|
|
Polícia O
maior roubo do Brasil Bando que levou 164 milhões
de reais do BC deixou pistas logo nas primeiras compras  Leonardo
Coutinho, de Fortaleza
Pelo menos duas pistas deixadas
pelos ladrões que roubaram 164 milhões de reais do prédio
do Banco Central de Fortaleza indicam que eles tinham um plano eficiente para
praticar o crime, mas passaram a improvisar logo que começaram a gastar
o dinheiro. Nas horas seguintes à conclusão do roubo, no sábado
6, os bandidos torraram 980.000 reais numa loja de carros usados, comprando um
lote de uma dezena de veículos, e adquiriram, por mais de 7.000 reais,
dez passagens para São Paulo no balcão da TAM do aeroporto local.
Nos dois casos, fizeram o pagamento com pacotes de notas de 50 reais. A partir
dessas informações, a polícia chegou ao caminhão-cegonha
que transportava automóveis recheados de cédulas, interceptado em
Minas Gerais, e pôde requisitar à administração do
aeroporto as fitas do sistema de segurança que devem mostrar os integrantes
da quadrilha. Também o dono do caminhão, um motorista e os proprietários
da loja de automóveis integravam, até sexta-feira, o rol de suspeitos.
Mauricio
de Souza/Hoje em dia/AE
 | | Carga
valiosa: carros recheados de dinheiro |
Na
manhã da segunda-feira passada, quando se descobriu o túnel de 78
metros que liga o cofre do BC a uma casa das imediações, os ladrões
tinham 46 horas de vantagem sobre os policiais. Poderiam ter rodado milhares de
quilômetros com o dinheiro antes que os investigadores, atônitos,
constatassem toda a sua ousadia. No local em que mantiveram, por três meses,
uma falsa empresa de grama sintética, tiveram o cuidado de espalhar gesso
em pó por todos os cômodos, para dificultar a localização
de impressões digitais. Para manter as aparências, haviam até
confeccionado bonés com o nome da loja e distribuído alguns na vizinhança.
Organizados, registraram o empreendimento na Junta Comercial antes mesmo de alugar
o imóvel e instalaram computador e telefone em nome da empresa. Pagavam
em dia as contas do estabelecimento e usavam crachá no horário do
"expediente", segundo contam os vizinhos. Dois deles foram convidados para uma
festa de travestis, na sauna do outro lado da rua. E foram. Só não
toparam sair de frente nas fotografias. Nos fundos
da casa, desenvolvia-se a complexa escavação do túnel. Com
o teto calçado com escoras de madeira e o chão revestido de plástico
grosso, a obra foi baseada num mapa oficial da rede de água e esgoto da
cidade, para evitar obstáculos no caminho. O solo de Fortaleza é
arenoso, fácil de cavar. Difícil foi passar pelo fundo do cofre,
protegido por um sanduíche de concreto entre duas chapas de aço.
Nessa operação, os ladrões gastaram horas, utilizando ferramentas
que fazem pouco barulho, como serras circulares. Ao longo de todo o túnel,
havia pontos de energia elétrica, para lâmpadas, ventiladores, máquinas
e interfone. Um potente ar-condicionado, instalado na casa, jogava ar frio para
o túnel, por meio de uma mangueira sanfonada. Apesar disso, o calor no
interior do buraco era intenso, a julgar pela quantidade de tubos de pomada para
assaduras e de garrafas vazias de água e de isotônicos encontrados
perto da entrada. No dia 10 de junho, o ladrão
mais bem relacionado com os vizinhos foi socorrido por alguns deles depois de
desmaiar diante da casa. Atendido no Instituto Doutor José Frota, constatou-se
que estava bastante desidratado e com pressão alta. Medicado, fugiu do
hospital sem receber alta, roubando a papelada de seu atendimento. Os dados, porém,
já haviam sido transferidos para o computador do hospital o que
não ajuda muito porque ele se identificou com documentos falsos. Uma prova
de que os bandidos contavam com problemas para vencer o último trecho da
perfuração é o fato de que o bando tinha reservas aéreas
para São Paulo também num vôo do sábado seguinte. Estavam
prontos, portanto, para aguardar mais uma semana antes de entrar no cofre. Essa
instalação, segundo informações do BC, tem alarme
e um sistema de monitoramento por câmeras cujas imagens são exibidas
numa sala da segurança. No dia do roubo, o alarme não funcionou
e havia uma empilhadeira obstruindo exatamente a lente da câmera que apontava
para o buraco. Nem o banco nem a polícia informaram sobre as investigações
a respeito desses dois detalhes. Nas contas de
especialistas, um túnel nas proporções da obra feita pelos
bandidos produz pelo menos dez caminhões de terra. Para retirá-la,
eles realizaram um trabalho de formiga. Primeiro, faziam a terra escoar pelo túnel
dentro de duas metades de um barril plástico, cortado no sentido do comprimento,
amarradas a cordas. Por isso havia mantas de plástico no chão, para
facilitar o deslizamento. No começo do buraco, a terra era içada
num balde e despejada em sacos de pano que saíam da casa embarcados numa
van. Parte dos sacos foi escondida na casa, atrás de uma parede falsa.
Os carrinhos e o balde foram também utilizados no transporte do dinheiro.
Na manhã de sábado, depois de escolher apenas notas de 50 reais
usadas no estoque do Banco Central, garantindo um volume de carga que exigiria
três viagens da van, o grupo saiu para comprar automóveis e recheá-los
com 5 milhões de reais. Do resto do dinheiro a polícia não
tinha notícia até o fim da semana. |