Edição 1956 . 17 de maio de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Auto-retrato
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Saúde
Luzes, câmeras e parentes

Maternidades ampliam e põem
amenidades nas salas de parto


Roberta Salomone

Fotos Roberto Setton
Daniela e Fabiano na LDR do São Luiz: cromoterapia e hidromassagem


Estigmatizadas como mimadas campeãs mundiais de cesarianas, vastas quantidades de brasileiras, mães de primeira ou muitas viagens, têm resistido a todas as tentativas de obrigá-las a abrir mão da segurança e da alta redução de dor do parto cirúrgico. Uma nova tendência, porém, começa a se configurar entre parturientes que dispõem de recursos, informação e interesse em conciliar o parto mais normal possível com o máximo possível de conforto. O conjunto de procedimentos genericamente denominado "parto humanizado" não é exatamente uma novidade, mas seus componentes estão mais refinados. Basicamente, são quartos repletos de amenidades montados nas maternidades (batizados de LDR, sigla de labor delivery room, que em inglês quer dizer sala de parto mesmo), dispondo de música ambiente, jogos de luz, substâncias aromatizantes e até uma espécie de personal parteira (algumas preferem o pedante doula, que em grego significa "mulher que serve"), encarregada de treinar a grávida para a hora H. "Confio muito na minha médica, mas acho que vou me sentir mais segura e tranqüila com a Stéphanie na hora do parto", explica a matemática Asla Medeiros e Sá, 32 anos, grávida de oito meses, que ensaia técnicas de relaxamento e respiração com a enfermeira francesa radicada no Rio de Janeiro Stéphanie Sapin-Lignières.

Atrativo proeminente em todas as maternidades de luxo, com fila de espera e tudo, as LDR são salas amplas, com poltronas confortáveis para os acompanhantes, decoração algo mais caprichada do que o padrão hospital, TV a cabo, DVD, acesso sem fio à internet e frigobar. Nelas se realizam apenas partos normais, mas o centro cirúrgico costuma ficar logo ao lado, pronto para uma eventual emergência. A Maternidade Perinatal, no Rio de Janeiro, tem uma dessas salas e o Hospital São Luiz, em São Paulo, chegou a investir 700.000 reais na construção de um único apartamento de 36 metros quadrados que se transforma em sala de parto. Enquanto a grávida enfrenta as contrações, os parentes mais próximos podem até circular por ali; só são convidados a se retirar para uma saleta anexa na hora do parto. "O efeito emocional e psíquico da presença da mãe da parturiente, por exemplo, nunca foi medido em nenhum trabalho científico, mas a nossa experiência mostra que a companhia dela é tão importante quanto a do pai do bebê", diz o diretor do hospital, Alberto D'Auria. Para a paciente relaxar, o apartamento dispõe de banheira de hidromassagem capaz de acolher a futura mãe e o ansioso pai em banhos que acompanham aromas variados, que vão da lavanda a um primal cheiro de terra. O teto tem iluminação especial: à medida que o trabalho de parto avança, a equipe médica aciona luzes de diferentes cores – vermelho para supostamente estimular as contrações, azul para relaxar. Grávida de oito meses, a paulista Daniela de Aquino e o marido, Fabiano, deixaram seu nome na fila e torcem para seu bebê nascer em horário vago. A procura pela LDR é tanta que se credita ao novo ambiente o principal motivo da duplicação dos partos normais no São Luiz. Mais uma sala especial do gênero será construída neste ano.

 

Parentes são apresentados ao recém-nascido: visor para a sala de parto

Figura assídua nas salas de parto há já algum tempo (ai do que tentar escapulir!), o pai agora tem a companhia de outros parentes, inclusive demais filhos, não lá dentro, mas quase. No Hospital Albert Einstein, em São Paulo, os quatro centros cirúrgicos têm janelas de vidro de cristal líquido que permitem a quem está fora ver o interior – a mãe deitada, os médicos e as enfermeiras, o papai orgulhoso apresentando o bebê – imediatamente após o nascimento. A mesma opção é oferecida pelo Hospital Mater Dei, de Belo Horizonte. Também é possível assistir às primeiras imagens do bebê em um telão instalado no bar da maternidade ou no computador de casa, graças a equipes especializadas em registrar e transmitir imediatamente as imagens do recém-nascido. Sem falar na doula, a acompanhante-treinadora que muitas grávidas insistem em levar consigo para a sala de parto. "Peço silêncio, meia-luz, e ensino o pai a dar o primeiro banho no bebê", conta Stéphanie, 58 anos, que busca inspiração nos velhos métodos de Frédérick Leboyer, obstetra francês e autor de livros como Nascer Sorrindo e Se Me Contassem o Parto. Stéphanie já acompanhou cerca de 2.500 partos, entre eles o da filha da atriz Cláudia Ohana e o da nora do compositor Caetano Veloso.

Oscar Cabral
Stéphanie, com Asla: treinamento para respirar e relaxar


A maioria dos médicos torce o nariz para a presença de tanta gente. "Qualquer inovação é bem-vinda quando permite tornar o parto menos traumático, mas é preciso bom senso sempre. Não dá para fazer uma festa dentro da sala", avisa o ginecologista e obstetra Wladimir Taborda, coordenador da maternidade do Einstein. E, mesmo contando com tantos atrativos, os procedimentos de parto humanizado ainda perdem de longe para a cesariana: segundo uma pesquisa da Agência Nacional de Saúde Suplementar, em 2004 cerca de 80% das mulheres com convênio médico no Brasil optaram pelo parto cirúrgico.

 
 
 
 
topovoltar