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Terremoto
na Sotheby's
Tela de Rubens alcança 76,7
milhões de dólares em leilão
e muda a lógica do mercado
AP
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AFP Photo/Cooper Hewitt Design Museum
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| O
Massacre dos Inocentes: esquecida numa salinha escura de um mosteiro
austríaco |
O
desenho que ninguém sabia ser de autoria de Michelangelo: avaliado
em 12 milhões de dólares |

Veja também |
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Parece
coisa de ficção: uma tela fundamental de um dos maiores
mestres da pintura o flamengo Peter Paul Rubens é
erroneamente catalogada, ainda no século XVIII, como sendo de um
discípulo sem maior importância, o também flamengo
Jan van den Hoecke, e cai na obscuridade. Em 1923, a obra é herdada
por uma austríaca, que logo toma aversão à cena retratada
o bíblico massacre de recém-nascidos ordenado pelo
rei Herodes, para evitar o surgimento do Messias. A fim de manter distância
da tela, a austríaca a entrega a um mosteiro, onde ela vai parar
na parede de um quartinho qualquer, na semi-escuridão. Mais um
salto no tempo: há alguns meses, um senhor tenta vender uma paisagem
à filial holandesa da casa de leilões Sotheby's, sem sucesso.
Antes de ir embora, porém, ele mostra à avaliadora uma foto
de um velho quadro pertencente a sua tia de 89 anos aquela mesma
austríaca de antes e indaga se ele teria algum valor. Desconfiado
de que se trata de um quadro importante, o especialista em arte flamenga
da Sotheby's segue para o mosteiro. De lanterna na mão, ele examina
a obra de perto e constata: trata-se mesmo de um Rubens, e de quilate
graúdo. Na semana passada, a trajetória singular de O
Massacre dos Inocentes finalmente se encerrou, com o devido estrondo:
a tela foi vendida por 76,7 milhões de dólares num leilão
da Sotheby's de Londres. É o terceiro preço mais alto já
atingido por uma pintura em leilão (veja
quadro)
e o recorde absoluto para uma obra produzida por um dos grandes mestres.
Até então, só telas de impressionistas e modernistas
eram capazes de alcançar cifras de 50 milhões de dólares
ou mais.
Esse nem sequer foi o único terremotr="0000ff">veja
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e o recorde absoluto para uma obra produzida por um dos grandes mestres.
Até então, só telas de impressionistas e modernistas
eram capazes de alcançar cifras de 50 milhões de dólares
ou mais.
Esse nem sequer foi o único terremoto sentido no mundo da arte
nos últimos dias. Quase ao mesmo tempo, anunciou-se que o diretor
das Galerias Nacionais da Escócia deparou com outra raridade enquanto
vasculhava velhas caixas de ilustrações no Museu Cooper-Hewitt,
em Nova York: um desenho de um candelabro, identificado apenas com os
dizeres "Italiano, circa 1530-1540", que acaba de ser autenticado por
diversos especialistas como sendo de autoria de Michelangelo Buonarroti.
Medindo 43 por 25 centímetros, em giz sobre papel, o desenho está
avaliado em 12 milhões de dólares. Foi comprado pelo museu
por 60 dólares, em 1942, num lote de várias ilustrações
sem maior relevância.
Pelos valores surpreendentes envolvidos na negociação, o
quadro de Rubens, que se acredita ter sido pintado por volta de 1610,
é a estrela indiscutível da semana. A identidade de seu
comprador permanece ignorada. O lance final foi feito por um negociador
londrino de manuscritos, que se comunicava por celular com o verdadeiro
interessado. Pelo menos oito pessoas algumas representando entidades
como o riquíssimo e ambicioso Museu Getty, de Los Angeles
brigaram feio pelo privilégio da compra, o que certamente contribuiu
para que a tela alcançasse um preço tão acima do
esperado. A Sotheby's acredita que a temperatura tenha subido também
por causa do perfil dos interessados: como obras assim quase nunca vão
a leilão, essas raras ocasiões atraem os chamados caçadores
de troféus. Rubens (1577-1640) foi não só um mestre,
mas também um transformador. Fundiu a tradição flamenga
ao Renascimento italiano e redirecionou a pintura no norte da Europa.
O Massacre dos Inocentes é um exemplar raro também
na crueza com que mostra os soldados trucidando os bebês, em meio
ao desespero das mães. Somados, todos esses fatores fizeram com
que os padrões tradicionais de preços simplesmente deixassem
de valer. "É provável que, a partir de agora, as obras do
período barroco passem por uma reavaliação no mercado
e deixem de ser subestimadas pelos colecionadores", diz o marchand paulistano
Peter Cohn. Ou seja: novos tremores virão.
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