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A gaveta mágica
do dr. Brindeiro
Agora,
cabe nela, com o arquivamento
da intervenção, o Espírito Santo inteirinho

Malu Gaspar
Ana Araujo
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José Paulo Lacerda/AE
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| Brindeiro:
jus à fama de ser o engavetador-geral da República |
Reale
Júnior: sentindo-se desautorizado pelo presidente FHC |
Os primeiros
sintomas de que o Espírito Santo se estava tornando refém
da criminalidade começaram a aparecer em 1994. Nessa época,
o Ministério da Justiça recebeu um alentado relatório
descrevendo como agiam os membros de uma entidade de nome estranho e atividade
macabra - a Scuderie Le Cocq, uma organização "sem
fins lucrativos" que, na prática, comandava o crime no Estado
e funcionava como um esquadrão da morte, patrocinando homicídios
e protegendo os bandidos. De 1994 para cá, houve expedições
de especialistas ao Espírito Santo para analisar a situação.
Fez-se uma CPI. Missões do Exército foram verificar. A Polícia
Federal investigou. O Ministério Público também agiu.
Todos chegaram a conclusões semelhantes. O Espírito Santo
não exibia um nível de criminalidade mais alarmante que
o de outros Estados violentos, mas sua situação tinha uma
peculiaridade - o crime organizado estava infiltrado nas altas esferas
da sociedade. Com isso inibia a capacidade do poder público de
proteger os cidadãos. A punição ao crime tornava-se
mais difícil e a impunidade dos criminosos, mais comum.
Nos últimos
oito anos, em que pese a clareza do diagnóstico, a situação
do Espírito Santo só piorou. O Estado tem mais mandados
de prisão sem cumprimento que a média nacional. O crime
organizado, capitaneado pela tal Scuderie Le Cocq, infiltrou-se nas polícias,
recrutou empresários, políticos, membros do Judiciário
e do Ministério Público. As investigações
sugerem que um dos poderes mais permeáveis à penetração
do crime é a própria Assembléia Legislativa capixaba,
presidida pelo deputado José Carlos Gratz, do PFL, bicheiro confesso
que responde a mais de vinte acusações por contrabando,
sonegação, corrupção, homicídio e,
é claro, patrocínio do jogo do bicho. No relatório
final da CPI criada para investigar o narcotráfico, Gratz é
formalmente apontado como homem ligado ao crime organizado. Gratz chegou
a participar de uma campanha nos meios de comunicação destinada
a convencer a população de que não existia narcotráfico
no Estado - embora, na época, Vitória, incluindo a região
metropolitana, já fosse a cidade mais violenta do país.
Diante de
um quadro tão precário, nada foi feito para resolver ou
amenizar o problema. Na semana passada, a situação calamitosa
do Espírito Santo, que não despertava atenção
a ponto de exigir providências, tornou-se foco de uma desavença
em Brasília. O ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior,
apresentou pedido de intervenção federal no Estado ao procurador-geral
da República, Geraldo Brindeiro, que aprovou a idéia num
primeiro momento. Pela função que desempenha, caberia a
Brindeiro encaminhar o pedido ao Supremo Tribunal Federal. O procurador-geral,
no entanto, preferiu bater antes em outro endereço que não
o Supremo. Pediu uma audiência ao presidente Fernando Henrique.
Ao sair do encontro, Brindeiro, chamado ironicamente de "engavetador-geral
da República", resolveu encerrar também esse caso,
engavetando-o. Explicou, ainda, que FHC o alertara para a "inviabilidade
política" da intervenção neste momento. Reale
Júnior, que afirma ter consultado o presidente sobre o tema duas
vezes, tendo sempre recebido sinal verde, sentiu-se publicamente desautorizado
e pediu demissão. "Ele me disse que aprovava a intervenção",
reagiu Reale, dizendo desconhecer as razões que levaram o presidente
a mudar de idéia, mas que "gostaria muito de saber".
Em carta aberta ao ex-ministro, FHC fez questão de dizer que não
mudou de idéia e que jamais recebeu elementos suficientes para
formar um juízo sobre o assunto.
A intervenção
no Espírito Santo não precisa ser necessariamente feita
antes da eleição, como parece pensar o presidente da República,
temendo que a campanha seja tumultuada pela discussão desse tema.
Já deveria ter sido feita há muito tempo. Pode perfeitamente
ficar para daqui a alguns meses. Desde que alguma providência concreta
venha a ser tomada no futuro próximo, a fixação da
data precisa é um detalhe irrelevante. Mas o vai-e-vem de decisões
sobre a intervenção, envolvendo ministro da Justiça,
procurador-geral e presidente da República, não é
irrelevante. Em primeiro lugar, o procurador-geral é chefe de um
poder "autônomo e independente", nos termos da Constituição,
e não de um poder subalterno ao Palácio do Planalto. Tecnicamente,
Brindeiro age mal quando subordina sua ação a consultas
políticas ao presidente, mesmo que Fernando Henrique Cardoso seja
um rei Salomão de sabedoria. É uma atitude tão indevida
que a Associação dos Magistrados Brasileiros lançou
nota pública em que deplora o elevado grau de subordinação
do procurador-geral ao Poder Executivo.
A crise
no Espírito Santo, a polêmica da intervenção
e a demissão do ministro Reale Júnior, no entanto, são
assuntos que se fundem numa questão mais ampla. Houve um tempo
em que o Brasil estava habituado com a troca de ministros da Fazenda.
Num período de oito anos de descontrole inflacionário, de
1985 a 1993, o país teve nove ministros da Fazenda. Agora, com
a estabilidade econômica trazida pelo Plano Real, o ministro Pedro
Malan já completou sete anos e meio no cargo - um recorde só
comparável ao de Artur de Souza Costa, que ocupou o posto entre
1934 e 1945, no governo de Getúlio Vargas. A longevidade de Malan
explica-se pelo fato de que a política econômica encontrou
seu eixo e sabe exatamente os desafios que ainda tem para enfrentar. O
que acontece no Ministério da Justiça é o inverso.
Como o governo não faz idéia do que realizar no campo da
segurança pública, os ministros da Justiça se sucedem
e cada um tem uma diretriz diferente. Nos dois mandatos de Fernando Henrique,
já foram sete ministros. Na semana passada, tomou posse o oitavo
- Paulo de Tarso Ribeiro, que ocupava o cargo de secretário de
Direito Econômico do Ministério da Justiça. Em sua
primeira entrevista, Paulo de Tarso declarou, para embasbacamento dos
que o ouviam, que uma das alternativas para o caso do Espírito
Santo pode ser - ela mesma - a intervenção federal...
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