Edição 1956 . 17 de maio de 2006

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Medicina
Na mira da genética

Pesquisadores identificam uma variação num
cromossomo associada ao câncer de próstata


Paula Neiva


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os genes do câncer

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A edição de junho da revista científica Nature Genetics trará uma pesquisa que anuncia a descoberta de uma alteração genética associada ao câncer de próstata, doença que afeta cerca de 50.000 brasileiros por ano. Desde meados da década de 90, quando a busca por genes variantes que predispõem a tumores ganhou impulso, já foram detectadas sete mutações relacionadas ao câncer de próstata. Existe, porém, uma diferença crucial em relação à alteração que acaba de ser identificada. Enquanto as anomalias anteriores foram encontradas apenas em pessoas da mesma população, a nova aparece em homens de países e etnias diferentes. O estudo foi coordenado pela empresa deCODE Genetics, que avaliou amostras do DNA de aproximadamente 1.300 islandeses com o diagnóstico de câncer de próstata. Com o resultado em mãos, cientistas americanos e suecos acessaram bancos de dados de seus países e verificaram que a presença dessa variação genética era comum a vários pacientes diagnosticados com o tumor. Feitos os devidos cruzamentos estatísticos, os responsáveis pelo estudo chegaram à conclusão de que os portadores da alteração tinham 60% mais risco de desenvolver câncer de próstata. "A descoberta poderá ajudar tanto na identificação de pessoas predispostas ao problema quanto na escolha de tratamentos mais agressivos para determinados doentes", diz o cancerologista Paulo Hoff, diretor do centro de oncologia do Hospital Sírio Libanês. Os pesquisadores ainda não identificaram o local exato dessas mutações. Sabe-se apenas que elas ocorrem no cromossomo 8. Essa indefinição inviabiliza, por enquanto, a criação de um teste comercial. Estima-se que um exame desse tipo só estará disponível em laboratórios daqui a dois anos.

O estudo fornece ainda pistas sobre a razão de o câncer de próstata ser mais freqüente e agressivo em homens negros: a mutação no cromossomo 8 é duas vezes mais comum entre eles. A próstata é uma glândula que desempenha um papel importante na fabricação do sêmen, líquido que serve como meio de locomoção aos espermatozóides. Uma das principais causas da formação de tumores na região é a exposição contínua à testosterona, o hormônio sexual masculino por excelência, que estimula a multiplicação de células. Como a próstata de homens mais velhos está há mais tempo sob a ação do hormônio, isso explica a maior incidência desse câncer na terceira idade. Metade dos homens acima de 70 anos e quase todos aqueles com mais de 90 apresentam tumores na região. A descoberta de novos marcadores genéticos é importante porque ajudará na triagem dos pacientes que manifestam tumores potencialmente mais perigosos e que, por isso, podem ser beneficiados por terapias mais contundentes.

O tratamento do câncer de próstata pode ser feito por meio da cirurgia de retirada da glândula, de radioterapia ou de medicamentos que impedem a ação da testosterona. Cerca de dois anos atrás, a quimioterapia passou a constar da lista de recursos para tratar o câncer de próstata. Para determinar qual a terapia mais adequada a cada paciente, os médicos avaliam o estágio em que se encontra o tumor, o seu grau de agressividade e a idade do doente. Outra variável avaliada é o PSA, um marcador tumoral que, apesar de controverso, ainda é um dos principais indicativos de tumores de próstata. "A partir desses dados é possível, por exemplo, traçar o nomograma de Kattan, uma espécie de teste que calcula a probabilidade de cura em cinco anos, se o paciente optar pela cirurgia", afirma o urologista Alvaro Sarkis, do Hospital do Câncer A.C. Camargo, de São Paulo.

O câncer é uma doença de origem genética. Ou seja, resulta de defeitos no DNA das células, que fazem com que elas proliferem desordenadamente. Esses defeitos podem ser herdados ou causados por fatores ambientais, como tabagismo e obesidade. As variantes genéticas herdadas, como a que acaba de ser descoberta, causam cerca de 10% de todos os tipos de tumor. Apesar de relativamente pequeno, esse porcentual equivale a um número significativo de pessoas que, mesmo investindo em hábitos de vida saudáveis, continuam sob um risco maior de desenvolver a doença. O resultado positivo em um exame genético aumenta as chances de detecção precoce de tumores. Por isso, a identificação de alterações que predispõem ao câncer é uma das linhas de pesquisa mais importantes da oncologia. Já são feitos em laboratório alguns exames que rastreiam genes anormais (veja o quadro), como o BRCA1 e o BRCA2, que, quando apresentam mutações, causam tumores de mama ou ovário em até 85% de suas portadoras.

 
 
 
 
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