Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 760 - 17 de julho de 2002
Geral Paleontologia
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
 

Droga para reposição hormonal é condenada
Videogames inspirados em Hollywood
As irmãs Williams, rainhas do tênis
Médicos alertam para os riscos da montanha-russa
Atentados não impedem a construção das megatorres
Londres combate a degradação e imóveis se valorizam
Inglaterra afrouxa a repressão aos maconheiros
Hominídeo mais antigo pode revolucionar pesquisa
Plumas na alta-costura
As vitaminas sob ataque
Iogurtes para a beleza
Crise capixaba causa demissão do ministro

Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

O homem de
7 milhões de anos

Descoberta de fóssil na África Central
revoluciona as teorias sobre a árvore
genealógica da espécie humana

Daniel Hessel Teich e Natasha Madov

 
AFP

Brunet com o fóssil e um modelo do crânio: detalhes surpreendentes


Veja também
A família humana

O estudo da evolução humana é um ramo da ciência cheio de armadilhas. De modo geral, vê-se a árvore genealógica do homem moderno como um tronco linear, com uns poucos galhos. Na realidade, cada fóssil descoberto pode significar variações inesperadas, com o surgimento de novas espécies de hominídeos, como são chamados os membros da família humana. Na semana passada foi anunciada uma dessas espetaculares reviravoltas: a descoberta na África Central do crânio de um hominídeo de 7 milhões de anos, o que faz dele o mais antigo ancestral do homem já encontrado. O crânio também muda radicalmente o conhecimento sobre a evolução humana, pois empurrou para trás o período em que teria ocorrido a separação entre o ramo humano e aquele que resultaria no chimpanzé, nosso parente mais próximo do ponto de vista da genética. O fóssil foi encontrado há pouco mais de um ano pelos paleontólogos franceses Michel Brunet e Patrick Vignaud, da Universidade de Poitiers, nas bordas do Deserto do Saara, no Chade, e recebeu a denominação científica de Sahelanthropus tchadensis e o apelido de Toumai, nome dado na região às crianças nascidas perto do início da estação das secas. A demora entre a descoberta e a divulgação decorreu da necessidade de o material ser estudado, até que os cientistas estivessem convictos de ter em mãos uma autêntica bomba evolucionária.

O crânio encontrado no Chade tem o dobro da idade de Lucy, o famoso hominídeo descoberto na Etiópia, em 1974, e que era, até agora, a caixa craniana mais antiga. Não é apenas na idade que Toumai surpreende. O fóssil apresenta características só encontradas em ancestrais humanos muito mais recentes, como o Homo habilis, um hominídeo de 2,5 milhões de anos. Ao mesmo tempo, tem traços marcantes de chimpanzé. Na escavação no Chade, realizada no Deserto de Djourab, foram encontrados, além do crânio quase completo de Toumai, dois pedaços de mandíbula e três dentes, provenientes de cinco indivíduos diferentes. Os caninos desses hominídeos são menores que os dos macacos contemporâneos e o esmalte de seus dentes é mais espesso, o que condiz mais com a dieta dos primeiros hominídeos do que com a dos chimpanzés. Vista por trás, a caixa craniana é quase idêntica à de um chimpanzé, no formato e no tamanho. Vista de frente, é radicalmente diferente. A mandíbula superior não se projeta tanto para a frente quanto nos macacos, e sobrolhos bem marcados se pronunciam sobre a testa do animal, característica típica de espécies cerca de 5 milhões de anos mais recentes e ausente em outras espécies primitivas, como os australopitecos, como são chamados os hominídeos imediatamente anteriores ao surgimento do gênero Homo na escala evolucionária.

