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Edição 1 760 - 17 de julho de 2002
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Gustavo Franco

Globalização
e exportação

"A produção industrial se torna essencialmente
um fenômeno internacional, e a forma cada vez
mais dominante de comércio exterior é a do
comércio entre empresas do mesmo grupo"


Ilustração Ale Setti

A empresa multinacional (EMN), além de principal ator, é também roteirista e produtor do processo de globalização. Para conseguir um papel de destaque na economia mundial é preciso entender como funcionam essas entidades e como o Brasil pode tirar proveito da dinâmica de crescimento dessas companhias.

Em 2000, o investimento direto estrangeiro global atingiu 1,3 trilhão de dólares, dos quais 240 bilhões vieram para a América Latina e 33,5 bilhões, ou seja, 2,6% do total, para o Brasil. O normal seria algo como 4%, igual ao peso da economia brasileira na economia global.

O Centro de Empresas Transnacionais das Nações Unidas reporta para 1999 a existência de 60.000 EMNs no controle de 800.000 filiais mundo afora. Dentre estas, as 100 maiores tiveram em 1999 um faturamento da ordem de 4,3 trilhões de dólares, sendo 2,1 trilhões no exterior. Essas 100 empresas empregavam um total de 13,3 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 6 milhões fora do país de origem.

Note-se que no fim dos anos 40 praticamente não existiam EMNs, e em 1993 cerca de um terço do comércio mundial tinha lugar entre empresas do mesmo grupo, e outro terço entre EMNs e empresas não relacionadas. Portanto, se em 1993 dois terços do comércio mundial eram conduzidos por EMNs, é legítimo afirmar que uma porção dominante, se não a totalidade, do crescimento do comércio internacional na segunda metade do século XX foi gerada pelo advento das EMNs.

Note-se, ademais, que a natureza deste "novo" comércio estava e está ligada à racionalização internacional de atividades dentro das redes de EMNs. A linguagem mais utilizada para descrever esse fenômeno é "globalização", mas o mais correto seria usar, como é comum na academia, "produção internacional", ou "produção internacionalizada", algo que temos de entender melhor, pois não é muito consistente com "substituir importações com vista à auto-suficiência", um velho hábito nosso que resiste ao desuso.

A "produção internacional" se dá quando as EMNs fazem uma transição de uma situação em que funcionam como uma espécie de federação de filiais independentes para outra em que a EMN assume uma identidade singular, essencialmente internacional, em que o todo é maior que a soma das partes. Trata-se, aí, de racionalização administrativa, financeira e tecnológica, e não de destruir ou enfraquecer os Estados nacionais ou os vínculos de origem das matrizes, como sugerem algumas teorias conspiratórias. O fato é que a produção industrial se torna essencialmente um fenômeno internacional, e a forma cada vez mais dominante de comércio exterior é a do comércio "intrafirma" (entre empresas do mesmo grupo).

A expressão desses fenômenos no Brasil é muito claramente confirmada pelo Segundo Censo de Capitais Estrangeiros no Brasil recentemente publicado. Das 11.404 empresas "estrangeiras" (com mais de 10% de participação estrangeira) que responderam ao censo, 9.712 são controladas por não residentes, ou seja, são verdadeiras EMNs.

Para o conjunto maior, de 11.404 empresas, as exportações "intrafirma" vão de 9,1 bilhões de dólares em 1995 para 21 bilhões em 2000. Como as exportações totais do Brasil cresceram 8,6 bilhões de dólares nesses anos, segue-se que o crescimento das exportações "intrafirma" das empresas estrangeiras, que foi de 11,9 bilhões, "explica" 138% do crescimento das exportações brasileiras de 1995 a 2000.

As exportações brasileiras vinham crescendo 5,4% ao ano no período 1995-1998 (em índices de quantidade), e daí até maio de 2002, período de vigência do regime de flutuação cambial, o crescimento médio anual foi pouco menor que 7%. Muita gente achava que a desvalorização cambial resolveria o problema, o que claramente não ocorreu. A aceleração da taxa de crescimento das exportações brasileiras passa por diversos temas que antigamente eram agrupados na rubrica "custo Brasil" e também por uma reflexão, que nem sequer teve início, sobre as EMNs em geral e sobre as exportações "intrafirma" em particular.

 

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)

 

 
 
   
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