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Medicina Na
mira da genética Pesquisadores
identificam uma variação num cromossomo associada ao câncer
de próstata  Paula
Neiva
A edição de junho da
revista científica Nature Genetics trará uma pesquisa que
anuncia a descoberta de uma alteração genética associada
ao câncer de próstata, doença que afeta cerca de 50.000 brasileiros
por ano. Desde meados da década de 90, quando a busca por genes variantes
que predispõem a tumores ganhou impulso, já foram detectadas sete
mutações relacionadas ao câncer de próstata. Existe,
porém, uma diferença crucial em relação à alteração
que acaba de ser identificada. Enquanto as anomalias anteriores foram encontradas
apenas em pessoas da mesma população, a nova aparece em homens de
países e etnias diferentes. O estudo foi coordenado pela empresa deCODE
Genetics, que avaliou amostras do DNA de aproximadamente 1.300 islandeses com
o diagnóstico de câncer de próstata. Com o resultado em mãos,
cientistas americanos e suecos acessaram bancos de dados de seus países
e verificaram que a presença dessa variação genética
era comum a vários pacientes diagnosticados com o tumor. Feitos os devidos
cruzamentos estatísticos, os responsáveis pelo estudo chegaram à
conclusão de que os portadores da alteração tinham 60% mais
risco de desenvolver câncer de próstata. "A descoberta poderá
ajudar tanto na identificação de pessoas predispostas ao problema
quanto na escolha de tratamentos mais agressivos para determinados doentes", diz
o cancerologista Paulo Hoff, diretor do centro de oncologia do Hospital Sírio
Libanês. Os pesquisadores ainda não identificaram o local exato dessas
mutações. Sabe-se apenas que elas ocorrem no cromossomo 8. Essa
indefinição inviabiliza, por enquanto, a criação de
um teste comercial. Estima-se que um exame desse tipo só estará
disponível em laboratórios daqui a dois anos.
O estudo fornece ainda pistas sobre a razão de o câncer de próstata
ser mais freqüente e agressivo em homens negros: a mutação
no cromossomo 8 é duas vezes mais comum entre eles. A próstata é
uma glândula que desempenha um papel importante na fabricação
do sêmen, líquido que serve como meio de locomoção
aos espermatozóides. Uma das principais causas da formação
de tumores na região é a exposição contínua
à testosterona, o hormônio sexual masculino por excelência,
que estimula a multiplicação de células. Como a próstata
de homens mais velhos está há mais tempo sob a ação
do hormônio, isso explica a maior incidência desse câncer na
terceira idade. Metade dos homens acima de 70 anos e quase todos aqueles com mais
de 90 apresentam tumores na região. A descoberta de novos marcadores genéticos
é importante porque ajudará na triagem dos pacientes que manifestam
tumores potencialmente mais perigosos e que, por isso, podem ser beneficiados
por terapias mais contundentes. O
tratamento do câncer de próstata pode ser feito por meio da cirurgia
de retirada da glândula, de radioterapia ou de medicamentos que impedem
a ação da testosterona. Cerca de dois anos atrás, a quimioterapia
passou a constar da lista de recursos para tratar o câncer de próstata.
Para determinar qual a terapia mais adequada a cada paciente, os médicos
avaliam o estágio em que se encontra o tumor, o seu grau de agressividade
e a idade do doente. Outra variável avaliada é o PSA, um marcador
tumoral que, apesar de controverso, ainda é um dos principais indicativos
de tumores de próstata. "A partir desses dados é possível,
por exemplo, traçar o nomograma de Kattan, uma espécie de teste
que calcula a probabilidade de cura em cinco anos, se o paciente optar pela cirurgia",
afirma o urologista Alvaro Sarkis, do Hospital do Câncer A.C. Camargo, de
São Paulo. O câncer é
uma doença de origem genética. Ou seja, resulta de defeitos no DNA
das células, que fazem com que elas proliferem desordenadamente. Esses
defeitos podem ser herdados ou causados por fatores ambientais, como tabagismo
e obesidade. As variantes genéticas herdadas, como a que acaba de ser descoberta,
causam cerca de 10% de todos os tipos de tumor. Apesar de relativamente pequeno,
esse porcentual equivale a um número significativo de pessoas que, mesmo
investindo em hábitos de vida saudáveis, continuam sob um risco
maior de desenvolver a doença. O resultado positivo em um exame genético
aumenta as chances de detecção precoce de tumores. Por isso, a identificação
de alterações que predispõem ao câncer é uma
das linhas de pesquisa mais importantes da oncologia. Já são feitos
em laboratório alguns exames que rastreiam genes anormais (veja
o quadro), como o BRCA1 e o BRCA2, que, quando apresentam mutações,
causam tumores de mama ou ovário em até 85% de suas portadoras.
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