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Dragão do deserto

Os cabelos continuam os mesmos, mas Kadafi inova
com foto pendurada no peito e relativa moderação


Vilma Gryzinski

AGF SRL/Rex Features


Com dragonas, alamares e condecorações suficientes para vestir um pequeno exército, Muamar Kadafi ainda arrumou lugar na farda para inovações. Em visita à Itália, o Líder Fraternal e Guia da Revolução – tradução: ditador da Líbia – desceu do avião com uma foto em preto e branco pendurada no peito. Nela, um pedaço esquecido de história: cercado por figurões da época em que a Líbia era uma colônia italiana, aparece acorrentado o chefe da resistência à ocupação, Omar Mukhtar, no momento de sua prisão. Ele foi enforcado em 1931. Apesar da aura de ridículo em torno de tudo o que envolve o bizarro ditador, cada vez mais parecido com Michael Jackson, a homenagem foi merecida. Na Líbia, Mukhtar tornou-se o símbolo de uma luta cuja justiça é universalmente reconhecida – contra ocupantes estrangeiros, e ainda por cima da Itália fascista (ganhou o apelido de Leão do Deserto e foi mostrado em filme homônimo de 1981, interpretado pelo campeão cinematográfico dos tipos étnicos, o mexicano Anthony Quinn). Kadafi também levou na comitiva, além das guarda-costas bonitonas, um filho já octogenário de Mukhtar. Mas modulou as provocações. "Uma página do passado foi virada graças à coragem da Itália", disse, sobre a reconciliação. Kadafi continua tão ditador quanto sempre, fala as maiores barbaridades e carrega a mácula indelével do atentado do avião que explodiu sobre Lockerbie, com 270 mortos, mas negociou uma readmissão condicional na comunidade civilizada. Em comparação aos novos loucos do pedaço, e na medida do possível para um sujeito com seu histórico e seu physique du rôle, o dragão do deserto virou, imaginem, um relativo moderado.



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