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Brasil De
doido ele não tem nada Silvinho
revela como Marcos Valério pretendia arrancar dinheiro dos cofres
públicos  Marcio
Aith e Felipe Patury
Sebastião
Moreira/AE
 | | Silvio
Pereira: lobby de Valério para Opportunity, Mercantil e Econômico
renderia até 1 bilhão de reais | |
Na semana passada,
o ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira reacendeu a crise política.
Em uma entrevista ao jornal O Globo, o ex-dirigente petista disse que o
caixa dois do seu partido era abastecido por empresas que superfaturavam contratos
com o governo. Contou que seu colega Delúbio Soares perdeu o controle dos
pagamentos do mensalão feitos no Banco Rural, enquanto ainda comandava
a tesouraria do PT. Afirmou que o partido se tornou refém do lobista carequinha
Marcos Valério durante o governo Lula. Silvinho confirmou ainda que o interesse
de Marcos Valério era intermediar alguns grandes negócios que dependiam
do governo. Entre eles, a solução dos problemas do Opportunity na
Brasil Telecom e o fim das liquidações dos bancos Econômico
e Mercantil de Pernambuco. Segundo ele, o carequinha acreditava que esses projetos
poderiam render-lhe até 1 bilhão de reais.
Quando foi convocado pela CPI dos Bingos para explicar suas declarações
ao jornal carioca, o ex-dirigente petista deu uma desculpa que lhe franquearia
uma estadia numa clínica psiquiátrica: "Não sei o que é
fato, o que não é, o que eu criei". À Polícia Federal,
Silvinho disse que leu as histórias sobre as liquidações
bancárias em VEJA. De fato, Silvinho pode estar enfrentando uma crise nervosa,
mas não há sinal de que ela tenha lhe turvado a memória.
Como VEJA já revelara, a decisão de atender aos pleitos do lobista
já havia sido tomada pelos então ministros José Dirceu (Casa
Civil), Antonio Palocci (Fazenda) e pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. O projeto só foi sustado pela eclosão do escândalo
do mensalão. O que se sabe agora é que, por ordem de Lula e Dirceu,
o procurador-geral do Banco Central, Francisco José de Siqueira, chegou
a elaborar uma minuta de medida provisória que permitiria encerrar as liquidações
do Mercantil e do Econômico. O projeto transferiria do Banco Central para
o Ministério da Fazenda a tarefa de cuidar dos bancos sob liquidação.
Ailton
Freitas/Ag. O Globo
 | "Só
tratei do assunto Mercantil de
Pernambuco internamente com as pessoas do Banco Central." Francisco
José de Siqueira, procurador-geral
do Banco Central |
A
minuta foi elaborada a partir do segundo semestre de 2004, quando o presidente
do Banco Central, Henrique Meirelles, ainda resistia a pressões de Lula,
Dirceu e Palocci. Para aliviar as pressões que sofria, Meirelles determinou
que seus assessores parassem de dar declarações contrárias
ao fim da liquidação dos dois bancos. O diretor do BC responsável
pela área, Antonio Gustavo do Vale, foi admoestado a não mais dizer
que os ex-banqueiros Armando Monteiro Filho, do Mercantil de Pernambuco, e Ângelo
Calmon de Sá não sairiam das liquidações com dinheiro,
o que prejudicaria os planos de Marcos Valério. Simultaneamente, a área
jurídica do BC começou a elaborar o projeto de transferência
de responsabilidades. A existência
do projeto foi relatada a VEJA por um assessor da área econômica,
dois técnicos do BC e um diretor da instituição. No relato
deste último, Siqueira teria feito o texto à revelia de Meirelles
e teria sido auxiliado por um jurista pernambucano. O procurador admite que tratou
do caso, mas nega que tenha lançado mão do tal jurista. "Só
tratei do assunto do Mercantil de Pernambuco internamente, com as pessoas do Banco
Central", afirma. Beto
Barata/AE
 | | Lula
a Meirelles: "Não dá para vocês ganharem todas" |
No
início de 2005, Marcos Valério informou a Calmon de Sá que
o BC estava elaborando uma MP que resolveria seu caso. "Ele me contou, mas eu
não dei muita bola. Além disso, meu advogado tinha dúvidas
sobre a legalidade da medida", diz o ex-banqueiro. Calmon de Sá conta que,
na ocasião, já depositava poucas esperanças na eficiência
do lobby do carequinha. Marcos Valério lhe havia prometido um encontro
com Palocci que nunca ocorrera. Nesse momento, Calmon de Sá já apostava
em outro interlocutor: André Esteves, que, na semana passada, vendeu o
Pactual ao suíço UBS por uma bolada de 2,6 bilhões de dólares.
Ainda no governo Fernando Henrique
Cardoso, Esteves havia se debruçado sobre o caso do Econômico. Concluíra
que era possível encerrar a liquidação com a venda em leilão
dos títulos públicos cambiais que estavam na carteira do banco quebrado.
Mais: acreditava que poderia ganhar um bom dinheiro com a modelagem do leilão.
Esteves tinha potencial para resolver o problema. Tem boa reputação,
mantém bons amigos no Tesouro Nacional e desfruta a intimidade de Palocci.
Tanto que um conjunto de e-mails sobre o assunto trocados por Esteves e Calmon
de Sá acabou sendo apresentado pelo ex-ministro a um integrante da equipe
econômica. Marcos Valério
vislumbrou uma oportunidade de negócios no fim das liquidações
bancárias porque prestava serviços de lobby ao Banco Rural. No governo
FHC, o Rural comprou uma parte do Banco Mercantil de Pernambuco. Com a mudança
de governo, os patrões de Valério imaginavam que poderiam comprar
o resto do Mercantil, que está abarrotado de títulos públicos
cambiais iguais aos do Econômico. Como os casos são semelhantes,
Valério passou a acreditar que poderia ganhar uma gorda comissão
do Rural e outra do Econômico por apenas um lobby, já que a solução
adotada para um resolveria também o caso do outro. Por isso, procurou Calmon
de Sá. "Em 2004 ele disse que poderia fazer o Banco Central suspender a
liquidação. Não queria nada em troca, mas que eu contribuísse
para o PT quando estivesse tudo resolvido. Aceitei", relata Calmon de Sá.
Celso
Junior/AE
 | | Marcos
Valério: o carequinha conhece o projeto da MP dos bancos |
Com o deputado Virgílio Guimarães no papel de cicerone, Valério
iniciou suas investidas sobre o BC. No fim de 2003, começou a tentar convencer
o diretor Vale a permitir que o Rural comprasse o Mercantil e ficasse com os tais
títulos cambiais. Freqüentava seu gabinete no BC e, pelo menos uma
vez, aceitou um convite de Valério para discutir o assunto no bar. Do fim
de 2003 até maio de 2005, Marcos Valério teve dez reuniões
na Diretoria de Liquidações do BC. Conquistou a simpatia de um dos
assessores de Vale, mas teve pouco êxito no projeto. Como não conseguiu
furar o bloqueio na área técnica do BC, Marcos Valério recorreu
aos escalões superiores do governo. Em 2004, Palocci passou a pedir que
Meirelles tratasse o Mercantil e o Econômico com "carinho". Meirelles relutou.
Palocci devolveu: "Você sabe, não dá para ganhar todas". No
segundo semestre de 2004, o então ministro convocou Meirelles para uma
reunião a três com o presidente Lula.
Uma vez no Planalto, o presidente do BC descobriu que Palocci não participaria
do encontro. Na ante-sala do presidente, Meirelles constatou que Lula estava trancado
com o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando
Monteiro Neto, filho do dono do Mercantil de Pernambuco. A caminho do gabinete
presidencial, Meirelles cumprimentou Monteiro Neto, que afirma jamais ter tratado
da liquidação da instituição com Lula. Meirelles encontrou
Lula irritado. Quando falou dos bancos, o presidente repetiu a frase de Palocci:
"Não dá para vocês ganharem todas".
O relato acima foi feito a VEJA por um confidente de Meirelles. Ele tomou conhecimento
desses episódios logo depois de eles terem acontecido. Soube também
como o presidente do BC interpretou essas conversas. Meirelles foi chamado por
Lula em um momento em que balançava no cargo. Desde abril, Meirelles acreditava
que sua situação no governo era delicada. O PT, sob o comando de
José Dirceu, exigia a mudança da política monetária.
Naquele mês, Palocci havia lhe dito que a munição que usara
para defendê-lo tinha acabado. A partir de então, a decisão
de mantê-lo no posto seria exclusiva do presidente. Meirelles tomou providências
para não ser surpreendido por uma eventual demissão. Solicitou,
por exemplo, aos técnicos do BC que limpassem os arquivos pessoais de seus
computadores. Seguro de que Lula,
Dirceu e Palocci queriam encerrar as liquidações, Marcos Valério
espalhou, no início de 2005, que a operação seria realizada.
Entre fevereiro e maio do ano passado, o carequinha foi quatro vezes ao gabinete
do diretor Vale. Numa delas, perguntou-lhe se ele já sabia da MP elaborada
por determinação de José Dirceu. O último dos encontros
de Valério com o diretor do BC aconteceu dez dias antes de o escândalo
do mensalão vir à tona. Como se vê pelo relato acima, Silvio
pode ter tido uma crise nervosa, mas o surto não invalida o fato de que
ele assistiu ao esquema do mensalão de um posto privilegiado. Silvinho
goza de boa memória e não rasga dinheiro. |