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Internacional Roubou
e quer dar lição de moral
Depois de se apossar do patrimônio brasileiro, Morales passa a tratar
o Brasil como inimigo  Diogo
Schelp
Virginia
Mayo/AP
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BANDOLEIRO DOS ANDES O
presidente boliviano em Viena, na Áustria: palco para bravatas |
Como primeiro ato de hostilidade, Evo Morales roubou o patrimônio dos
brasileiros investido na Bolívia e colocou em risco o abastecimento nacional
de gás natural. Depois, encorajado pela docilidade com que o governo Lula
engoliu o desaforo, ele se pôs a dar lição de moral ao Brasil.
Na semana passada, aproveitando as atenções internacionais na Cúpula
União Européia-América Latina, na Áustria, o presidente
boliviano dedicou-se a bater no país de seu "mui amigo" Luiz Inácio
Lula da Silva. A concepção de Morales das relações
bilaterais, expressa de viva voz, é um fascinante exemplo da irresponsabilidade
populista, do poder da fantasia ideológica e da cara-de-pau. O que diz
Evo Morales é o seguinte: o Brasil saqueou os recursos de seu país.
A Petrobras, que investiu 1,5 bilhão de dólares e viabilizou a extração
do gás natural boliviano, opera ilegalmente, sonega impostos e faz contrabando.
Vários países ajudaram a Bolívia (Cuba e Venezuela, por exemplo),
mas o Brasil não está entre eles. O presidente boliviano, que já
expulsou uma siderúrgica brasileira, agora anuncia que vai tomar as terras
dos agricultores brasileiros instalados na Bolívia, alguns deles há
trinta anos. Sua reforma agrária vai começar precisamente pelas
terras dos fazendeiros brasileiros, responsáveis pela produção
de um terço da produção de soja boliviana.
Morales também resgatou do fundo de seu baú de ressentimentos a
venda pelos bolivianos do território do atual estado do Acre. O negócio
ocorreu há mais de um século, e o Brasil pagou 2 milhões
de libras esterlinas e ainda deu à Bolívia terras tiradas ao Mato
Grosso. Na versão propagandista de Morales, tudo o que os bolivianos levaram
no negócio foi "um cavalo". "Nunca, desde que definiu suas fronteiras com
os países vizinhos, o Brasil foi tão desmoralizado no exterior",
diz o diplomata José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro
de Relações Internacionais, no Rio de Janeiro. Morales vai invadir
o Acre como fez com as refinarias da Petrobras? É improvável, visto
que as forças armadas bolivianas não dariam conta da empreitada.
O Acre provavelmente se converterá em outra bandeira populista de seu governo,
ao lado da rivalidade com o Chile devida à derrota boliviana numa guerra
do século XIX. O roubo de propriedade brasileira e o discurso populista
são passos decisivos que Morales dá para empobrecer o povo boliviano.
Como a experiência ensina, a riqueza confiscada pelo Estado não será
distribuída entre os bolivianos, mas alimentará o empreguismo e
premiará apenas os amigos do regime. Interessa ao Brasil que a Bolívia
reduza a pavorosa cifra de 67% de miseráveis. Há para isso razões
humanitárias e a preocupação para com a estabilidade sul-americana.
Mas existe também a vontade honesta de ampliar o mercado para as exportações
brasileiras. Ao desapropriar empresas que colaboravam no desenvolvimento e isolar
seu país da economia global, Morales só aprofunda a miséria
de seu povo. Se a China é hoje um parceiro comercial de nível internacional,
isso se deve às reformas econômicas, à abertura de mercado
e à atração de investimentos estrangeiros que conseguiram
resgatar da miséria mais de 300 milhões de chineses. Morales planeja
fazer o oposto do que fez a China. Amanecer
Tedesqui/AP
 | Michel
Filho/Ag. O Globo
 | NA
BOLÍVIA, BELEZA NÃO É FUNDAMENTAL Soldados
patrulham instalações da Petrobras Bolivia, acima, e o ministro
Soliz, ao lado, em momento introspectivo |
É difícil para um país soberano aceitar
pacificamente tal intensidade de desaforos nem o chanceler Celso Amorim
agüentou. Primeiro declarou-se "desconfortável" com as indelicadezas
dos vizinhos e reclamou da ingerência venezuelana na Bolívia (Chávez
respondeu, por escrito, que o comentário se devia "à ignorância
dos nossos amigos brasileiros"). O chanceler então subiu o tom e passou
a "indignado". Por fim, Amorim ameaça retirar o apoio do Brasil ao projeto
de um gasoduto ligando a Venezuela à Argentina, uma idéia de Chávez.
