Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 760 - 17 de julho de 2002
Geral Justiça
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
 

Droga para reposição hormonal é condenada
Videogames inspirados em Hollywood
As irmãs Williams, rainhas do tênis
Médicos alertam para os riscos da montanha-russa
Atentados não impedem a construção das megatorres
Londres combate a degradação e imóveis se valorizam
Inglaterra afrouxa a repressão aos maconheiros
Hominídeo mais antigo pode revolucionar pesquisa
Plumas na alta-costura
As vitaminas sob ataque
Iogurtes para a beleza
Crise capixaba causa demissão do ministro

Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

A gaveta mágica
do dr. Brindeiro

Agora, cabe nela, com o arquivamento
da intervenção, o Espírito Santo inteirinho

Malu Gaspar


Ana Araujo
José Paulo Lacerda/AE
Brindeiro: jus à fama de ser o engavetador-geral da República Reale Júnior: sentindo-se desautorizado pelo presidente FHC

Os primeiros sintomas de que o Espírito Santo se estava tornando refém da criminalidade começaram a aparecer em 1994. Nessa época, o Ministério da Justiça recebeu um alentado relatório descrevendo como agiam os membros de uma entidade de nome estranho e atividade macabra - a Scuderie Le Cocq, uma organização "sem fins lucrativos" que, na prática, comandava o crime no Estado e funcionava como um esquadrão da morte, patrocinando homicídios e protegendo os bandidos. De 1994 para cá, houve expedições de especialistas ao Espírito Santo para analisar a situação. Fez-se uma CPI. Missões do Exército foram verificar. A Polícia Federal investigou. O Ministério Público também agiu. Todos chegaram a conclusões semelhantes. O Espírito Santo não exibia um nível de criminalidade mais alarmante que o de outros Estados violentos, mas sua situação tinha uma peculiaridade - o crime organizado estava infiltrado nas altas esferas da sociedade. Com isso inibia a capacidade do poder público de proteger os cidadãos. A punição ao crime tornava-se mais difícil e a impunidade dos criminosos, mais comum.

Nos últimos oito anos, em que pese a clareza do diagnóstico, a situação do Espírito Santo só piorou. O Estado tem mais mandados de prisão sem cumprimento que a média nacional. O crime organizado, capitaneado pela tal Scuderie Le Cocq, infiltrou-se nas polícias, recrutou empresários, políticos, membros do Judiciário e do Ministério Público. As investigações sugerem que um dos poderes mais permeáveis à penetração do crime é a própria Assembléia Legislativa capixaba, presidida pelo deputado José Carlos Gratz, do PFL, bicheiro confesso que responde a mais de vinte acusações por contrabando, sonegação, corrupção, homicídio e, é claro, patrocínio do jogo do bicho. No relatório final da CPI criada para investigar o narcotráfico, Gratz é formalmente apontado como homem ligado ao crime organizado. Gratz chegou a participar de uma campanha nos meios de comunicação destinada a convencer a população de que não existia narcotráfico no Estado - embora, na época, Vitória, incluindo a região metropolitana, já fosse a cidade mais violenta do país.

Diante de um quadro tão precário, nada foi feito para resolver ou amenizar o problema. Na semana passada, a situação calamitosa do Espírito Santo, que não despertava atenção a ponto de exigir providências, tornou-se foco de uma desavença em Brasília. O ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, apresentou pedido de intervenção federal no Estado ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que aprovou a idéia num primeiro momento. Pela função que desempenha, caberia a Brindeiro encaminhar o pedido ao Supremo Tribunal Federal. O procurador-geral, no entanto, preferiu bater antes em outro endereço que não o Supremo. Pediu uma audiência ao presidente Fernando Henrique. Ao sair do encontro, Brindeiro, chamado ironicamente de "engavetador-geral da República", resolveu encerrar também esse caso, engavetando-o. Explicou, ainda, que FHC o alertara para a "inviabilidade política" da intervenção neste momento. Reale Júnior, que afirma ter consultado o presidente sobre o tema duas vezes, tendo sempre recebido sinal verde, sentiu-se publicamente desautorizado e pediu demissão. "Ele me disse que aprovava a intervenção", reagiu Reale, dizendo desconhecer as razões que levaram o presidente a mudar de idéia, mas que "gostaria muito de saber". Em carta aberta ao ex-ministro, FHC fez questão de dizer que não mudou de idéia e que jamais recebeu elementos suficientes para formar um juízo sobre o assunto.

A intervenção no Espírito Santo não precisa ser necessariamente feita antes da eleição, como parece pensar o presidente da República, temendo que a campanha seja tumultuada pela discussão desse tema. Já deveria ter sido feita há muito tempo. Pode perfeitamente ficar para daqui a alguns meses. Desde que alguma providência concreta venha a ser tomada no futuro próximo, a fixação da data precisa é um detalhe irrelevante. Mas o vai-e-vem de decisões sobre a intervenção, envolvendo ministro da Justiça, procurador-geral e presidente da República, não é irrelevante. Em primeiro lugar, o procurador-geral é chefe de um poder "autônomo e independente", nos termos da Constituição, e não de um poder subalterno ao Palácio do Planalto. Tecnicamente, Brindeiro age mal quando subordina sua ação a consultas políticas ao presidente, mesmo que Fernando Henrique Cardoso seja um rei Salomão de sabedoria. É uma atitude tão indevida que a Associação dos Magistrados Brasileiros lançou nota pública em que deplora o elevado grau de subordinação do procurador-geral ao Poder Executivo.

A crise no Espírito Santo, a polêmica da intervenção e a demissão do ministro Reale Júnior, no entanto, são assuntos que se fundem numa questão mais ampla. Houve um tempo em que o Brasil estava habituado com a troca de ministros da Fazenda. Num período de oito anos de descontrole inflacionário, de 1985 a 1993, o país teve nove ministros da Fazenda. Agora, com a estabilidade econômica trazida pelo Plano Real, o ministro Pedro Malan já completou sete anos e meio no cargo - um recorde só comparável ao de Artur de Souza Costa, que ocupou o posto entre 1934 e 1945, no governo de Getúlio Vargas. A longevidade de Malan explica-se pelo fato de que a política econômica encontrou seu eixo e sabe exatamente os desafios que ainda tem para enfrentar. O que acontece no Ministério da Justiça é o inverso. Como o governo não faz idéia do que realizar no campo da segurança pública, os ministros da Justiça se sucedem e cada um tem uma diretriz diferente. Nos dois mandatos de Fernando Henrique, já foram sete ministros. Na semana passada, tomou posse o oitavo - Paulo de Tarso Ribeiro, que ocupava o cargo de secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça. Em sua primeira entrevista, Paulo de Tarso declarou, para embasbacamento dos que o ouviam, que uma das alternativas para o caso do Espírito Santo pode ser - ela mesma - a intervenção federal...



   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS