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Economia e
Negócios Uma janela única para o
Brasil  Giuliano
Guandalini
Divulgação
 | "Os
chineses estão fazendo todo o possível para crescer. A Índia
seguiu na mesma direção. Falta agora o Brasil fazer o mesmo." |
| O Brasil está
diante de uma janela de oportunidade única para voltar a crescer rapidamente
e aumentar sua renda per capita. Quem faz a análise é o britânico
Ian Davis, diretor mundial da McKinsey, uma das mais respeitadas consultorias
internacionais. Entre as especialidades de Davis e sua equipe está identificar
entraves ao crescimento e ao avanço da produtividade. "Não há
por que o Brasil não crescer 5% ou 6% ao ano", diz ele. Para Davis, as
barreiras que impedem o desenvolvimento do país, como o baixo investimento
em infra-estrutura e a informalidade pandêmica, já foram identificadas.
Falta agora agir e removê-las. Em conversa com VEJA, o economista comentou
os motivos do sucesso da China e da Índia e ofereceu saídas para
o Brasil deixar a lanterninha. POR
QUE O BRASIL FICOU PARA TRÁS DA CHINA E DA ÍNDIA EM TERMOS DE CRESCIMENTO?
Houve um tremendo progresso no Brasil nos últimos anos, sobretudo no setor
privado. Mas o país não conseguiu aumentar a produtividade. Isso
se deveu, principalmente, à informalidade. Existem também outras
barreiras, como a má qualidade das legislações e dos serviços
públicos e a falta de investimentos em infra-estrutura. Cinco anos atrás,
todos estavam falando sobre os países do Bric, Brasil, Rússia, Índia
e China. Agora todo mundo só quer saber da China e da Índia. A comparação
com o Brasil não é particularmente favorável. Por que isso
aconteceu? Na China havia enorme necessidade política de acelerar o crescimento
econômico, por causa da pobreza, sobretudo no campo. No Brasil parece não
haver essa compulsão. Os chineses estão fazendo todo o possível
para ampliar a produtividade industrial. A Índia foi mordida pelo sucesso
chinês e seguiu na mesma direção. Os níveis de investimento
na China e na Índia, tanto públicos como privados, são superiores
aos do Brasil, especialmente em infra-estrutura.
COMO O BRASIL PODE RECUPERAR O TERRENO PERDIDO?
Em primeiro lugar, o governo tem de poupar mais. O segundo ponto é melhorar
as legislações. Os investimentos estrangeiros são altamente
dependentes da confiabilidade nas regulamentações. É preciso
haver a segurança de que o dinheiro investido será recuperado, caso
algo dê errado. Outro ponto é tornar os investimentos mais produtivos.
Aí voltamos às velhas questões da necessidade de investir
em educação e infra-estrutura. Também é importante
a atitude do país em relação aos negócios, ao ambiente
empresarial, o que é um motor de estímulo à produtividade.
Na China e na Índia, os empresários têm status elevado. Os
chineses se orgulham de suas empresas de nível internacional, de ver suas
escolas de administração de empresas entre as melhores do mundo.
Eles sabem que competirão internacionalmente. No Brasil, o papel das empresas
no desenvolvimento não parece ser valorizado da mesma maneira.
NA ÍNDIA, ATÉ POUCO
TEMPO ATRÁS, O SUCESSO FINANCEIRO NÃO ERA BEM-VISTO. O QUE MUDOU?
Os indianos querem competir. Não sei se o Brasil deseja competir. Outro
ponto é a pobreza, que não pode ser subestimada. Um terceiro aspecto
é o grande número de estudantes talentosos que foram para os Estados
Unidos e se deram bem nos negócios. Muitos voltaram para a Índia
e são respeitados como celebridades. Os indianos invejam o sucesso deles,
algo que não ocorria havia vinte anos. E, finalmente, a Índia está
se transformando em uma sociedade de consumo. Mas penso que, curiosamente, o impulso
para essa transformação foi a China. A
CHINA E A ÍNDIA CONSEGUIRÃO MANTER O ATUAL RITMO? Para os
próximos vinte anos, as perspectivas são de um crescimento em torno
de 7% a 8% ao ano. Mas isso dependerá de questões ambientais e do
acesso desses países a insumos e matérias-primas. Se voltarmos na
história, há sessenta anos a Europa crescia 12%, 15% ao ano, no
auge da industrialização. Isso é comum quando um país
deixa de ser rural e se industrializa. O Brasil parou de crescer por causa de
uma crise no setor externo, atingido pela crise do petróleo. É um
problema que não ameaça a China, que dispõe de uma grande
poupança interna. O
GOVERNO BRASILEIRO GASTA MUITO E MAL. COMO MUDAR ESSE QUADRO? Seria melhor
se mais recursos fossem para a educação e a infra-estrutura e menos
para a Previdência Social. Na última década, várias
organizações públicas ao redor do mundo, como escolas e serviços
de saúde, conseguiram obter expressivos ganhos em eficiência. O estado
de Illinois, nos Estados Unidos, unificou seis departamentos em um único,
poupando recursos para investir em outras áreas. Fazendo licitações
estratégicas, escolas americanas conseguiram economizar entre 10% e 35%
em despesas como alimentação, serviço de limpeza, livros
didáticos e transportes. QUAIS
OS RISCOS DA ONDA POPULISTA NA AMÉRICA LATINA? Essa é uma
questão que ainda busco compreender melhor. Na maioria das vezes, esses
presidentes populistas acabam sendo pragmáticos na condução
econômica. O populismo se restringe mais ao campo político. As pessoas
estarão de olho no que acontecerá na Venezuela, na Bolívia
e no Peru. Mas hoje os mercados estão mais sofisticados, sabem diferenciar
os países. Os investidores europeus e americanos vêem hoje um risco
político baixo para o Brasil. EXISTE
NO HORIZONTE ALGUMA AMEAÇA PARA A ECONOMIA MUNDIAL? Não
vejo nenhuma crise à vista. O que surpreende é o baixo impacto,
até o momento, da alta nos preços do petróleo. Cedo ou tarde
haverá algum impacto. Isso pode afetar o nível de consumo dos Estados
Unidos, o que seria má notícia para a economia global. Mas não
prevejo nenhum desastre. E aqui reside a janela de oportunidade para o Brasil.
O país tem talentos, recursos e estabilidade política. Não
há por que o país não crescer 5% ou 6% ao ano. Uma característica
que me deixa otimista é o perfil demográfico brasileiro, que será
bastante favorável nos próximos vinte anos. Isso permitirá
a elevação da renda per capita. Haverá uma grande quantidade
de pessoas em idade produtiva. Além disso, o cenário internacional
deverá permanecer favorável. Os problemas já foram identificados.
Falta agora transformar todo esse potencial em desenvolvimento. Esse é
o desafio. |