Uma reação tardia, pois o ministro de Hidrocarbonetos da Bolívia,
Andrés Soliz Rada, o "Boca de Poço", já tinha avisado que
a Petrobras não poderia participar do gasoduto. Na visão dele, porque
não serão aceitas empresas de propriedade de multinacionais. Veja
com quem se está lidando: o governo de Morales é tão despreparado
que o ministro de Hidrocarbonetos não sabe que a Petrobras, empresa que
acabou de roubar, é uma estatal, com participação minoritária
de capital privado. Se faltava um
fecho para configurar o efeito desastroso da política externa do governo
Lula, aí está a Bolívia: Morales e seus ministros demonstram
estar convencidos de que não há riscos em tripudiar sobre o Brasil.
"A Petrobras tem mais medo de sair da Bolívia do que nós de perdê-la",
disse o ministro Boca de Poço. Morales está elevando a temperatura
da crise como parte de uma estratégia de se tornar um novo Chávez.
"A maneira como o presidente da Bolívia está seguindo o modelo de
seu colega venezuelano é uma prova contundente da influência de Chávez
sobre Morales", disse a VEJA o venezuelano Alfredo Ramos Jiménez, da Universidade
de Los Andes, em Caracas. Fiel à cartilha de Chávez, o primeiro
passo de Morales foi se apresentar como vingador das injustiças históricas
da Bolívia. Em seguida, ele escolheu um inimigo externo o Brasil
e, em um gesto espalhafatoso, com mobilização de tropas,
tomou as propriedades da Petrobras. O terceiro passo do governante boliviano será
usar a popularidade conquistada com a nacionalização para, na eleição
de 2 de julho, formar uma Assembléia Constituinte monocromática
e sem oposição. O objetivo é "refundar" a Bolívia
com uma nova Constituição que lhe permita concentrar poder, da forma
como Chávez fez na Venezuela.
Evariso
Sa/AFP
 | UM
CHANCELER "INCOMODADO" Celso Amorim: reação
tardia, fraca e inútil |
O governo boliviano parece confiar na promessa feita por Chávez de
que a Venezuela poderá compensar os investimentos brasileiros que deixarem
o país. O problema dessa estratégia é que, ao se aliar com
Chávez, Morales chutou os principais parceiros comerciais de seu país.
Metade das exportações bolivianas vai para o Mercosul, principalmente
para o Brasil e para a Argentina. Outros 30% vão para os Estados Unidos
e países do Pacto Andino, como a Colômbia e o Peru exatamente
os dois países com os quais Chávez está rompido. As exportações
bolivianas para os Estados Unidos, que alcançam 380 milhões de dólares
anuais, devem cair a partir de 2006, depois que terminar um acordo comercial que
nenhum dos dois países está interessado em renovar. "Como seu projeto
de liderança continental fracassou, Chávez está usando a
influência sobre países como a Bolívia para espezinhar e fazer
pressão sobre os grandes da região, como o Brasil, o Chile e a Argentina",
disse a VEJA Jorge Quiroga, presidente da Bolívia entre 2001 e 2002. Morales
está demonstrando empenho em seguir seu mestre.
