Edição 1956 . 17 de maio de 2006

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Economia e Negócios
Uma janela única para o Brasil


Giuliano Guandalini

 

Divulgação

"Os chineses estão fazendo todo o possível para crescer. A Índia seguiu na mesma direção. Falta agora o Brasil fazer o mesmo."

O Brasil está diante de uma janela de oportunidade única para voltar a crescer rapidamente e aumentar sua renda per capita. Quem faz a análise é o britânico Ian Davis, diretor mundial da McKinsey, uma das mais respeitadas consultorias internacionais. Entre as especialidades de Davis e sua equipe está identificar entraves ao crescimento e ao avanço da produtividade. "Não há por que o Brasil não crescer 5% ou 6% ao ano", diz ele. Para Davis, as barreiras que impedem o desenvolvimento do país, como o baixo investimento em infra-estrutura e a informalidade pandêmica, já foram identificadas. Falta agora agir e removê-las. Em conversa com VEJA, o economista comentou os motivos do sucesso da China e da Índia e ofereceu saídas para o Brasil deixar a lanterninha.

POR QUE O BRASIL FICOU PARA TRÁS DA CHINA E DA ÍNDIA EM TERMOS DE CRESCIMENTO?
Houve um tremendo progresso no Brasil nos últimos anos, sobretudo no setor privado. Mas o país não conseguiu aumentar a produtividade. Isso se deveu, principalmente, à informalidade. Existem também outras barreiras, como a má qualidade das legislações e dos serviços públicos e a falta de investimentos em infra-estrutura. Cinco anos atrás, todos estavam falando sobre os países do Bric, Brasil, Rússia, Índia e China. Agora todo mundo só quer saber da China e da Índia. A comparação com o Brasil não é particularmente favorável. Por que isso aconteceu? Na China havia enorme necessidade política de acelerar o crescimento econômico, por causa da pobreza, sobretudo no campo. No Brasil parece não haver essa compulsão. Os chineses estão fazendo todo o possível para ampliar a produtividade industrial. A Índia foi mordida pelo sucesso chinês e seguiu na mesma direção. Os níveis de investimento na China e na Índia, tanto públicos como privados, são superiores aos do Brasil, especialmente em infra-estrutura.  

COMO O BRASIL PODE RECUPERAR O TERRENO PERDIDO?
Em primeiro lugar, o governo tem de poupar mais. O segundo ponto é melhorar as legislações. Os investimentos estrangeiros são altamente dependentes da confiabilidade nas regulamentações. É preciso haver a segurança de que o dinheiro investido será recuperado, caso algo dê errado. Outro ponto é tornar os investimentos mais produtivos. Aí voltamos às velhas questões da necessidade de investir em educação e infra-estrutura. Também é importante a atitude do país em relação aos negócios, ao ambiente empresarial, o que é um motor de estímulo à produtividade. Na China e na Índia, os empresários têm status elevado. Os chineses se orgulham de suas empresas de nível internacional, de ver suas escolas de administração de empresas entre as melhores do mundo. Eles sabem que competirão internacionalmente. No Brasil, o papel das empresas no desenvolvimento não parece ser valorizado da mesma maneira.  

NA ÍNDIA, ATÉ POUCO TEMPO ATRÁS, O SUCESSO FINANCEIRO NÃO ERA BEM-VISTO. O QUE MUDOU?
Os indianos querem competir. Não sei se o Brasil deseja competir. Outro ponto é a pobreza, que não pode ser subestimada. Um terceiro aspecto é o grande número de estudantes talentosos que foram para os Estados Unidos e se deram bem nos negócios. Muitos voltaram para a Índia e são respeitados como celebridades. Os indianos invejam o sucesso deles, algo que não ocorria havia vinte anos. E, finalmente, a Índia está se transformando em uma sociedade de consumo. Mas penso que, curiosamente, o impulso para essa transformação foi a China.

A CHINA E A ÍNDIA CONSEGUIRÃO MANTER O ATUAL RITMO?
Para os próximos vinte anos, as perspectivas são de um crescimento em torno de 7% a 8% ao ano. Mas isso dependerá de questões ambientais e do acesso desses países a insumos e matérias-primas. Se voltarmos na história, há sessenta anos a Europa crescia 12%, 15% ao ano, no auge da industrialização. Isso é comum quando um país deixa de ser rural e se industrializa. O Brasil parou de crescer por causa de uma crise no setor externo, atingido pela crise do petróleo. É um problema que não ameaça a China, que dispõe de uma grande poupança interna.  

O GOVERNO BRASILEIRO GASTA MUITO E MAL. COMO MUDAR ESSE QUADRO?
Seria melhor se mais recursos fossem para a educação e a infra-estrutura e menos para a Previdência Social. Na última década, várias organizações públicas ao redor do mundo, como escolas e serviços de saúde, conseguiram obter expressivos ganhos em eficiência. O estado de Illinois, nos Estados Unidos, unificou seis departamentos em um único, poupando recursos para investir em outras áreas. Fazendo licitações estratégicas, escolas americanas conseguiram economizar entre 10% e 35% em despesas como alimentação, serviço de limpeza, livros didáticos e transportes.  

QUAIS OS RISCOS DA ONDA POPULISTA NA AMÉRICA LATINA?
Essa é uma questão que ainda busco compreender melhor. Na maioria das vezes, esses presidentes populistas acabam sendo pragmáticos na condução econômica. O populismo se restringe mais ao campo político. As pessoas estarão de olho no que acontecerá na Venezuela, na Bolívia e no Peru. Mas hoje os mercados estão mais sofisticados, sabem diferenciar os países. Os investidores europeus e americanos vêem hoje um risco político baixo para o Brasil.

EXISTE NO HORIZONTE ALGUMA AMEAÇA PARA A ECONOMIA MUNDIAL?
Não vejo nenhuma crise à vista. O que surpreende é o baixo impacto, até o momento, da alta nos preços do petróleo. Cedo ou tarde haverá algum impacto. Isso pode afetar o nível de consumo dos Estados Unidos, o que seria má notícia para a economia global. Mas não prevejo nenhum desastre. E aqui reside a janela de oportunidade para o Brasil. O país tem talentos, recursos e estabilidade política. Não há por que o país não crescer 5% ou 6% ao ano. Uma característica que me deixa otimista é o perfil demográfico brasileiro, que será bastante favorável nos próximos vinte anos. Isso permitirá a elevação da renda per capita. Haverá uma grande quantidade de pessoas em idade produtiva. Além disso, o cenário internacional deverá permanecer favorável. Os problemas já foram identificados. Falta agora transformar todo esse potencial em desenvolvimento. Esse é o desafio.

 
 
 
 
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