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Copa
Verdadeiras seleções
Com
atletas importados, altos salários e grande faturamento, clubes
europeus valem e jogam mais do que as equipes de vários países 
André Fontenelle
Toby Melville/Reuters  |
| A equipe do Arsenal: só um inglês na final da Liga dos
Campeões |
Dos 22 jogadores que estarão
em campo na decisão da Liga dos Campeões da Europa, na próxima
quarta-feira, em Paris, dezessete fazem parte de seleções que disputarão
a Copa do Mundo da Alemanha. Até os bancos de reservas dos dois finalistas
o Arsenal, da Inglaterra, e o Barcelona, da Espanha estão
repletos de craques de primeira grandeza: somando titulares e substitutos, as
duas equipes contam com 26 atletas de doze países classificados para o
Mundial. São times tão poderosos que, se pudessem disputar a Copa
do Mundo, certamente fariam jogo duro com qualquer dos favoritos. "São
duas verdadeiras seleções", diz o técnico da seleção
brasileira, Carlos Alberto Parreira. "O Barcelona, por exemplo, além dos
craques, tem o mesmo time há dois anos."
Arsenal e Barcelona fazem parte do restrito grupo de clubes "globais", equivalentes
a seleções mundiais, que somados movimentam anualmente bilhões
de reais. Nesse grupo estão também o Real Madrid, da Espanha, o
Chelsea, da Inglaterra, e o Milan, da Itália, entre outros. O surgimento
desses supertimes tem duas causas: uma administração cada vez mais
profissional do futebol na Europa, que levou os clubes de grande torcida a multiplicar
o faturamento nos últimos anos, e o fim da limitação a três
jogadores estrangeiros por time, fruto de uma decisão da Justiça
européia em 1995. Os times se globalizaram a tal ponto que o Arsenal deve
alinhar apenas um jogador inglês na partida de quarta-feira. O resto da
equipe inclui um alemão, um brasileiro, um bielo-russo, um sueco, dois
franceses, dois espanhóis e dois marfinenses.
Tom Hevezi/AP  |
| Roberto Carlos e Beckham no treino do Real Madrid: uma
seleção de estrelas em campo |
A primeira conseqüência desse fenômeno foi a transformação
da Copa dos Campeões da Europa, o qüinquagenário torneio que
reúne os principais times do continente, na competição interclubes
mais importante do planeta. Pomposamente rebatizada de Champions League, ela fatura
1,6 bilhão de reais por ano, entre patrocínios, direitos de transmissão
e bilheteria. Calcula-se que a decisão de quarta-feira seja vista por 500
milhões de pessoas, total só superado, no futebol, pelas partidas
decisivas da Copa do Mundo. A confederação européia, que
organiza a liga, afirma que repassa 75% dos ganhos aos times participantes. Ganhando
ou perdendo a decisão, o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho receberá,
só em prêmios pela participação neste ano, pelo menos
50 milhões de reais.
Cientes
de seu poderio crescente, os clubes mais ricos da Europa criaram uma associação,
batizada de G14 em referência ao número inicial de membros (atualmente
são dezoito sócios). O objetivo do G14 é maximizar os próprios
lucros à custa, se necessário, até da Copa do Mundo.
Os clubes não gostam de ceder gratuitamente suas estrelas às seleções
nacionais. A CBF, por exemplo, não paga um centavo ao Barcelona para contar
com Ronaldinho Gaúcho nos jogos do Brasil. O G14 pleiteia uma indenização
pela cessão dos jogadores, alegando que seu patrimônio corre risco.
Um incidente menor serviu de pretexto para uma batalha jurídica entre os
superclubes e a Fifa, a federação internacional de futebol. Um jogador
marroquino do modesto Charleroi, um time da Bélgica que não faz
parte do G14, machucou-se em uma partida da seleção de Marrocos.
O Charleroi entrou nos tribunais pleiteando da Fifa uma indenização
milionária. Por trás da ação na Justiça estaria
a mão do G14, tentando criar um precedente que desembocasse numa regra
aplicável a todas as seleções do mundo.
Carl de Souza/AFP  |
| Arjen Robben e John Terry, do Chelsea: o dono não está
nem aí com a limitação de salários | Os
superclubes europeus encontram-se em um patamar muito superior ao dos demais.
O Barcelona arrecada 590 milhões de reais por ano (veja
quadro), seis vezes mais que os clubes brasileiros de maior faturamento
em 2005, São Paulo e Santos. A CBF, que ganha mais que os times no Brasil,
mal ultrapassa os 100 milhões de reais de receita, como mostrou seu balanço
anual, discretamente publicado no mês passado. E ainda há potencial
para os grandes clubes europeus ganharem mais dinheiro. O Arsenal inglês
acaba de superar uma séria limitação. Suas arquibancadas
têm apenas 39.000 lugares e vivem lotadas porque a demanda por ingressos
sempre supera a oferta. A solução foi construir um estádio
novo, para 60.000 pessoas, que será inaugurado depois da Copa. Além
da bilheteria extra que isso representará, o nome do estádio foi
vendido por 360 milhões de reais à Emirates, companhia aérea
dos Emirados Árabes Unidos. Com o Emirates Stadium, o Arsenal espera firmar-se
entre os clubes globais do século XXI.
Tanto dinheiro circulando não significa, porém, que o futebol seja
sempre um bom investimento. É que a competição para contratar
os melhores jogadores leva a uma escalada dos salários. A tendência
é que os clubes acabem torrando com craques tudo aquilo que arrecadam.
Em parte por causa disso, fracassou a entrada dos clubes ingleses na bolsa de
valores londrina, nos anos 90. Clubes como o Arsenal e o Barcelona vêm tentando
limitar os custos salariais a 60% do faturamento, mas o mercado é inflacionado
por bilionários com bolso sem fundo, como o russo Roman Abramovich, que
gasta sem medir no Chelsea, da Inglaterra. "A solução será
os clubes chegarem a um acordo e fixarem um teto salarial, como acontece no basquete
americano", diz o analista Amir Somoggi, da Casual Auditores, especializada em
negócios do futebol. |