança de hábitos ocorrida em todos os níveis
sociais. Uma das mais drásticas aconteceu na dieta. Em dez anos, o arroz,
o feijão e a salada praticamente desapareceram do prato das crianças
brasileiras. Foram substituídos pelos hambúrgueres e batata frita
(veja quadro). Com isso,
a alimentação ganhou um excesso de gorduras saturadas e de proteínas,
o que leva as taxas de colesterol às alturas. Além disso, em decorrência
do corre-corre cotidiano, fazer uma refeição deixou de ser um ato
controlado pelos pais para transformar-se, na maioria das vezes, numa atividade
solitária diante da televisão ou da tela de um computador. "É
importantíssimo que as crianças façam pelo menos uma refeição
com os pais, para que estes tenham a oportunidade de controlar a alimentação
dos pequenos e, assim, orientá-los sobre a importância de uma refeição
saudável", diz a pediatra Isabela Giuliano, uma das coordenadoras do Grupo
de Estudos em Cardiologia Pediátrica Preventiva da Sociedade Brasileira
de Cardiologia. Partindo do pressuposto, é claro, de que os pais saibam
se a comida é saudável ou não.
Contribui ainda para o aumento do colesterol em crianças o sedentarismo.
Estima-se que apenas um terço delas pratique mais de meia hora diária
de atividades físicas moderadas. Elas deixaram de brincar ao ar livre para
ficar na frente da televisão ou do computador. "É essencial que
haja uma mudança radical nos hábitos de nossas crianças e
adolescentes", diz o cardiologista Abel Pereira, pesquisador do Instituto do Coração,
em São Paulo. Essa tarefa, ao contrário do que se crê, é
mais fácil do que parece desde que haja adultos dispostos a empreendê-la.
"As crianças têm os hábitos menos arraigados e, portanto,
é mais fácil modificá-los", diz a pediatra Isabela Giuliano.
O paulistano Philippe Pessoa Sundfeld, de 15 anos, conta não ter sofrido
muito para abandonar as frituras e bolachas quando tinha apenas 9 anos e recebeu
o diagnóstico de colesterol alto. Apesar de estar no peso adequado, Philippe
havia chegado à marca de 258 miligramas de colesterol por decilitro de
sangue. A prática diária de esportes, como o basquete, não
era suficiente para driblar a herança genética, o que só
foi conseguido com a reeducação alimentar. Hoje, o seu colesterol
é de 152. Até os 2 anos, é
normal que os níveis de colesterol sejam elevados. Trata-se de uma substância
fundamental para a produção de hormônios como o GH, do crescimento.
Além do mais, nessa idade, a gordura é muito importante para a formação
de uma espécie de capa que recobre cada um dos neurônios, a mielina,
sem a qual os impulsos nervosos não seriam transmitidos de uma célula
a outra. A falta dele, portanto, pode levar a deficiências no desenvolvimento
cognitivo e psicomotor. Mas já se sabe que um quarto das crianças
de até 2 anos com colesterol alto apresentará o problema na idade
adulta. São elas que preocupam os especialistas. Tanto que o Programa Nacional
de Educação sobre Colesterol da Academia Americana de Pediatria
preconiza que crianças com parentes de primeiro grau que tiveram doença
coronariana antes dos 55 anos de idade devem começar a prevenção
e o controle desse mal a partir dos 2 anos. |