Edição 1956 . 17 de maio de 2006

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Arqueologia
Perigo nas cavernas

Um fungo ameaça as pinturas
pré-históricas de Lascaux, na França


Renata Leão

 
Bertrand Rieger/AFP
A arte rupestre de Lascaux: animais já extintos entre as imagens feitas pelo homem de Cro-Magnon

Apelidado de Capela Sistina da pré-história, o complexo de cavernas de Lascaux, no sul da França, abriga o mais famoso conjunto de arte rupestre do mundo. Nas paredes de suas sete galerias, pinturas feitas com óxido de ferro, carvão ou calcário há 17.000 anos mostram touros monumentais de 4 metros de comprimento, já extintos, cavalos e renas. Os animais são retratados num estilo surpreendentemente parecido com o dos modernistas do início do século XX, o que fez o pintor Pablo Picasso exclamar, ao entrar nas grutas: "Nós não inventamos nada". Esse tesouro da humanidade está agora correndo perigo. Um fungo se espalha rapidamente pelo chão e pelas paredes das galerias, cobrindo-as de tufos de mofo branco semelhante à neve, e até agora os responsáveis pela manutenção de Lascaux não conseguiram uma solução para deter seu avanço. O fungo, chamado Fusarium solani, é tão agressivo e resistente que, quando surge em plantações, obriga os fazendeiros a queimá-las sumariamente.

Há várias teorias para explicar como o fungo chegou a Lascaux, mas todas passam por uma manobra desastrada feita em 2001: a instalação de um novo sistema de refrigeração destinado a manter a temperatura e umidade ideais para a conservação dos afrescos. O antigo utilizava as correntes naturais que passam pelas cavernas. O sistema instalado em 2001, contrariando a recomendação de muitos arqueólogos, usava ventiladores poderosos, como num escritório moderno. Já no fim daquele ano o fungo começou a brotar do chão e os ventiladores foram desligados, mas não adiantou – a bactéria inimiga continuou a avançar. Há quem sustente que o fungo pode ter sido introduzido nas cavernas através da chuva e da lama, quando o telhado instalado na entrada do complexo foi removido para a instalação do ar condicionado. Por fim, existe a hipótese de o fungo ter sido introduzido nas galerias por meio das botas dos operários encarregados de instalar o aparelho, que não observavam a exigência de desinfetar os calçados antes de entrar no local. Desde 1963, o complexo de Lascaux está fechado à visitação. Na época, notou-se que a presença dos 1.700 visitantes diários ameaçava as pinturas por aumentar a temperatura nas cavernas e expô-las ao dióxido de carbono resultante de sua respiração.

Descobertas por acaso em 1940, por quatro adolescentes, as cavernas de Lascaux são um testemunho inestimável da vida do homem de Cro-Magnon, como é chamado o Homo sapiens daquele período próximo ao fim da última era glacial. As pinturas retratam os animais caçados por eles, e talvez também tivessem funções místicas – agradecer à divindade provedora da caça ou trazer boa sorte para os caçadores. O desaparecimento dessas imagens deixaria a história da humanidade mais pobre.

 

 
 
 
 
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