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Crime O
levante dos laranjas A polícia
fecha o cerco ao contrabando e à pirataria na fronteira com o Paraguai
e os muambeiros reagem com violência  Rosana
Zakabi, de Foz do Iguaçu
Roberto
Setton
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O JOGO ENDURECEU
Operação da PF perto de Foz do Iguaçu, há três
semanas: em lugar dos sacoleiros, quadrilhas poderosas |
A Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Ciudad
del Este, no Paraguai, é o melhor retrato das dificuldades que o Brasil
enfrenta para controlar suas fronteiras. Desde os anos 80, a ponte é o
paraíso dos contrabandistas, que compram no lado paraguaio produtos piratas
ou importados para revendê-los no Brasil. Nos últimos meses, a Ponte
da Amizade tem periodicamente se transformado em praça de guerra. A cada
quinze dias, em média, a passagem é interditada por manifestantes
que ameaçam os funcionários da alfândega com pedaços
de paus e pedras. A maioria deles é de laranjas, como são chamados
os brasileiros contratados para cruzar a ponte diversas vezes por dia, levando
aos poucos cargas de muamba. Toda vez que completa um percurso entre a cidade
paraguaia e a brasileira, o laranja ganha 10 reais. Se ele levar a carga para
alguma cidade vizinha, o pagamento varia de 40 a 100 reais. Se tiver de transportá-la
até São Paulo ou Rio de Janeiro, a comissão pode passar de
1 000 reais. O protesto dos laranjas é contra o aumento da fiscalização
na ponte por agentes da Receita Federal, da Polícia Federal e da Polícia
Rodoviária. No ano passado, foram intensificadas as apreensões de
produtos piratas e aparelhos contrabandeados. As operações policiais
se estendem à Rodovia BR-277, que liga Foz do Iguaçu à cidade
de Cascavel, um trecho de 150 quilômetros por onde os ônibus lotados
de mercadorias tentam escapar da fiscalização.
Desde que as operações começaram, vários agentes vêm
recebendo ameaças e pelo menos dez sofreram represálias por parte
dos contrabandistas. Recentemente, o policial rodoviário Valdemir Alberto,
de 35 anos, levou um tiro de raspão na cabeça na cidade de Santa
Terezinha de Itaipu, a dez minutos de Foz do Iguaçu, quando escoltava dois
ônibus lotados de muamba para o pátio da Receita Federal. "Os muambeiros
simularam um acidente de ônibus, tivemos de parar e começou um tumulto",
conta ele. Alberto ficou um mês afastado do trabalho e diz que ainda sente
muito medo. "Cheguei a pensar em pedir transferência de posto, mas minha
família é daqui e não quero ficar longe dela", completa ele.
No fim de dezembro, um policial federal também levou um tiro de raspão
na cabeça quando apreendia oito ônibus durante uma blitz. "Com a
confusão, seis conseguiram fugir", conta o delegado-chefe da Polícia
Federal de Foz, Alessandro Liberato de Mattos, que também participou da
operação. Aurea
Cunha/Gazeta do Povo/AE
 | FORMIGAS
HUMANAS Brasileiros cruzam a Ponte da Amizade:
10 reais para levar a muamba até o lado brasileiro |
Os tumultos na Ponte da Amizade resultam em parte de uma mudança no perfil
da contravenção praticada naquele trecho de fronteira. A maior novidade
é o aumento impressionante no volume de produtos falsificados, ou piratas,
trazidos de Ciudad del Este. Calcula-se que, nos últimos três anos,
200 milhões de CDs musicais o principal produto no ranking da pirataria
tenham cruzado a Ponte da Amizade. No mesmo período, a venda de
CDs virgens na cidade paraguaia aumentou 300%. Segundo o Ministério da
Justiça, esses CDs são trazidos ao Brasil para ser gravados em estúdios
clandestinos. Não é à toa que, hoje, 52% do mercado brasileiro
de CDs musicais é pirata. Recentemente, os remédios também
entraram para a lista dos produtos mais falsificados no país. Em 2005,
a Receita Federal apreendeu mais de 150.000 caixas de medicamentos falsos, entre
eles antiinflamatórios, analgésicos e até comprimidos para
hipertensão. A segunda novidade
sobre o contrabando na Ponte da Amizade é que a figura folclórica
do sacoleiro, que vai a Ciudad del Este comprar pequenas quantidades de mercadoria
para vender aos vizinhos, praticamente desapareceu. Hoje, 90% dos negócios
são realizados por grandes contrabandistas, que pertencem a quadrilhas
internacionais do crime organizado e não têm medo de afrontar a polícia.
Além de produtos piratas, essas quadrilhas comercializam enormes quantidades
de produtos eletrônicos, em geral fabricados na China, que chegam ao Paraguai
com notas subfaturadas. Em Ciudad del Este, os produtos podem custar até
um quarto do que custam nas lojas brasileiras. Uma câmera digital Sony Cyber-shot
DSC-S80, de 4,1 megapixels, que no Brasil custa em média 1.300 reais, no
Paraguai sai por 450 reais. O turista que atravessa a ponte e compra uma dessas
câmeras não comete crime algum a cota de produtos com os quais
se pode cruzar a fronteira é de 300 dólares. Um único contrabandista
pode fazer passar pela ponte, levados em pequenos pacotes pelos laranjas, 200.000
dólares em mercadorias. No
ano passado, a Receita e a polícia apreenderam na Ponte da Amizade e adjacências
62 milhões de dólares em mercadorias, principalmente CDs e DVDs
piratas, produtos eletrônicos e de informática. A cifra representa
um aumento de 90% em relação ao que foi apreendido em 2004. A quantia
é pequena diante do total de 1,2 bilhão de dólares que o
contrabando movimenta na ponte todos os anos, mas foi o suficiente para desestabilizar
a vida dos moradores nas cidades próximas a Foz do Iguaçu, ao longo
da BR-277. Hotéis e restaurantes que ficam à beira da estrada sobrevivem
à custa dos laranjas e muambeiros mais graduados, que se hospedam e se
alimentam nesses estabelecimentos. "Se essas operações continuarem,
muitos terão de fechar", diz Josi Gabriel, gerente do hotel Tamburi, localizado
em Santa Terezinha de Itaipu. O hotel existe há vinte anos e seus principais
clientes são os contrabandistas. Em Matelândia, a menos de 100 quilômetros
de Foz, mais da metade dos 15.000 habitantes vive do comércio da muamba.
