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Gustavo
Franco
Globalização
e exportação
"A
produção industrial se torna essencialmente
um fenômeno internacional, e a forma cada vez
mais dominante de comércio exterior é a do
comércio entre empresas do mesmo grupo"
Ilustração Ale Setti
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A empresa multinacional (EMN), além de principal ator, é também
roteirista e produtor do processo de globalização. Para conseguir
um papel de destaque na economia mundial é preciso entender como
funcionam essas entidades e como o Brasil pode tirar proveito da dinâmica
de crescimento dessas companhias.
Em 2000, o investimento direto estrangeiro global atingiu 1,3 trilhão
de dólares, dos quais 240 bilhões vieram para a América
Latina e 33,5 bilhões, ou seja, 2,6% do total, para o Brasil. O
normal seria algo como 4%, igual ao peso da economia brasileira na economia
global.
O Centro de Empresas Transnacionais das Nações Unidas reporta
para 1999 a existência de 60.000 EMNs no controle de 800.000 filiais
mundo afora. Dentre estas, as 100 maiores tiveram em 1999 um faturamento
da ordem de 4,3 trilhões de dólares, sendo 2,1 trilhões
no exterior. Essas 100 empresas empregavam um total de 13,3 milhões
de pessoas, das quais aproximadamente 6 milhões fora do país
de origem.
Note-se que no fim dos anos 40 praticamente não existiam EMNs,
e em 1993 cerca de um terço do comércio mundial tinha lugar
entre empresas do mesmo grupo, e outro terço entre EMNs
e empresas não relacionadas. Portanto, se em 1993 dois terços
do comércio mundial eram conduzidos por EMNs, é legítimo
afirmar que uma porção dominante, se não a totalidade,
do crescimento do comércio internacional na segunda metade do século
XX foi gerada pelo advento das EMNs.
Note-se, ademais, que a natureza deste "novo" comércio estava e
está ligada à racionalização internacional
de atividades dentro das redes de EMNs. A linguagem mais utilizada
para descrever esse fenômeno é "globalização",
mas o mais correto seria usar, como é comum na academia, "produção
internacional", ou "produção internacionalizada", algo que
temos de entender melhor, pois não é muito consistente com
"substituir importações com vista à auto-suficiência",
um velho hábito nosso que resiste ao desuso.
A "produção internacional" se dá quando as EMNs fazem
uma transição de uma situação em que funcionam
como uma espécie de federação de filiais independentes
para outra em que a EMN assume uma identidade singular, essencialmente
internacional, em que o todo é maior que a soma das partes. Trata-se,
aí, de racionalização administrativa, financeira
e tecnológica, e não de destruir ou enfraquecer os Estados
nacionais ou os vínculos de origem das matrizes, como sugerem algumas
teorias conspiratórias. O fato é que a produção
industrial se torna essencialmente um fenômeno internacional, e
a forma cada vez mais dominante de comércio exterior é a
do comércio "intrafirma" (entre empresas do mesmo grupo).
A expressão desses fenômenos no Brasil é muito claramente
confirmada pelo Segundo Censo de Capitais Estrangeiros no Brasil recentemente
publicado. Das 11.404 empresas "estrangeiras" (com mais de 10% de participação
estrangeira) que responderam ao censo, 9.712 são controladas por
não residentes, ou seja, são verdadeiras EMNs.
Para o conjunto maior, de 11.404 empresas, as exportações
"intrafirma" vão de 9,1 bilhões de dólares em 1995
para 21 bilhões em 2000. Como as exportações totais
do Brasil cresceram 8,6 bilhões de dólares nesses anos,
segue-se que o crescimento das exportações "intrafirma"
das empresas estrangeiras, que foi de 11,9 bilhões, "explica" 138%
do crescimento das exportações brasileiras de 1995 a 2000.
As exportações brasileiras vinham crescendo 5,4% ao ano
no período 1995-1998 (em índices de quantidade), e daí
até maio de 2002, período de vigência do regime de
flutuação cambial, o crescimento médio anual foi
pouco menor que 7%. Muita gente achava que a desvalorização
cambial resolveria o problema, o que claramente não ocorreu. A
aceleração da taxa de crescimento das exportações
brasileiras passa por diversos temas que antigamente eram agrupados na
rubrica "custo Brasil" e também por uma reflexão, que nem
sequer teve início, sobre as EMNs em geral e sobre as exportações
"intrafirma" em particular.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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