Guia
Dinheiro: oito erros
na educação dos filhos
Quando o assunto é
dinheiro, a grande influência
na vida de uma criança são seus pais.

Anna Paula Buchalla
abuchalla@abril.com.br
Ilustrações
Stefan
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"Mas a educação
financeira das crianças não se resume a ensiná-las
a poupar", diz a educadora Cássia DAquino.
"Elas precisam aprender também como gastar o seu
dinheiro." A cada fase da infância e da adolescência,
amplia-se a capacidade de compreender o valor das coisas e
planejar a vida financeira de curto, médio e longo
prazos. Não transmitir informações na
hora certa e da forma adequada significa aumentar o risco
de que o adulto tenha uma relação ruim com o
dinheiro. Psicólogos e educadores ouvidos por VEJA
elencaram os erros mais comuns cometidos pelos pais na educação
financeira dos filhos em várias faixas etárias.
De 5 a 7 anos
A capacidade de
entender questões relacionadas a dinheiro ainda é
pequena. A criança não está pronta para
controlar gastos nem para diferenciar o caro do barato
Os erros mais
comuns nessa fase
Situação
1: pôr o filho a par de todos os detalhes da situação
financeira da família quanto os pais ganham,
quanto custa cada coisa da casa, quais as dívidas
Por que os pais o fazem: acreditam que a criança
deve, desde cedo, conhecer a realidade financeira da família
para que entenda que é preciso economizar
Por que está errado: se os pais começam
a detalhar contas, gastos e dificuldades, as crianças
podem entender que custam muito caro à família
e ficar angustiadas. É comum que comecem a dizer que
não precisam de determinadas coisas um comportamento
que os pais acham "bonitinho" mas que, nessa faixa
etária, costuma ser sinal de ansiedade
A estratégia correta: a criança precisa
de exemplos práticos para começar a entender
o valor das coisas. Se a família vai viajar nas férias,
já é um bom começo pedir a ela que participe
das economias da casa naquele momento específico
Situação
2: esconder do filho dificuldades financeiras e sustentar,
com grande sacrifício, um padrão de vida irreal
Por que os pais o fazem: porque temem frustrar a criança
Por que está errado: isso dá à
criança uma visão distorcida das suas possibilidades.
No futuro, ela pode se tornar um adulto que faz qualquer coisa
para aparentar um poder aquisitivo que não tem
A estratégia correta: sempre que houver dificuldades
financeiras, a criança deve ser informada da verdade
e das providências tomadas: sem floreios nem excesso
de negatividade
De 8 a 12 anos
Nessa fase surgem
as primeiras comparações com a situação
financeira dos amigos. Roupas e acessórios de marca
passam a fazer parte da lista de vontades dos filhos, e é
comum que eles perguntem sobre as finanças dos pais.
Ainda não entendem situações complexas
como dívidas da família
Os erros mais
comuns nessa fase
Situação
1: abrir uma poupança para aplicar a mesada do
filho e impedi-lo de mexer nesse dinheiro
Por que os pais o fazem: porque acreditam que é
importante ensinar os filhos a poupar desde cedo
Por que está errado: parte do processo de aprender
a economizar dinheiro é saber como gastá-lo.
E isso inclui fazer escolhas e, eventualmente, arrepender-se
delas
A estratégia correta: até os 11 anos,
a melhor maneira de ensinar a poupar é estimular objetivos
de curto prazo. Um exemplo: se a criança quer comprar
figurinhas e precisa poupar 1 real por semana, ajude-a a economizar
usando o cofrinho. A partir dos 12 anos, a poupança
é uma opção, mas sem o uso do cartão
Situação
2: estabelecer valores para tarefas da casa como arrumar
o quarto ou ajudar a lavar a louça
Por que os pais o fazem: para estimular a criança
a fazer tarefas às quais não está acostumada
e ensinar-lhe o valor do trabalho
Por que está errado: atrelar um preço
ao que a criança faz transforma a relação
entre pai e filho em um negócio e isso diminui
a autoridade dos pais
A estratégia correta: antes dos 11 anos, vale
mostrar à criança que ela deve ajudar em casa
porque faz parte da família, e não pelo dinheiro.
A partir dessa idade, os pais podem "contratá-la"
para uma tarefa específica, como lavar o carro ou dar
banho no cachorro
Situação
3: dar dinheiro ao filho como forma de prêmio por
ter conseguido boas notas na escola
Por que os pais o fazem: para tentar manter o controle
sobre o desempenho escolar da criança
Por que está errado: prometer remuneração
para boas notas é mostrar à criança que
o importante é o resultado, e não o processo
de aprendizado
A estratégia correta: jamais ofereça
dinheiro como recompensa por um bom desempenho. Há
outras opções para gratificar o filho, como
fazer elogios ou mesmo levá-lo ao restaurante de que
gosta
De 13 a 17 anos
O adolescente já
tem alguma capacidade de compreensão, organização
e planejamento a médio prazo do uso do dinheiro. No
entanto, ainda tem dificuldade com o manejo a longo prazo
Os
erros mais comuns nessa fase
Situação
1: dar ao filho adolescente um cartão de crédito
Por que os pais o fazem: porque acham que os filhos
já têm maturidade suficiente para usá-lo
Por que está errado: o cartão de crédito
ensina somente a gastar e nunca a economizar. Isso solapa
o aprendizado da poupança, que é especialmente
importante na adolescência
A estratégia correta: o cartão só
deve ser introduzido a partir dos 18 anos e, ainda assim,
em uma conta conjunta com um dos pais. É a forma de
acompanhar de perto a relação do filho com os
gastos. Se o cartão for necessário antes dessa
idade, como no caso de viagem, é bom dar a ele primeiro
um cartão de débito. Fica mais fácil
controlar o que entra e o que sai
Situação
2: abrir uma conta para o filho e acompanhar o extrato
sem que ele saiba
Por que os pais o fazem: para manter algum controle
sobre a vida dos filhos
Por que está errado: depositar confiança
gradualmente no filho à medida que aumenta a sua capacidade
de organização financeira é um passo
fundamental na educação. Se ele se sente espionado,
a tendência é tentar burlar os mecanismos de
controle ou desafiar os pais
A estratégia correta: uma vez aberta a conta,
é preciso dar autonomia ao filho. Se ele gasta a mesada
muito rápido, algo pode estar errado, e aí,
sim, é bom investigar
De 18 a 21 anos
Ele já é
perfeitamente capaz de assumir sua vida financeira, fazer
escolhas e ser responsável por seus atos
O
erro mais comum nessa fase
Situação:
dar mesada ao filho com mais de 21 anos
Por que os pais o fazem: como os filhos estendem cada
vez mais a permanência na casa dos pais, muitos continuam
a tratá-los como dependentes, ainda que já sejam
maiores de idade e recebam o próprio salário
Por que está errado: o jovem não se sente
estimulado a trabalhar. Muitas vezes o salário é
inferior ao que recebia dos pais. Frustração
e acomodação no início da vida adulta
comprometem o amadurecimento
A estratégia correta: é importante que,
a partir do momento em que entra na faculdade e começa
a fazer um estágio, o filho assuma pequenas contas
ou despesas da família. Pode ser a própria conta
de celular, a gasolina do carro ou mesmo o pão que
compra todos os dias pela manhã