"Muitos alugam a própria casa para os contrabandistas guardarem as mercadorias",
diz Gilberto Buss, supervisor-geral de operações da Receita Federal.
Roberto
Setton
 | O
EFEITO REPRESSÃO Ione, de Matelândia:
"Quando a polícia age, a cidade fica sem dinheiro" |
"Aqui, todo mundo tem pelo menos um integrante da família
trabalhando entre Foz e Ciudad del Este", diz Ione Freire, cujo marido atua como
muambeiro, assim como duas irmãs e dois cunhados. "Quando as operações
policiais na ponte se intensificam, menos pessoas vão ao Paraguai, o dinheiro
fica curto e o movimento no comércio da cidade cai", diz Ione, dona de
um salão de beleza em Matelândia. Há menos de um mês,
policiais e contrabandistas entraram em conflito na cidade, interditando a rodovia.
Manifestantes colocaram fogo em pneus na pista, impedindo que os agentes levassem
um ônibus cheio de mercadorias. Os policiais reagiram com bombas de gás
lacrimogêneo, causando pânico entre os moradores. A maioria dos brasileiros
que atravessa a Ponte da Amizade diariamente para trabalhar como laranja vive
em Foz do Iguaçu. É uma forma de conseguir dinheiro fácil
na ilegalidade. "O grande problema em Foz não é a falta de postos
de trabalho, e sim de mão-de-obra qualificada", diz Wanderley Teixeira,
presidente da Associação Comercial e Industrial de Foz do Iguaçu.
"Transportar mercadoria na fronteira não exige muito esforço. Então,
a maioria não se preocupa em se especializar numa profissão. Se
a ponte fechasse, teríamos um sério problema de emprego aqui", observa.
Com o aumento da fiscalização,
muitos muambeiros deixaram de ir de ônibus até a fronteira. Os ônibus,
adaptados especialmente para transportar grande quantidade de mercadoria, geralmente
são estacionados nas cidadezinhas próximas a Foz, como Santa Terezinha
de Itaipu ou Céu Azul, e abastecidos em várias viagens de carro
ou van feitas pelos laranjas. Às vezes, segundo os laranjas, o esquema
inclui o pagamento de "caixinhas" aos policiais rodoviários nas estradas.
"A corrupção sempre esteve presente na região, mas estamos
trabalhando para que esse problema seja sanado", diz Antonio Bassani, inspetor-chefe
da Delegacia da Polícia Rodoviária Federal de Foz do Iguaçu.
Fiscalizar a bagagem de todo mundo que cruza a Ponte da Amizade seria impossível
ela recebe um fluxo diário de 30.000 pessoas. O controle é
feito por amostragem pelos quarenta agentes da Receita e da Polícia Federal
que atuam na fiscalização das 7 da manhã ao fim da tarde.
À noite e durante a madrugada apenas dois agentes permanecem em ação.
Neste ano, um novo posto de fiscalização será inaugurado.
Nele, os veículos serão obrigados a passar um de cada vez, como
ocorre nos pedágios das rodovias. Pode ser uma boa medida, mas, diante
do volume do contrabando na fronteira entre Foz do Iguaçu e Ciudad del
Este e dos recentes levantes dos laranjas, muito ainda precisa ser feito. Foto
Aurea Cunha/Gazeta do Povo/AE
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As queixas do hermano
O prefeito de Ciudad del Este, Javier Zacarías Irún,
acha que a Polícia Federal brasileira está jogando duro demais
no combate à turma da muamba
Roberto
Setton
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O
SENHOR APÓIA AS INVESTIDAS DO GOVERNO BRASILEIRO PARA REPRIMIR O CONTRABANDO?
O controle do governo brasileiro ultrapassa a legalidade e humilha os compatriotas
paraguaios. Para que tanta polícia em cima da Ponte da Amizade? Disseram-me
que os produtos que passam pela fronteira vindos do Paraguai alimentam apenas
7% do comércio informal no Brasil. Se eu fosse o governo brasileiro, iria
me preocupar com os outros 93%, e não com esses meros 7%.
O SENHOR QUER DIZER QUE APÓIA AS ATIVIDADES ILEGAIS
QUE OCORREM NA FRONTEIRA ENTRE OS DOIS PAÍSES? Não é
isso. Enviamos um documento ao Itamaraty propondo que a cota de compras em Ciudad
del Este suba para 3 000 dólares, caso a mercadoria seja comercializada
no Brasil. O limite atual, de 300 dólares, valeria apenas para compras
de turistas. Assim, todo mundo sairia ganhando.
O SENHOR ACREDITA QUE ESSA PROPOSTA SERÁ APROVADA?
Confio no presidente Lula, porque ele tem sentimentos, principalmente em relação
à classe trabalhadora. Dois países irmãos não podem
continuar nessa situação. O Brasil precisa ajudar o seu irmão
menor. Se não o fizer, as mercadorias vão continuar passando pela
fronteira da mesma forma. Afinal, quem pode controlar tantos quilômetros
de água, ar e terra? | | |