Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Beleza
Injeta, amassa, estufa...

...e torce para dar certo. A bioplastia,
nova mania entre os tratamentos
estéticos, muda para sempre


Bel Moherdaui

 
Marco Pinto
Mônica: sem medo das complicações na hora de corrigir a ondulação nas pernas deixada pela lipo malfeita

Injetar no corpo uma substância sintética pouco conhecida, sem ter certeza das evoluções futuras, e nunca mais poder retirá-la, quem faria uma loucura dessas? Muita gente. A contrapartida é o que a bioplastia, um tratamento que vem causando furor, oferece em termos de reengenharia estética a jato: nariz reto, queixo proeminente, boca carnuda, bumbum empinadinho e outras saliências devidamente ressaltadas, sem cirurgia nem internação, só com anestesia local, algumas agulhadas e uma rápida massagem modeladora. "Acredito que em um ano o número de procedimentos tenha triplicado", calcula o cirurgião plástico Fausto Viterbo, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que coordenou um fórum sobre o assunto para a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Bioplastia é a utilização de um gel sintético, o polimetilmetacrilato (PMMA), para preencher e moldar rosto e corpo. Ao contrário dos demais produtos usados em preenchimento, que se diluem com o tempo, tem ação definitiva. Injetado sob a pele ou no músculo, é em seguida moldado pelo médico, com as mãos, à vista da paciente, que pode inclusive dar seus palpites. Antes restrito a papel secundário em procedimentos cirúrgicos – como fixar próteses ortopédicas e lentes oculares –, o PMMA estreou nos tratamentos estéticos há pouco mais de dez anos, misturado aos pioneiros produtos de preenchimento. Hoje, em procedimentos que podem durar apenas quinze minutos, a substância é injetada, em diferentes volumes e concentrações, do nariz à panturrilha, passando por bochechas, lábios, mãos, abdômen e glúteos.

É como se fosse um novo silicone líquido, substância empregada nos primórdios da medicina estética – mas sem suas conseqüências deletérias. Ou é isso que se espera. "A bioplastia cresceu porque as pessoas estão cada vez mais dando preferência aos tratamentos minimamente invasivos", diz o cirurgião plástico Carlos Fernando Vieira das Neves. A simplicidade da aplicação, aliada ao preço convidativo (por volta de 1.000 reais o preenchimento de sulcos e ruguinhas, de 2.000 a 4.000 reais para corrigir e projetar nariz e queixo e a partir de 12.000 para grandes acréscimos nos glúteos), tem levado enxames de mulheres atrás das picadas embelezadoras. "Por mês, faço de vinte a 25 procedimentos. Há quatro anos, não chegava a cinco", atesta o cirurgião plástico Munir Curi, de São Paulo.

 
Lailson Santos
Marco Lima
De ponta a ponta: Pamella preencheu o lábio e levantou o nariz; Aline (à dir.) aumentou os glúteos

A modelo Pamella Wendy, 19 anos, de Sorocaba, no interior de São Paulo, fez o procedimento há menos de uma semana, para aumentar o lábio e levantar a ponta do nariz, caída depois de uma rinoplastia. "Como sou modelo, outra cirurgia plástica iria me prejudicar muito. Teria de ficar ao menos um mês sem trabalhar", explica. "Com a bioplastia, em poucos minutos saí do consultório pronta." A empresária baiana Aline Barros, 27 anos, adepta de tratamentos estéticos em geral, inclusive as controversas injeções de hormônio de crescimento e de extrato de polifenol de alcachofra, apelou à bioplastia para aumentar os glúteos. "Aconselho para qualquer um. Dá para sentar, deitar, malhar, fazer o que quiser. Só senti um pouco de dor em decorrência das injeções", conta.

Essa euforia toda é vista com cautela pela maioria dos médicos. "Há uma popularização e uma banalização muito grande. Uma das conseqüências é que qualquer profissional se acha no direito de fazer esse tipo de tratamento, o que é temerário", alerta o dermatologista Sergio Talarico, coordenador do setor de cosmiatria da Universidade Federal de São Paulo. "Além disso, não há um trabalho de respaldo, com metodologia científica, que comprove a segurança do procedimento a longo prazo, principalmente na aplicação de grandes volumes", lembra. A secretária Júlia (que prefere não dar o nome verdadeiro), de Campinas, começou a notar pequenos nódulos no lábio alguns dias depois da bioplastia a que se submeteu. "A médica disse que passaria, mas oito meses depois senti que estavam aumentando. Agora, após dois anos, ainda tenho cinco carocinhos duros e doloridos na parte interna do lábio. No resto do rosto, sinto como se o produto estivesse pesando e puxando a pele para baixo", diz ela, que pretende tentar a remoção cirúrgica. Segundo o cirurgião plástico Rodrigo Gimenez, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, os riscos mais comuns são hipercromia (mancha no local do implante), formação de nódulos, necrose, retração e endurecimento da região tratada. Nada que assustasse a pedagoga Mônica Garcia, de São Paulo. "Preferi correr o risco futuro a ficar como estava", diz ela, que recorreu à bioplastia na perna para reparar as saliências e reentrâncias de uma lipoaspiração malfeita. No momento, ninguém segura a onda.

 
 
 
 
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