Edição 1956 . 17 de maio de 2006

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Crime
O levante dos laranjas

A polícia fecha o cerco ao contrabando
e à pirataria na fronteira com o Paraguai
e os muambeiros reagem com violência


Rosana Zakabi, de Foz do Iguaçu

 

Roberto Setton

O JOGO ENDURECEU
Operação da PF perto de Foz do Iguaçu, há três semanas: em lugar dos sacoleiros, quadrilhas poderosas

A Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Ciudad del Este, no Paraguai, é o melhor retrato das dificuldades que o Brasil enfrenta para controlar suas fronteiras. Desde os anos 80, a ponte é o paraíso dos contrabandistas, que compram no lado paraguaio produtos piratas ou importados para revendê-los no Brasil. Nos últimos meses, a Ponte da Amizade tem periodicamente se transformado em praça de guerra. A cada quinze dias, em média, a passagem é interditada por manifestantes que ameaçam os funcionários da alfândega com pedaços de paus e pedras. A maioria deles é de laranjas, como são chamados os brasileiros contratados para cruzar a ponte diversas vezes por dia, levando aos poucos cargas de muamba. Toda vez que completa um percurso entre a cidade paraguaia e a brasileira, o laranja ganha 10 reais. Se ele levar a carga para alguma cidade vizinha, o pagamento varia de 40 a 100 reais. Se tiver de transportá-la até São Paulo ou Rio de Janeiro, a comissão pode passar de 1 000 reais. O protesto dos laranjas é contra o aumento da fiscalização na ponte por agentes da Receita Federal, da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária. No ano passado, foram intensificadas as apreensões de produtos piratas e aparelhos contrabandeados. As operações policiais se estendem à Rodovia BR-277, que liga Foz do Iguaçu à cidade de Cascavel, um trecho de 150 quilômetros por onde os ônibus lotados de mercadorias tentam escapar da fiscalização.

Desde que as operações começaram, vários agentes vêm recebendo ameaças e pelo menos dez sofreram represálias por parte dos contrabandistas. Recentemente, o policial rodoviário Valdemir Alberto, de 35 anos, levou um tiro de raspão na cabeça na cidade de Santa Terezinha de Itaipu, a dez minutos de Foz do Iguaçu, quando escoltava dois ônibus lotados de muamba para o pátio da Receita Federal. "Os muambeiros simularam um acidente de ônibus, tivemos de parar e começou um tumulto", conta ele. Alberto ficou um mês afastado do trabalho e diz que ainda sente muito medo. "Cheguei a pensar em pedir transferência de posto, mas minha família é daqui e não quero ficar longe dela", completa ele. No fim de dezembro, um policial federal também levou um tiro de raspão na cabeça quando apreendia oito ônibus durante uma blitz. "Com a confusão, seis conseguiram fugir", conta o delegado-chefe da Polícia Federal de Foz, Alessandro Liberato de Mattos, que também participou da operação.

 

Aurea Cunha/Gazeta do Povo/AE
FORMIGAS HUMANAS
Brasileiros cruzam a Ponte da Amizade: 10 reais para levar a muamba até o lado brasileiro

Os tumultos na Ponte da Amizade resultam em parte de uma mudança no perfil da contravenção praticada naquele trecho de fronteira. A maior novidade é o aumento impressionante no volume de produtos falsificados, ou piratas, trazidos de Ciudad del Este. Calcula-se que, nos últimos três anos, 200 milhões de CDs musicais – o principal produto no ranking da pirataria – tenham cruzado a Ponte da Amizade. No mesmo período, a venda de CDs virgens na cidade paraguaia aumentou 300%. Segundo o Ministério da Justiça, esses CDs são trazidos ao Brasil para ser gravados em estúdios clandestinos. Não é à toa que, hoje, 52% do mercado brasileiro de CDs musicais é pirata. Recentemente, os remédios também entraram para a lista dos produtos mais falsificados no país. Em 2005, a Receita Federal apreendeu mais de 150.000 caixas de medicamentos falsos, entre eles antiinflamatórios, analgésicos e até comprimidos para hipertensão.

A segunda novidade sobre o contrabando na Ponte da Amizade é que a figura folclórica do sacoleiro, que vai a Ciudad del Este comprar pequenas quantidades de mercadoria para vender aos vizinhos, praticamente desapareceu. Hoje, 90% dos negócios são realizados por grandes contrabandistas, que pertencem a quadrilhas internacionais do crime organizado e não têm medo de afrontar a polícia. Além de produtos piratas, essas quadrilhas comercializam enormes quantidades de produtos eletrônicos, em geral fabricados na China, que chegam ao Paraguai com notas subfaturadas. Em Ciudad del Este, os produtos podem custar até um quarto do que custam nas lojas brasileiras. Uma câmera digital Sony Cyber-shot DSC-S80, de 4,1 megapixels, que no Brasil custa em média 1.300 reais, no Paraguai sai por 450 reais. O turista que atravessa a ponte e compra uma dessas câmeras não comete crime algum – a cota de produtos com os quais se pode cruzar a fronteira é de 300 dólares. Um único contrabandista pode fazer passar pela ponte, levados em pequenos pacotes pelos laranjas, 200.000 dólares em mercadorias.