Do ponto de vista científico, Toumai é uma criatura paradoxal, que coloca em xeque o conceito de uma linha reta entre o macaco e o Homo sapiens, o homem moderno, que só existe na forma atual há 100 000 anos. Estimava-se que a separação entre as espécies dos ancestrais humanos e os que deram origem aos macacos modernos tivesse se dado quase 7 milhões de anos antes. As características de Toumai indicam que isso deve ter ocorrido pelo menos 1 milhão de anos antes. O princípio básico da evolução das espécies é que toda a vida descende com modificações de ancestrais comuns. A lógica desse raciocínio é que quanto mais recente for o fóssil mais parecido com o homem moderno ele será. Como se explica que Toumai tenha dentes mais modernos que muitos hominídeos que viveram milhões de anos depois dele? "Não há dúvida de que é um hominídeo, pois as características que encontramos não são comuns em ancestrais dos macacos", diz Michel Brunet, descobridor de Toumai. A descoberta também é excepcional por se tratar de um crânio completo. Há um lapso de 3,5 milhões de anos no que diz respeito a crânios completos de hominídeos. O Homem do Milênio (Orrorin tugenensis), encontrado no Quênia em 2000, de 6 milhões de anos, ou o etíope Ardipithecus ramidus, de 4,4 milhões de anos, só são conhecidos por fragmentos da mandíbula, dentes ou ossos das pernas.

O crânio de 7 milhões de anos aponta para dois caminhos que a paleoantropologia moderna deve seguir a partir de agora. O primeiro é a reavaliação da importância de ramos inteiros da escala evolutiva, como o dos australopitecos, tidos como os mais prováveis antepassados humanos. Desse grupo de animais faz parte Lucy, o mais festejado fóssil já conhecido. Descoberta pelo paleoantropólogo americano Donald Johanson, Lucy é um esqueleto quase completo e mostrou que homens-macaco de 3,6 milhões de anos podiam andar eretos. O crânio de Toumai tem características mais avançadas que o dos australopitecos, que são 3,5 milhões de anos mais novos que ele. Com isso, Lucy corre o risco de ser despejada de nossa árvore genealógica. O segundo caminho é aquele que indica a existência não de uma árvore mas de um arbusto na origem dos hominídeos. Ou seja, a profusão de fósseis reflete a existência de diversas espécies que deram origem a vários ramos evolutivos paralelos de homens-macaco.

"O achado confirma a teoria de que a árvore genealógica humana é na verdade um arbusto, com tantos galhos que provavelmente vai ser impossível traçar um só ramo das raízes até o topo", diz Bernard Wood, professor de antropologia da Universidade George Washington, nos Estados Unidos. "Será difícil provar que os humanos descendem diretamente dele. É possível que encontremos ainda mais criaturas com características humanas, de chimpanzé ou mesmo outras, tão misturadas quanto Toumai." O mesmo poderia ter acontecido na base da evolução. Das dezenove espécies de hominídeo já descritas, alguns especialistas acreditam que pelo menos oito já estão fora de nossa linha de evolução. "É uma evolução multilateral, em que a existência das espécies foi uma experiência de tentativa e erro", disse a VEJA Ian Tattersall, antropólogo do Museu Americano de História Natural, em Nova York. "Deve ter havido uma grande diversidade de espécies, e muita extinção também. Nós, Homo sapiens, os únicos que sobreviveram, fomos a exceção, e não a regra."

Atualmente, novas espécies descobertas não são mais automaticamente tratadas como ancestrais definitivos do homem, e sim como mais um ramo que se abre na árvore, uma "janela" que permite que os paleontólogos vejam um trecho da história da evolução do homem na Terra. A primeira dessas janelas foi aberta em 1924, pelo anatomista sul-africano Raymond Dart, que descobriu o crânio fóssil de um bebê. Ele o apelidou de Menino de Taung, numa referência a uma mina de extração de calcário na região do Transvaal, na África do Sul. O menino-macaco de Taung ganhou o nome científico de Australopithecus africanus. Estimou-se que a espécie tenha vivido 3 milhões de anos antes. A janela seguinte apareceu no leste da África, onde foi descoberta Lucy, o mais bem preservado esqueleto de um australopiteco, dessa vez da espécie afarensis. Lucy provou que esses nossos ancestrais ainda muito próximos dos macacos e com pouco mais de 1 metro de altura eram bípedes e andavam eretos como nós. A região do Vale do Grande Rift, que vai da Tanzânia à Etiópia, passando pelo Quênia, é a que produziu a maior diversidade de espécies. "Agora é a vez do Chade", diz Wood.

