Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Polícia
O maior roubo do Brasil

Bando que levou 164 milhões de reais do BC deixou pistas logo nas primeiras compras


Leonardo Coutinho, de Fortaleza


NESTA REPORTAGEM
Quadro: A engenharia do crime
Quadro: O que são 164 milhões de reais

Pelo menos duas pistas deixadas pelos ladrões que roubaram 164 milhões de reais do prédio do Banco Central de Fortaleza indicam que eles tinham um plano eficiente para praticar o crime, mas passaram a improvisar logo que começaram a gastar o dinheiro. Nas horas seguintes à conclusão do roubo, no sábado 6, os bandidos torraram 980.000 reais numa loja de carros usados, comprando um lote de uma dezena de veículos, e adquiriram, por mais de 7.000 reais, dez passagens para São Paulo no balcão da TAM do aeroporto local. Nos dois casos, fizeram o pagamento com pacotes de notas de 50 reais. A partir dessas informações, a polícia chegou ao caminhão-cegonha que transportava automóveis recheados de cédulas, interceptado em Minas Gerais, e pôde requisitar à administração do aeroporto as fitas do sistema de segurança que devem mostrar os integrantes da quadrilha. Também o dono do caminhão, um motorista e os proprietários da loja de automóveis integravam, até sexta-feira, o rol de suspeitos.

Mauricio de Souza/Hoje em dia/AE
Carga valiosa: carros recheados de dinheiro

Na manhã da segunda-feira passada, quando se descobriu o túnel de 78 metros que liga o cofre do BC a uma casa das imediações, os ladrões tinham 46 horas de vantagem sobre os policiais. Poderiam ter rodado milhares de quilômetros com o dinheiro antes que os investigadores, atônitos, constatassem toda a sua ousadia. No local em que mantiveram, por três meses, uma falsa empresa de grama sintética, tiveram o cuidado de espalhar gesso em pó por todos os cômodos, para dificultar a localização de impressões digitais. Para manter as aparências, haviam até confeccionado bonés com o nome da loja e distribuído alguns na vizinhança. Organizados, registraram o empreendimento na Junta Comercial antes mesmo de alugar o imóvel e instalaram computador e telefone em nome da empresa. Pagavam em dia as contas do estabelecimento e usavam crachá no horário do "expediente", segundo contam os vizinhos. Dois deles foram convidados para uma festa de travestis, na sauna do outro lado da rua. E foram. Só não toparam sair de frente nas fotografias.

Nos fundos da casa, desenvolvia-se a complexa escavação do túnel. Com o teto calçado com escoras de madeira e o chão revestido de plástico grosso, a obra foi baseada num mapa oficial da rede de água e esgoto da cidade, para evitar obstáculos no caminho. O solo de Fortaleza é arenoso, fácil de cavar. Difícil foi passar pelo fundo do cofre, protegido por um sanduíche de concreto entre duas chapas de aço. Nessa operação, os ladrões gastaram horas, utilizando ferramentas que fazem pouco barulho, como serras circulares. Ao longo de todo o túnel, havia pontos de energia elétrica, para lâmpadas, ventiladores, máquinas e interfone. Um potente ar-condicionado, instalado na casa, jogava ar frio para o túnel, por meio de uma mangueira sanfonada. Apesar disso, o calor no interior do buraco era intenso, a julgar pela quantidade de tubos de pomada para assaduras e de garrafas vazias de água e de isotônicos encontrados perto da entrada.

No dia 10 de junho, o ladrão mais bem relacionado com os vizinhos foi socorrido por alguns deles depois de desmaiar diante da casa. Atendido no Instituto Doutor José Frota, constatou-se que estava bastante desidratado e com pressão alta. Medicado, fugiu do hospital sem receber alta, roubando a papelada de seu atendimento. Os dados, porém, já haviam sido transferidos para o computador do hospital – o que não ajuda muito porque ele se identificou com documentos falsos. Uma prova de que os bandidos contavam com problemas para vencer o último trecho da perfuração é o fato de que o bando tinha reservas aéreas para São Paulo também num vôo do sábado seguinte. Estavam prontos, portanto, para aguardar mais uma semana antes de entrar no cofre. Essa instalação, segundo informações do BC, tem alarme e um sistema de monitoramento por câmeras cujas imagens são exibidas numa sala da segurança. No dia do roubo, o alarme não funcionou e havia uma empilhadeira obstruindo exatamente a lente da câmera que apontava para o buraco. Nem o banco nem a polícia informaram sobre as investigações a respeito desses dois detalhes.

Nas contas de especialistas, um túnel nas proporções da obra feita pelos bandidos produz pelo menos dez caminhões de terra. Para retirá-la, eles realizaram um trabalho de formiga. Primeiro, faziam a terra escoar pelo túnel dentro de duas metades de um barril plástico, cortado no sentido do comprimento, amarradas a cordas. Por isso havia mantas de plástico no chão, para facilitar o deslizamento. No começo do buraco, a terra era içada num balde e despejada em sacos de pano que saíam da casa embarcados numa van. Parte dos sacos foi escondida na casa, atrás de uma parede falsa. Os carrinhos e o balde foram também utilizados no transporte do dinheiro. Na manhã de sábado, depois de escolher apenas notas de 50 reais usadas no estoque do Banco Central, garantindo um volume de carga que exigiria três viagens da van, o grupo saiu para comprar automóveis e recheá-los com 5 milhões de reais. Do resto do dinheiro a polícia não tinha notícia até o fim da semana.

 
 
 
 
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