No ano passado, a Receita e a polícia apreenderam na Ponte da Amizade e adjacências 62 milhões de dólares em mercadorias, principalmente CDs e DVDs piratas, produtos eletrônicos e de informática. A cifra representa um aumento de 90% em relação ao que foi apreendido em 2004. A quantia é pequena diante do total de 1,2 bilhão de dólares que o contrabando movimenta na ponte todos os anos, mas foi o suficiente para desestabilizar a vida dos moradores nas cidades próximas a Foz do Iguaçu, ao longo da BR-277. Hotéis e restaurantes que ficam à beira da estrada sobrevivem à custa dos laranjas e muambeiros mais graduados, que se hospedam e se alimentam nesses estabelecimentos. "Se essas operações continuarem, muitos terão de fechar", diz Josi Gabriel, gerente do hotel Tamburi, localizado em Santa Terezinha de Itaipu. O hotel existe há vinte anos e seus principais clientes são os contrabandistas. Em Matelândia, a menos de 100 quilômetros de Foz, mais da metade dos 15.000 habitantes vive do comércio da muamba. "Muitos alugam a própria casa para os contrabandistas guardarem as mercadorias", diz Gilberto Buss, supervisor-geral de operações da Receita Federal.

 

Roberto Setton
O EFEITO REPRESSÃO
Ione, de Matelândia: "Quando a polícia age, a cidade fica sem dinheiro"

"Aqui, todo mundo tem pelo menos um integrante da família trabalhando entre Foz e Ciudad del Este", diz Ione Freire, cujo marido atua como muambeiro, assim como duas irmãs e dois cunhados. "Quando as operações policiais na ponte se intensificam, menos pessoas vão ao Paraguai, o dinheiro fica curto e o movimento no comércio da cidade cai", diz Ione, dona de um salão de beleza em Matelândia. Há menos de um mês, policiais e contrabandistas entraram em conflito na cidade, interditando a rodovia. Manifestantes colocaram fogo em pneus na pista, impedindo que os agentes levassem um ônibus cheio de mercadorias. Os policiais reagiram com bombas de gás lacrimogêneo, causando pânico entre os moradores. A maioria dos brasileiros que atravessa a Ponte da Amizade diariamente para trabalhar como laranja vive em Foz do Iguaçu. É uma forma de conseguir dinheiro fácil na ilegalidade. "O grande problema em Foz não é a falta de postos de trabalho, e sim de mão-de-obra qualificada", diz Wanderley Teixeira, presidente da Associação Comercial e Industrial de Foz do Iguaçu. "Transportar mercadoria na fronteira não exige muito esforço. Então, a maioria não se preocupa em se especializar numa profissão. Se a ponte fechasse, teríamos um sério problema de emprego aqui", observa.

Com o aumento da fiscalização, muitos muambeiros deixaram de ir de ônibus até a fronteira. Os ônibus, adaptados especialmente para transportar grande quantidade de mercadoria, geralmente são estacionados nas cidadezinhas próximas a Foz, como Santa Terezinha de Itaipu ou Céu Azul, e abastecidos em várias viagens de carro ou van feitas pelos laranjas. Às vezes, segundo os laranjas, o esquema inclui o pagamento de "caixinhas" aos policiais rodoviários nas estradas. "A corrupção sempre esteve presente na região, mas estamos trabalhando para que esse problema seja sanado", diz Antonio Bassani, inspetor-chefe da Delegacia da Polícia Rodoviária Federal de Foz do Iguaçu. Fiscalizar a bagagem de todo mundo que cruza a Ponte da Amizade seria impossível – ela recebe um fluxo diário de 30.000 pessoas. O controle é feito por amostragem pelos quarenta agentes da Receita e da Polícia Federal que atuam na fiscalização das 7 da manhã ao fim da tarde. À noite e durante a madrugada apenas dois agentes permanecem em ação. Neste ano, um novo posto de fiscalização será inaugurado. Nele, os veículos serão obrigados a passar um de cada vez, como ocorre nos pedágios das rodovias. Pode ser uma boa medida, mas, diante do volume do contrabando na fronteira entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este e dos recentes levantes dos laranjas, muito ainda precisa ser feito.

 

Foto Aurea Cunha/Gazeta do Povo/AE

 

As queixas do hermano

O prefeito de Ciudad del Este, Javier Zacarías Irún,
acha que a Polícia Federal brasileira está jogando duro
demais no combate à turma da muamba
 


Roberto Setton


O SENHOR APÓIA AS INVESTIDAS DO GOVERNO BRASILEIRO PARA REPRIMIR O CONTRABANDO?

O controle do governo brasileiro ultrapassa a legalidade e humilha os compatriotas paraguaios. Para que tanta polícia em cima da Ponte da Amizade? Disseram-me que os produtos que passam pela fronteira vindos do Paraguai alimentam apenas 7% do comércio informal no Brasil. Se eu fosse o governo brasileiro, iria me preocupar com os outros 93%, e não com esses meros 7%.  

O SENHOR QUER DIZER QUE APÓIA AS ATIVIDADES ILEGAIS QUE OCORREM NA FRONTEIRA ENTRE OS DOIS PAÍSES?
Não é isso. Enviamos um documento ao Itamaraty propondo que a cota de compras em Ciudad del Este suba para 3 000 dólares, caso a mercadoria seja comercializada no Brasil. O limite atual, de 300 dólares, valeria apenas para compras de turistas. Assim, todo mundo sairia ganhando.  

O SENHOR ACREDITA QUE ESSA PROPOSTA SERÁ APROVADA?
Confio no presidente Lula, porque ele tem sentimentos, principalmente em relação à classe trabalhadora. Dois países irmãos não podem continuar nessa situação. O Brasil precisa ajudar o seu irmão menor. Se não o fizer, as mercadorias vão continuar passando pela fronteira da mesma forma. Afinal, quem pode controlar tantos quilômetros de água, ar e terra?

 
 
 
 
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