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Edição 1 760 - 17 de julho de 2002
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Alerta às mulheres

Quatro milhões de brasileiras
fazem terapia de reposição
hormonal. E muitas delas
tomam um remédio condenado
por um estudo americano

Paula Beatriz Neiva

O maior estudo sobre terapia de reposição hormonal teve de ser interrompido três anos antes do previsto. A interrupção foi anunciada na semana passada por diretores do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, entidade responsável pelo trabalho. O motivo: os riscos corridos pelas pacientes ultrapassavam os limites de segurança. Constatou-se que as mulheres tratadas com comprimidos à base dos hormônios estrógeno e progesterona – vendidos no Brasil sob o nome de Premelle – mostravam-se mais suscetíveis a derrames, infarto do coração e câncer de mama. O aumento de casos dessas doenças no universo pesquisado superou pouco o número inicialmente esperado, mas ainda assim os médicos acharam a quantidade significativa. Os resultados da pesquisa deveriam ser publicados somente no fim do mês no Journal of the American Medical Association, a revista da Associação Médica Americana. Sua divulgação foi antecipada por causa da preocupação dos especialistas.

Iniciado em 1997, o estudo contou com a participação de mais de 16.000 mulheres, com idades entre 50 e 79 anos. O objetivo era investigar os efeitos do Prempro (nome comercial do Premelle nos Estados Unidos) na incidência de doenças cardiovasculares, osteoporose e câncer. Os pesquisadores concluíram que, além de eliminar os sintomas da menopausa, o tratamento ajuda a proteger os ossos e a prevenir o câncer de cólon. Tais benefícios, no entanto, não compensam os riscos. Em primeiro lugar, ao contrário do que se acreditava, os comprimidos não protegem o coração. Na quantidade presente no Premelle, a progesterona aumenta a constrição dos vasos sanguíneos e a quantidade de colesterol ruim no organismo. Esses fatores dificultam a circulação do sangue e, conseqüentemente, podem acarretar infartos, derrames e tromboses. Em segundo lugar, verificou-se que as doses elevadas de progesterona servem de alimento para os tumores malignos de mama.

A terapia de reposição hormonal é utilizada em larga escala desde meados dos anos 60. Tudo começou em 1966, quando o médico americano Robert Wilson lançou o livro Feminine Forever (Feminina para Sempre), em que fazia o elogio do estrógeno – "O hormônio capaz de manter a mulher jovem, saudável e atraente". Os especialistas, porém, não demoraram a perceber que o hormônio aumentava os índices de câncer de útero entre as suas usuárias. Com o avanço das pesquisas, o problema foi contornado com a associação de progesterona ou a utilização mais criteriosa de estrógenos – de acordo com o histórico de cada paciente. Atualmente, a terapia hormonal pode ser feita com três tipos de estrógeno, usados isoladamente, ou a partir da combinação deles com outros quatro tipos de progesterona. As combinações mais modernas têm dosagens de hormônios menores do que as do Premelle. Os efeitos de cada método dependem das quantidades e do tempo de uso. A reposição hormonal pode ser feita também por meio de adesivos transdérmicos, implantes e géis.


Ao longo de quase quatro décadas, empreendeu-se uma centena de estudos sobre os riscos e benefícios da terapia hormonal. Ora a reposição foi condenada, ora absolvida. A pesquisa interrompida pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos é a única que envolveu milhares de mulheres saudáveis e que contou com métodos de controle mais rígidos. Apesar de suas dimensões e seriedade, ela não coloca um ponto final na polêmica em torno do assunto. "A pesquisa abordou apenas uma entre as várias combinações de hormônios existentes", relativiza o ginecologista César Eduardo Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira do Climatério. Mas o alerta não deve ser subestimado. Nos Estados Unidos, o Prempro é uma das drogas de reposição hormonal mais utilizadas. No Brasil, o seu correspondente, o Premelle, é igualmente consumido em larga escala. Calcula-se que o remédio seja usado por 15% dos 4 milhões de brasileiras que fazem reposição.

   
 
   
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