Comportamento
Pequeno Buda cai no mundo
Renúncia de
um escolhido como "reencarnação de um lama"
expõe a dura realidade das crianças nos mosteiros
do budismo tibetano

Carolina Romanini
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SEM SAUDADE
Osel Hita Torres aos 15
anos (à esq.), nos tempos
de mosteiro, e hoje (à dir.): "Eles me arrancaram
de meus pais e me colocaram num ambiente medieval" |
Mike
Segar/Reuters
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ASTRO CONVERTIDO
Richard Gere, com o Dalai
Lama:
o ator era o único estranho que
o pequeno Buda encontrava no mosteiro |
Quando o espanhol Osel Hita Torres tinha 4 anos, sua vida
tomou um rumo inesperado para uma criança. Filho de
pais que se converteram ao budismo tibetano na década
de 70, quando essa religião se popularizou no Ocidente
a bordo da geração paz e amor, ele foi apontado
como a reencarnação de Thubten Yeshe, um dos
lamas mais populares, morto fazia pouco. Os pais do menino
receberam a notícia como um presente dos céus,
e concordaram que ele fosse morar em um mosteiro em Dharamsala,
no norte da Índia, a fim de seguir os ensinamentos
do budismo tibetano. Nessa região localizam-se os domínios
do Dalai Lama, o líder espiritual tibetano, e também
a sede do governo do Tibete no exílio. Torres tornou-se
um pequeno Buda, como são chamados os meninos escolhidos
pelos monges para um dia ser investidos de lamas e ocupar
os postos superiores da hierarquia religiosa. Quem assistiu
ao filme O Pequeno Buda, de Bernardo Bertolucci, tem
uma ideia açucarada de como vivem as crianças
como ele. Ocorre que Torres, hoje com 24 anos, resolveu trilhar
um caminho oposto ao da iluminação e se tornou
uma tremenda dor de cabeça para os lamas e seus seguidores.
Há seis anos ele se afastou da vida monástica
e, nas últimas semanas, numa série de entrevistas
à imprensa europeia, explicou os motivos de seu gesto.
"Eles me arrancaram de minha família e me colocaram
num ambiente medieval no qual sofri muito", disse ao
jornal espanhol El Mundo. "Para mim, era como
viver uma mentira", declarou à revista Babylon,
também da Espanha.
Quando morava no
mosteiro, Torres quase não tinha contato com o mundo
exterior. Acordava às 6 da manhã e se dedicava
a decorar textos sacros durante todo o dia. Após deixar
a vida monástica, adotou visual moderninho e perambulou
pelo Canadá e pela Suíça. Por fim, rendeu-se
aos encantos de Hollywood e ingressou numa faculdade de cinema.
Recentemente, atuou como assistente de produção
num documentário sobre Israel. Diz não ter nenhuma
saudade dos tempos em que, no mosteiro, só cruzava
nos corredores com monges paramentados e com o ator Richard
Gere notório propagandista do budismo na versão
amenizada que faz sucesso entre as estrelas de Hollywood.
Os monges da Fundação para a Preservação
da Tradição Mahayana, entidade destinada a popularizar
o budismo no Ocidente, com mais de uma centena de centros
ao redor do mundo, não se dão por vencidos e
acreditam que um dia Torres voltará a ser um tulku
um mestre reencarnado.
Egberto
Nogueira/Imafoto Galeria
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O BRASILEIRO ESCOLHIDO
Lama Michel, que, segundo
os budistas, é um mestre reencarnado: meditação entre
as brincadeiras quando criança |
Reza a tradição que a escolha de um pequeno
Buda seja feita através das intuições
de um monge. A regra para reconhecer a pessoa reencarnada
é simples: os candidatos são submetidos a um
teste para ver se lembram da vida anterior. Isso pressupõe
que monges sejam dotados de uma visão mística
fora do comum. No mundo real, contou Torres, o que ocorre
são disputas renhidas entre os monges mais influentes
para impor seus próprios tulkus. Esses jovens
lamas herdam muita influência e grandes quantias em
dinheiro. No passado, as rixas entre os monges para promover
seus protegidos à condição de pequeno
Buda resultavam em brigas sangrentas. Hoje, há dois
brasileiros reconhecidos como tulkus, que atendem pelos
nomes tibetanos de Lama Michel e Segyu Choepel. Ambos optaram
pela vida monástica. Michel teve seu primeiro contato
com um monge aos 6 anos. Depois disso, fazia pausas para meditar
durante as brincadeiras com outras crianças. Aos 11
anos, demonstrou pela primeira vez interesse em morar num
mosteiro. Dois anos mais tarde, foi reconhecido tulku
durante uma viagem à Índia. Já Segyu
passou pelo catolicismo. Cursou engenharia antes de estudar
budismo tibetano nos Estados Unidos. Osel Hita Torres trilha
hoje o caminho oposto.