O crânio de Toumai estava a mais de 2 500 quilômetros dos outros fósseis com que rivaliza em idade, o Orrorin tugenensis, ou o Homem do Milênio, de 6 milhões de anos, e o Ardipithecus ramidus, de 4,4 milhões de anos. A mesma equipe que encontrou Toumai já havia descoberto em 1995 outro hominídeo na região, o Australopithecus bahrelghazali, identificado apenas por uma arcada dentária e que não chega nem aos pés em importância do achado atual. Pelo que se pode saber, Toumai era um macho do tamanho de um chimpanzé. Apesar de o encaixe de sua coluna no crânio indicar que ele era capaz de andar ereto, não se pode afirmar com certeza se ele era bípede. Na época em que Toumai viveu, o que hoje é um deserto era uma grande floresta com um lago de 400 000 quilômetros quadrados, quase do tamanho da França. Pelo que já se escavou da região, sabe-se que Toumai conviveu com pelo menos 42 espécies ancestrais de animais atuais. Foram esses fósseis que permitiram estimar a idade de Toumai em 7 milhões de anos, já que, pelas condições geológicas em que foram encontrados, não é possível datá-los por meios mais sofisticados. A solução foi comparar os ossos de animais que estavam perto do crânio e, daí, estimar sua idade.

Como se não fosse suficiente mexer com a escala de tempo e sacudir a árvore genealógica da humanidade, Toumai também embaralha as teorias dos paleoantropólogos sobre as razões pelas quais o homem começou a andar sobre duas pernas. Como a maioria das espécies anteriores foi encontrada em regiões de savana, imaginou-se que a falta de árvores para subir e a grama alta fizeram com que o homem se erguesse em suas pernas. Mesmo sem provas definitivas de que seja bípede, Toumai joga areia nessa tese, já que seu habitat misturava florestas, rios e pântanos. O novo hominídeo chama a atenção para uma área desprezada pelos paleontólogos. "Estamos baseando a linha evolucionária humana apenas no que achamos no leste e no sul da África. A descoberta nos fez ver que precisamos olhar em outros lugares", disse Daniel Lieberman, professor de antropologia de Harvard. Só assim vai ser possível descobrir quais espécies definitivamente merecem um lugar no álbum da família da humanidade e quais são apenas ramos secos de uma árvore genealógica extremamente complexa.

 

1924
O primeiro homem-macaco

O anatomista Raymond Dart descobriu na África do Sul o crânio de um filhote em que se misturavam características de símios e de humanos. Ele o apelidou de Menino de Taung e mais tarde lhe deu o nome científico Australopithecus africanus. A espécie viveu há 3 milhões de anos

1974
Lucy, a mais famosa das ossadas

O americano Donald Johanson inspirou-se na música Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles, para batizar o fóssil, descoberto na Etiópia. Pertencia a uma espécie de hominídeo, denominada Australopithecus afarensis, que já andava ereta há 3,5 milhões de anos. Mais tarde, encontraram-se pegadas desses hominídeos na Tanzânia

1984
O Menino de Turkana

Herdeiro de uma dinastia de paleontólogos, Richard Leakeyencontrou o mais completo esqueleto de um Homo erectus, de 1,6 milhão de anos. A ossada pertenceu a um menino de aproximadamente 12 anos

2000
O Homem do Milênio

Os pesquisadores Martin Pickford e Brigitte Senut descobriram o primeiro fóssil a ultrapassar a barreira dos 5 milhões de anos. Era o Homem do Milênio, ou Orrorin tugenensis, um hominídeo de 6 milhões de anos

 

   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS