|
|
Saúde Luzes,
câmeras e parentes Maternidades
ampliam e põem amenidades nas salas de parto
 Roberta
Salomone
Fotos
Roberto Setton
 | | Daniela
e Fabiano na LDR do São Luiz: cromoterapia e hidromassagem |
Estigmatizadas como mimadas campeãs mundiais de cesarianas, vastas
quantidades de brasileiras, mães de primeira ou muitas viagens, têm
resistido a todas as tentativas de obrigá-las a abrir mão da segurança
e da alta redução de dor do parto cirúrgico. Uma nova tendência,
porém, começa a se configurar entre parturientes que dispõem
de recursos, informação e interesse em conciliar o parto mais normal
possível com o máximo possível de conforto. O conjunto de
procedimentos genericamente denominado "parto humanizado" não é
exatamente uma novidade, mas seus componentes estão mais refinados. Basicamente,
são quartos repletos de amenidades montados nas maternidades (batizados
de LDR, sigla de labor delivery room, que em inglês quer dizer sala
de parto mesmo), dispondo de música ambiente, jogos de luz, substâncias
aromatizantes e até uma espécie de personal parteira (algumas preferem
o pedante doula, que em grego significa "mulher que serve"), encarregada
de treinar a grávida para a hora H. "Confio muito na minha médica,
mas acho que vou me sentir mais segura e tranqüila com a Stéphanie
na hora do parto", explica a matemática Asla Medeiros e Sá, 32 anos,
grávida de oito meses, que ensaia técnicas de relaxamento e respiração
com a enfermeira francesa radicada no Rio de Janeiro Stéphanie Sapin-Lignières.
Atrativo proeminente em todas as maternidades
de luxo, com fila de espera e tudo, as LDR são salas amplas, com poltronas
confortáveis para os acompanhantes, decoração algo mais caprichada
do que o padrão hospital, TV a cabo, DVD, acesso sem fio à internet
e frigobar. Nelas se realizam apenas partos normais, mas o centro cirúrgico
costuma ficar logo ao lado, pronto para uma eventual emergência. A Maternidade
Perinatal, no Rio de Janeiro, tem uma dessas salas e o Hospital São Luiz,
em São Paulo, chegou a investir 700.000 reais na construção
de um único apartamento de 36 metros quadrados que se transforma em sala
de parto. Enquanto a grávida enfrenta as contrações, os parentes
mais próximos podem até circular por ali; só são convidados
a se retirar para uma saleta anexa na hora do parto. "O efeito emocional e psíquico
da presença da mãe da parturiente, por exemplo, nunca foi medido
em nenhum trabalho científico, mas a nossa experiência mostra que
a companhia dela é tão importante quanto a do pai do bebê",
diz o diretor do hospital, Alberto D'Auria. Para a paciente relaxar, o apartamento
dispõe de banheira de hidromassagem capaz de acolher a futura mãe
e o ansioso pai em banhos que acompanham aromas variados, que vão da lavanda
a um primal cheiro de terra. O teto tem iluminação especial: à
medida que o trabalho de parto avança, a equipe médica aciona luzes
de diferentes cores vermelho para supostamente estimular as contrações,
azul para relaxar. Grávida de oito meses, a paulista Daniela de Aquino
e o marido, Fabiano, deixaram seu nome na fila e torcem para seu bebê nascer
em horário vago. A procura pela LDR é tanta que se credita ao novo
ambiente o principal motivo da duplicação dos partos normais no
São Luiz. Mais uma sala especial do gênero será construída
neste ano.  | | Parentes
são apresentados ao recém-nascido: visor para a sala de parto |
Figura assídua nas salas de parto há já algum tempo (ai do
que tentar escapulir!), o pai agora tem a companhia de outros parentes, inclusive
demais filhos, não lá dentro, mas quase. No Hospital Albert Einstein,
em São Paulo, os quatro centros cirúrgicos têm janelas de
vidro de cristal líquido que permitem a quem está fora ver o interior
a mãe deitada, os médicos e as enfermeiras, o papai orgulhoso
apresentando o bebê imediatamente após o nascimento. A mesma
opção é oferecida pelo Hospital Mater Dei, de Belo Horizonte.
Também é possível assistir às primeiras imagens do
bebê em um telão instalado no bar da maternidade ou no computador
de casa, graças a equipes especializadas em registrar e transmitir imediatamente
as imagens do recém-nascido. Sem falar na doula, a acompanhante-treinadora
que muitas grávidas insistem em levar consigo para a sala de parto. "Peço
silêncio, meia-luz, e ensino o pai a dar o primeiro banho no bebê",
conta Stéphanie, 58 anos, que busca inspiração nos velhos
métodos de Frédérick Leboyer, obstetra francês e autor
de livros como Nascer Sorrindo e Se Me Contassem o Parto. Stéphanie
já acompanhou cerca de 2.500 partos, entre eles o da filha da atriz Cláudia
Ohana e o da nora do compositor Caetano Veloso.
Oscar
Cabral
 | | Stéphanie,
com Asla: treinamento para respirar e relaxar |
A maioria dos médicos torce o nariz para a presença de tanta
gente. "Qualquer inovação é bem-vinda quando permite tornar
o parto menos traumático, mas é preciso bom senso sempre. Não
dá para fazer uma festa dentro da sala", avisa o ginecologista e obstetra
Wladimir Taborda, coordenador da maternidade do Einstein. E, mesmo contando com
tantos atrativos, os procedimentos de parto humanizado ainda perdem de longe para
a cesariana: segundo uma pesquisa da Agência Nacional de Saúde Suplementar,
em 2004 cerca de 80% das mulheres com convênio médico no Brasil optaram
pelo parto cirúrgico. |