Edição 1956 . 17 de maio de 2006

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Copa
Verdadeiras seleções

Com atletas importados, altos
salários e grande faturamento,
clubes europeus valem e jogam
mais do que as equipes
de vários países


André Fontenelle


Toby Melville/Reuters
A equipe do Arsenal: só um inglês na final da Liga dos Campeões

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Especial: Copa 2006

Dos 22 jogadores que estarão em campo na decisão da Liga dos Campeões da Europa, na próxima quarta-feira, em Paris, dezessete fazem parte de seleções que disputarão a Copa do Mundo da Alemanha. Até os bancos de reservas dos dois finalistas – o Arsenal, da Inglaterra, e o Barcelona, da Espanha – estão repletos de craques de primeira grandeza: somando titulares e substitutos, as duas equipes contam com 26 atletas de doze países classificados para o Mundial. São times tão poderosos que, se pudessem disputar a Copa do Mundo, certamente fariam jogo duro com qualquer dos favoritos. "São duas verdadeiras seleções", diz o técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira. "O Barcelona, por exemplo, além dos craques, tem o mesmo time há dois anos."

Arsenal e Barcelona fazem parte do restrito grupo de clubes "globais", equivalentes a seleções mundiais, que somados movimentam anualmente bilhões de reais. Nesse grupo estão também o Real Madrid, da Espanha, o Chelsea, da Inglaterra, e o Milan, da Itália, entre outros. O surgimento desses supertimes tem duas causas: uma administração cada vez mais profissional do futebol na Europa, que levou os clubes de grande torcida a multiplicar o faturamento nos últimos anos, e o fim da limitação a três jogadores estrangeiros por time, fruto de uma decisão da Justiça européia em 1995. Os times se globalizaram a tal ponto que o Arsenal deve alinhar apenas um jogador inglês na partida de quarta-feira. O resto da equipe inclui um alemão, um brasileiro, um bielo-russo, um sueco, dois franceses, dois espanhóis e dois marfinenses.

Tom Hevezi/AP
Roberto Carlos e Beckham no treino do Real Madrid: uma seleção de estrelas em campo


A primeira conseqüência desse fenômeno foi a transformação da Copa dos Campeões da Europa, o qüinquagenário torneio que reúne os principais times do continente, na competição interclubes mais importante do planeta. Pomposamente rebatizada de Champions League, ela fatura 1,6 bilhão de reais por ano, entre patrocínios, direitos de transmissão e bilheteria. Calcula-se que a decisão de quarta-feira seja vista por 500 milhões de pessoas, total só superado, no futebol, pelas partidas decisivas da Copa do Mundo. A confederação européia, que organiza a liga, afirma que repassa 75% dos ganhos aos times participantes. Ganhando ou perdendo a decisão, o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho receberá, só em prêmios pela participação neste ano, pelo menos 50 milhões de reais.

Cientes de seu poderio crescente, os clubes mais ricos da Europa criaram uma associação, batizada de G14 em referência ao número inicial de membros (atualmente são dezoito sócios). O objetivo do G14 é maximizar os próprios lucros – à custa, se necessário, até da Copa do Mundo. Os clubes não gostam de ceder gratuitamente suas estrelas às seleções nacionais. A CBF, por exemplo, não paga um centavo ao Barcelona para contar com Ronaldinho Gaúcho nos jogos do Brasil. O G14 pleiteia uma indenização pela cessão dos jogadores, alegando que seu patrimônio corre risco. Um incidente menor serviu de pretexto para uma batalha jurídica entre os superclubes e a Fifa, a federação internacional de futebol. Um jogador marroquino do modesto Charleroi, um time da Bélgica que não faz parte do G14, machucou-se em uma partida da seleção de Marrocos. O Charleroi entrou nos tribunais pleiteando da Fifa uma indenização milionária. Por trás da ação na Justiça estaria a mão do G14, tentando criar um precedente que desembocasse numa regra aplicável a todas as seleções do mundo.


Carl de Souza/AFP
Arjen Robben e John Terry, do Chelsea: o dono não está nem aí com a limitação de salários

Os superclubes europeus encontram-se em um patamar muito superior ao dos demais. O Barcelona arrecada 590 milhões de reais por ano (veja quadro), seis vezes mais que os clubes brasileiros de maior faturamento em 2005, São Paulo e Santos. A CBF, que ganha mais que os times no Brasil, mal ultrapassa os 100 milhões de reais de receita, como mostrou seu balanço anual, discretamente publicado no mês passado. E ainda há potencial para os grandes clubes europeus ganharem mais dinheiro. O Arsenal inglês acaba de superar uma séria limitação. Suas arquibancadas têm apenas 39.000 lugares – e vivem lotadas porque a demanda por ingressos sempre supera a oferta. A solução foi construir um estádio novo, para 60.000 pessoas, que será inaugurado depois da Copa. Além da bilheteria extra que isso representará, o nome do estádio foi vendido por 360 milhões de reais à Emirates, companhia aérea dos Emirados Árabes Unidos. Com o Emirates Stadium, o Arsenal espera firmar-se entre os clubes globais do século XXI.

Tanto dinheiro circulando não significa, porém, que o futebol seja sempre um bom investimento. É que a competição para contratar os melhores jogadores leva a uma escalada dos salários. A tendência é que os clubes acabem torrando com craques tudo aquilo que arrecadam. Em parte por causa disso, fracassou a entrada dos clubes ingleses na bolsa de valores londrina, nos anos 90. Clubes como o Arsenal e o Barcelona vêm tentando limitar os custos salariais a 60% do faturamento, mas o mercado é inflacionado por bilionários com bolso sem fundo, como o russo Roman Abramovich, que gasta sem medir no Chelsea, da Inglaterra. "A solução será os clubes chegarem a um acordo e fixarem um teto salarial, como acontece no basquete americano", diz o analista Amir Somoggi, da Casual Auditores, especializada em negócios do futebol.

 
 
 
 
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