Um vexame histórico Roberto
Setton
 | O
BRASIL FOI HUMILHADO O jurista Olavo Baptista:
Morales fez o jogo de Davi contra Golias |
O
jurista paulista Luiz Olavo Baptista tem uma função estratégica
nas disputas econômicas internacionais. Há quatro anos, ele ocupa
uma das sete cadeiras do órgão de apelação da Organização
Mundial do Comércio, uma espécie de suprema corte global dos negócios.
Baptista ficou indignado com a reação do governo Lula à invasão
das refinarias da Petrobras promovida pelo governo boliviano. Nesta entrevista
ao repórter Fábio Portela, ele diz que Lula submeteu o Brasil
a um vexame histórico.
A
BOLÍVIA DESRESPEITOU REGRAS DO DIREITO INTERNACIONAL AO TOMAR AS REFINARIAS
DA PETROBRAS? A principal regra do direito internacional é que
os Estados devem se tratar com respeito. A Bolívia, ao contrário,
humilhou o Brasil. O que o presidente Evo Morales fez é inaceitável
sob qualquer ponto de vista. Estou inconformado com o episódio e tenho
a impressão de que o Brasil inteiro também está. O pior é
receber o desaforo, a humilhação, e ver que quem deveria falar por
você não só deixa de reagir como diz que o outro está
certo. É um vexame histórico. COMO
O GOVERNO DEVERIA TER DEFENDIDO OS INTERESSES BRASILEIROS? Em primeiro
lugar, era preciso deixar claro que o Brasil não aceita a forma como foi
feita a tomada das refinarias, com tropas, invasões e aquela encenação
toda. Morales poderia ter alcançado o mesmo resultado sem humilhar o Brasil.
Por que agiu assim? Por uma razão política. Ele usou o Brasil para
dizer ao povo boliviano: olha, eu sou o Davi e derrubo o Golias com uma pedrada
só. Fez uma humilhação calculada. Portanto, a primeira coisa
que deveria ter sido feita era exigir um pedido formal de desculpas, o que, aliás,
também faz parte das negociações internacionais.
O QUE O BRASIL GANHARIA COM UM PEDIDO DESSES? A
posição brasileira nas negociações sairia fortalecida.
Do jeito que a coisa vai, os bolivianos continuam falando grosso e fazendo ameaças
mesmo depois de terem tomado os ativos da Petrobras. O Brasil ficou do jeito que
está de joelhos porque não reclamou. Quem vai respeitar
o Brasil depois disso? E
O QUE PODERIA SER FEITO PARA COMPENSAR O PREJUÍZO DAS EMPRESAS QUE PERDERAM
SEUS ATIVOS? Esse seria o segundo passo. Depois do pedido de desculpas,
o governo deveria exigir que a Bolívia ressarcisse imediatamente os brasileiros.
Também seria preciso montar equipes de advogados e levar o caso para a
Corte Internacional de Haia. Isso não ocorreu. Outra opção
seria oferecer proteção diplomática às empresas, dando
uma garantia oficial aos investimentos brasileiros. COMO
FUNCIONA A PROTEÇÃO DIPLOMÁTICA? O mecanismo é
assim: o governo entra com ações junto às cortes internacionais
para obrigar a Bolívia a indenizar o Brasil pelos bens expropriados. No
caso específico, os ativos da Petrobras. A Bolívia, então,
teria de explicar por que se acha no direito de tomar os bens alheios. Só
se poderia discutir o assunto da forma camarada como o Itamaraty está fazendo
depois que essas providências fossem tomadas.
ENTÃO NÃO FOI UMA BOA ESTRATÉGIA ABRIR
NEGOCIAÇÕES IMEDIATAMENTE? Foi péssimo. E pior: as
conversas nunca deveriam ter sido abertas pelos presidentes. Nenhuma negociação
internacional deve começar pelos chefes de Estado, porque, em última
instância, são eles que vão decidir. Quando os presidentes
entram em campo, acaba a margem de manobra que os diplomatas têm para negociar.
