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Livros Detratores
e admiradores de Haroldo de Campos costumam
Um dos poetas brasileiros mais famosos da segunda metade do século XX, Haroldo de Campos (1929- 2003) mal começou a ser de fato lido. A amplitude e a variedade de sua crítica literária se combinaram com a quantidade e a qualidade de suas traduções para lhe eclipsar a produção original. Além disso, ele continua conhecido sobretudo como fundador, junto com seu irmão Augusto, Décio Pignatari e outros, do concretismo, movimento de vanguarda dos anos 50. Leitores ocasionais e, pior, não poucos profissionais reduzem-no apenas a isso: o criador de meia dúzia de epigramas visuais atribuídos não raro ao irmão (ou vice-versa). Nem falta quem chegue a sua poesia após estudar os antigos manifestos e, não achando ali realizadas as teses que esses defendiam, fique decepcionado ou perplexo. O poeta mesmo e seus companheiros ajudaram a turvar as águas, enfatizando quanto os distinguia da geração anterior, algo que, associado a décadas de querelas irrelevantes, produziu falsas oposições. Agora, contudo, são as afinidades que sobressaem, e, não obstante a provável discordância dos poetas em questão, tornou-se fácil constatar que, com Ferreira Gullar e José Paulo Paes, os concretistas formam a terceira geração do modernismo nacional.
O que chamará atenção neste volume póstumo é, sem dúvida, o que ele tem de menos notável: uma seção ("musa militante") dedicada à lira engajada. Gato escaldado desde os anos 60, quando a esquerda organizada e os populistas o denunciaram como formalista (um palavrão na época) e o isolaram, valendo-se da hegemonia que mantinham nos cadernos culturais, dá para entender que, nos anos 90, Haroldo, como a maioria dos escritores, cedesse ao patrulhamento e tentasse, aqui e ali, atacar os bichos-papões corriqueiros dos petistas e demais bem-pensantes Bush, o neoliberalismo (tanto faz o que isso fosse), a Guerra do Iraque etc. reservando a um genocida como Saddam Hussein o epíteto inócuo de "louquiloquente". O poeta nada tinha de George Orwell, e quem o conheceu sabe que a política não lhe ocupava o centro das atenções. Essa, aliás, como a história propriamente dita, resumia-se, para ele, a uma nota à margem da história literária. Independentemente de suas convicções, o que conta é que, nas cada vez mais totalitárias e homogêneas rodas intelectuais, qualquer desvio acarreta consequências imediatas, e até artistas apolíticos vivem sob suspeição. Os pontos altos de Entremilênios estão em outras partes, por exemplo, no Réquiem, homenagem ao finado escritor argentino Néstor Perlongher na qual, sequioso de dizer tudo, de todas as formas e ao mesmo tempo, Haroldo, quando obrigado a escolher entre dois sinônimos, opta por três ou mais e, em vez de cair na redundância, consegue, por meio de uma espécie de refração, potencializar-lhes os sentidos. O âmago da coletânea é a seção "circum-stâncias", com textos que evocam e materializam as belezas vistas ou recordadas de Veneza, Milão, Roma e até, na sua antibeldade ostensiva, de São Paulo. Já a seção "lendo a Ilíada", composta paralelamente à sua derradeira empreitada tradutória (o épico grego Ilíada, de Homero), talvez seja a mais tipicamente haroldiana na medida em que demonstra como materiais, ideias, recursos e imagens transitavam entre seus poemas, traduções, ensaios. Não é uma poesia fácil aquela que se encontra em Entremilênios. Para começar, insurgindo-se contra a tirania do coloquial, ela requer fluência em diversos níveis da língua e, no mínimo, um bom dicionário. Como a de seu principal mestre, o americano Ezra Pound, a poesia de Haroldo pressupõe certa familiaridade com um repertório literário e artístico. Sua sintaxe peculiar, elisões e inversões, transições abruptas, palavras montadas, desmontadas e remontadas, justaposições dissonantes e conclusões inesperadas não se entregam a leitores afobados, desatentos, preguiçosos. Se as dificuldades são muitas, entre as recompensas, também numerosas, está o prazer, crescente a cada releitura, de se embrenhar num universo que esbanja engenhosidade e desenvoltura verbal sem jamais prescindir da autoironia.
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