Por isso, qualquer amador sabe que assuntos dessa natureza e complexidade devem
primeiro ser tratados em nível ministerial. Lula aceitou aquela reunião
na Argentina, e o que aconteceu? Morales apareceu lá com Hugo Chávez
a tiracolo, posando de organizador da reunião. Nessa hora, Chávez
enterrou Lula definitivamente e acabou com qualquer pretensão do Brasil
de ser uma liderança latino-americana. O
CHANCELER CELSO AMORIM GARANTE QUE A LIDERANÇA DE LULA NA AMÉRICA
LATINA SEGUE FIRME. O ministro Amorim sabe o tamanho do estrago e tenta
remediá-lo. Ele declarou que Lula deu um pito em Chávez e em Morales
nos bastidores. Se isso tivesse de fato ocorrido, não deveria se tornar
público. Um diplomata experiente como Amorim não divulgaria essa
informação. O que ele quer é preservar a imagem do presidente.
Com essa intenção, acaba atuando como uma espécie de marqueteiro
internacional de Lula. Dessa forma, ele está destruindo sua reputação
e sua carreira. ALÉM
DA HUMILHAÇÃO, QUE OUTROS REFLEXOS A CRISE COM A BOLÍVIA
PODE TRAZER? Para os empresários nacionais, é uma tragédia.
O governo sinalizou o seguinte: não invistam no exterior, porque eu não
vou protegê-los. Para o resto do mundo, o recado é ainda pior: se
o investimento é de brasileiro, pode passar a mão grande, porque
o país não reage. Se o governo não faz nada pela Petrobras,
da qual ele é dono, imagine por outras empresas brasileiras.
A FRANÇA E A ESPANHA TAMBÉM
FORAM ATINGIDAS PELAS MEDIDAS DE MORALES. REAGIRAM COMO O BRASIL? Não.
Tomaram as providências cabíveis. Notificaram à Bolívia
que querem ser indenizadas imediatamente, e seus advogados já trabalham
para contestar judicialmente as expropriações.
O BRASIL PODERIA, ENTÃO, TER-SE RECUSADO A NEGOCIAR
O REAJUSTE DO PREÇO DO GÁS BOLIVIANO? Claro. O Brasil deveria
exigir o cumprimento dos contratos já firmados. Eles prevêem o reajuste
de preço a cada três meses, seguindo oscilações do
petróleo. Também prevêem a possibilidade de alteração
de suas cláusulas a cada cinco anos. Por causa disso, não se pode
dizer que os contratos não sejam equilibrados. Não há por
que rasgá-los de uma hora para a outra. Querem discutir o preço
do gás? Tudo bem, mas é preciso levar em conta outros elementos.
Inclusive o fato de que o Brasil pagou, durante anos, por um gás que não
consumiu. A Petrobras poderia ser compensada por isso. Seria legal, legítimo
e civilizado. Mais: se Morales quer mudar as regras, por que não vai a
Brasília negociar? O governo Lula, ao contrário, despacha autoridades
para discutir as regras em campo adversário.
O BRASIL E A BOLÍVIA INTEGRAM A COMUNIDADE SUL-AMERICANA
DE NAÇÕES. OS ATOS DE MORALES NÃO PODERIAM SER QUESTIONADOS
NO ÂMBITO DESSA ASSOCIAÇÃO? Nunca vi, na história
recente, uma época em que o Brasil estivesse tão isolado na América
Latina como agora. Veja: o país tentou emplacar o presidente da OMC e ficou
sozinho. Tentou o presidente do Banco Mundial e também ficou sozinho. No
Conselho de Segurança da ONU, além de estar sozinho, ainda enfrenta
a oposição de países como a Argentina. Nessa crise com a
Bolívia, nenhum outro país fez um gesto sequer de solidariedade.
A POLÍTICA EXTERNA
DE LULA NAUFRAGOU? Desde o barão do Rio Branco, a política
externa brasileira sempre teve a mesma linha mestra. Neste governo, houve uma
guinada política muito grande. Trocamos o pragmatismo pela ideologia, e
a coisa saiu dos trilhos. Desde que o presidente Lula assumiu, o país perdeu
respeito na América Latina. | | |